…o meu alferes miliciano Bobone!

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…eu estava bastante triste, tinha acabado de chorar, possivelmente usei aquele lenço branco, de pano cru, igual às duas toalhas do mesmo pano que nos foram distribuídas e faziam parte do nosso “espólio”!.

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…com o desespero devia ter tossido, cuspido no chão, talvez pensando que com esse gesto limpava a garganta e aliviava a dor, a dor da despedida de Portugal, da família, dos “primos de Lisboa”, que “banhados em lágrimas”, estavam lá e  subiram comigo a bordo do navio “Ana Mafalda”!.

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…ninguém reparava em mim, quase todos os presentes só tinham “olhos” para os seus familiares, era um jovem e ninguém falava em meu favor, não havia as televisões ou os jornais, procurando notícias sensacionais, para abrirem os noticiários!.

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…éramos um “monte” de militares, que devíamos ir unidos, mas naquele momento  éramos um “monte” de pequenos grupos, abraçados, cabeça baixa, porque se a levantássemos podíamos ver algumas pessoas, cá em baixo no cais, com os tais lenços ou farrapos brancos, acenando, despedindo-se, daqueles militares que iam para África!.

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…naquela altura penso também que a minha mente devia de ter ficado bloqueada ao ouvir o apito do navio, a dar o sinal para os familiares o abandonarem!.  

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…eu não sabia nada do que ia ser a minha experiência na então província da Guiné, só sabia que ia para lá. Aquela sensação de aventura, que quase todos nós sentíamos em ir para a guerra em África, era só isso e mais nada, que nos dava alguma força para lutar, “pois ninguém ama a guerra, todos nós a  odiamos”!.

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…hoje, cinquenta anos depois, sinto algum orgulho da coragem de um jovem que eu era, pois quando servimos a nação e, essa nação tem problemas, nós como cidadãos somos vistos como parte desse mesmo problema, e também sinto alguma fúria e tristeza, se por acaso pratiquei alguma acção menos digna, daquelas onde em cenário de guerra  aparecem com muita frequência!.

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…companheiros, em cima dizia eu, “subiram comigo a bordo do navio Ana Mafalda”, é uma coisa um pouco estranha, civis a bordo, a despedirem-se dos militares, pois é verdade, isso aconteceu. O causador de todo esse “unusual evento”, que devia fazer parte da história da guerra colonial, foi um companheiro do meu Agrupamento 16, o único que consegui “descobrir”, nas minhas constantes buscas, “o meu alferes Bobone”, que hoje com muita simpatia trato por Alexandre, que na altura não gostava que lhe prestassem a respectiva saudação e, como militar mais graduado era o comandante militar do navio, transformado durante aqueles cinco ou seis dias em “base militar”!.

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…era mais um companheiro, viajou connosco, logo muito cedo começou a ganhar a simpatia e respeito de todos os militares, pois era simples no trato, comunicativo e frontal, desembarcámos em Bissau, esteve connosco, primeiro num acampamento junto ao porto de desembarque, agregados a uma  companhia de infantaria, portanto militares de acção, tal como quase todos nós, foi picado pelos mosquitos, dormiu em barracas, calcou a lama do acampamento, bebeu aquela água turva e quente e, como quase todos nós sabemos, naquela parte de África, a humidade e o calor nos primeiros dias “matavam”!.

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…já aquartelados em Mansoa, onde a princípio, os militares usavam um edifício que diziam que era uma antiga missão de padres de uma congregação francesa, passado uns tempos, já com o aquartelamento em construção,  a sua esposa veio juntar-se a ele, era uma “lufada de ar fresco”, que veio para aquela vila, onde não havia nenhuma senhora europeia, também ouvio os tiros e rebentamentos na altura dos ataques ao aquartelamento, esteve sujeita à ementa do “arroz e peixe da bolanha”!.

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 …vinham refugiar-se nos abrigos que se iam construindo, veio de férias a Portugal, visitou a família dos militares que estavam sobre o seu comando, levou um filme, com imagens a preto e branco, com os familiares a falarem, a rirem-se ou chorarem, a casa onde nasceram, a vila ou aldeia, com a placa de sinalização da localidade de onde eram oriundos!.

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…nas circunstâncias em que vivíamos, valia mais aquelas imagens, do que toda a “fortuna do mundo” e, talvez sem o imaginarem, com estes gestos simples, ajudaram e motivaram mais os militares do que todas as medalhas ou louvores, que eram frequentes em cenário de guerra!.

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…com muita alegria, hoje, passado cinquenta anos trocamos frequentes mensagens, e um dia destes ao abrir o computador veio esta, a lembrar aquele dia, que nos vai acompanhar pelo resto da nossa vida!. 

 Faz hoje (dia 23 de Maio de 2014) 50 anos que, no “Ana Mafalda”, partimos para a Guiné Portuguesa.

E o mais curioso é ter sido eu (um simples Alferes Miliciano de 21 anos), por – imagine-se – ser o mais graduado, ter ficado como responsável militar pelo navio, então “transformado” em base militar.

 E o ainda mais curioso, porque julgo ter sido caso único em todos os embarques para o Ultramar, foi a permissão, graças à minha posição de responsável militar e ao meu sogro (Oficial da Marinha), para que todos os membros familiares dos militares que iam partir em missão de soberania, terem podido entrar no navio e despedirem-se, in loco, de cada um de nós.

 E esta, hem!!!

…e agora digam lá, não é no mínimo saudável, ouvir estas palavras, hoje, passados cinquenta anos!.

Maio de 2014.

Tony Borie