…desenhando passagens da guerra! – “…os Amigos!”

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 Quase todos os antigos combatentes, quando escrevem as suas memórias, mencionam os seus companheiros, os seus amigos, aqueles que estiveram a seu lado, durante o horroroso conflito armado, por que passaram!.

ijh

É uma verdade, todos, mesmo todos, se fechar-mos os olhos por momentos, recordamos o amigo, aquele que não era muito amigo, e até aquele que era mesmo um pequeno inimigo e, fazemos isso, talvez porque naquela altura, estávamos numa idade jovem, eram os “verdes anos”, ainda estávamos a gravar no pensamento, tudo o que era novo, as pessoas que nunca tinhamos visto antes, umas que eram parecidas com nós, na sua maneira de proceder, outras não, algumas eram instruídas e absorvia-mos as suas palavras, que para nós era novidade, outras que eram rudes na maneira de se exprimirem, mas com bons sentimentos, enfim, sem nos aperceber-mos estáva-mos a frequentar, embora num cenário perigoso, uma boa “escola da vida”.

hhhh

O “Cifra”, pois era este o nome guerra que o Tony tinha em zona de combate, teve lá um amigo, naquele perigoso cenário de guerra onde esteve envolvido, que nunca o mencionou aqui e, também nunca lhe colocou qualquer nome de guerra e, também não é agora que lhe vai pôr, porque sempre respeitou o seu sofrimento, portanto vai tratá-lo única e simplesmente por “amigo”, era das ilhas, falava com um sotaque de voz diferente, também era operador cripto, sofria a ausência da sua esposa e um filho, que deixou nas ilhas, todos os dias procurava um local um pouco longe dos demais, colocava-se de joelhos, quase sempre com a cara virada para o que julgava ser as ilhas de onde era oriundo, falava umas lamúrias, que devia ser rezar, chorava, de vez em quando  levantava a cara e as mãos e fazia umas preces, em voz alta.

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Este amigo, trazia a fotografia da esposa e do filho, sempre consigo, fez um pequeno quadro onde colocava essa fotografia, e sempre que entrava de serviço, esse quadro era colocado na mesa onde decifráva-mos as mensagens, de vez em quando o “Cifra” via-o a falar sozinho e questionado, dizia que falava com a esposa, escrevia um aerograma por dia para a sua esposa e talvez família, um maço de cigarros durava-lhe para três dias, bebia um pouco de vinho na altura da refeição, não ia para a “tabanca”, que era uma aldeia, próxima do aquartelamento onde estavam acantonados, não convivia com mais ninguém, a não ser com o pessoal da cifra ou das transmissões, a sua roupa estava sempre impecável e, dizia que era assim que a sua esposa queria que ele andasse, durante dois anos nunca criou problemas com ninguém, em outras palavras, vivia o seu mundo de saudade da sua família, sofrendo e criando  alguma angústia.

fffff

O “Cifra”, sempre pensou, que este amigo, sim, sofreu com a guerra, sofreu tudo o que aquela zona de conflito onde estava estacionado lhe proporcionava, menos talvez o contacto directo com os guerrilheiros, que os militares de acção tinham, mas tirando essa vertente, este amigo sofreu todas as horas, todos os dias que foram a sua estadia em Mansoa, lá na Guiné.

O seu aspecto, no final da comissão, era de uma pessoa com muito mais idade, do que na realidade tinha, criou algumas rugas na testa e, já caminhava um pouco curvado para a frente.

Dizia que era oriundo das “Flores”, a ilha mais linda dos Açores e, mais perto de outro continente.

Tony Borie, 2013.

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