…a fé por vezes, ajuda!.

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…o então combatente “Cifra” durante a sua passagem por aquela maldita e horrorosa guerra em África, tinha um diário que uma madrinha de guerra lhe ofereceu, onde a certa altura começou a apontar algumas datas com acontecimentos dignos de algum registo e, é desse diário que vai escrevendo algumas memórias!.

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…hoje, passado quase meio século, ao ler algumas passagens, revolta-se, sofre, ao recordar os companheiros, alguns, que lá ficaram para sempre, mas recolhe-se num silêncio profundo, que o ajuda a passar por essa fase, menos feliz!.

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…naquele tempo, era jovem e, em Portugal, tinha sido treinado para se saber defender e, também para saber matar, com eficácia, rápido, com, ou sem dor!.

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…quando o Movimento Nacional Feminino, que era uma organização, que tentava ajudar “moralmente”, os militares em zona de combate, oferecendo, entre outros objectos,  imagens de Nossa Senhora de Fátima, que eram parecidas com cartas de jogar, os militares usavam-nas no seu capacete, (alguns até tinham essa imagem tatuada em várias partes do seu corpo, com maior incidência   nos braços), principalmente quando saíam para combate, ou seja, o que se dizia na gíria, “para o mato”!.

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…se lhes perguntassem porquê o faziam, respondiam, “que era uma fé”!. Mas vamos continuar, algumas páginas desse diário, dizem, no dia tal, à hora tal, uma “praga de mosquitos”, blá, blá, blá, noutra página diz, houve um ataque ao aquartelamento às quatro da madrugada, blá, blá, blá, mas em determinada página diz mais ou menos assim:

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 …saiu do aquartelamento, ainda era noite, um grupo de militares, formado mais ou menos, por duas secções de combate e uns tantos soldados milícias, transportados em viaturas auto, que foram em normal patrulha, que foram deixados, de nove a dez quilómetros do aquartelamento, na estrada, que pouco mais é do que um carreiro, que sai de Mansoa para Bissorã. Tinham por missão, fazer uma normal patrulha de inspecção no terreno, nunca se distanciando muito da referida estrada, vigiando e interrogando pessoas, ou identificando qualquer outra anomalia que achem estranha, tudo isto na região sul da referida estrada, regressando ao aquartelamento a pé. 

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…tinham andado uns quilómetros, metendo-se um pouco no mato, e aproximaram-se de uma “bolanha” (terreno alagadiço, onde entre outras coisas, se cultivava arroz), encontrando três homens africanos trabalhando, os militares ficaram desconfiados de não verem mulheres ou crianças, pois normalmente eram elas que trabalhavam na “bolanha”. Os militares, talvez na esperança de pedirem a identificação a esse pessoal, pois essa era uma das suas principais missões, ao aproximarem-se, ainda em terreno seco e com alguma vegetação, a determinado momento foram surpreendidos por uma emboscada que os guerrilheiros tinham montada, do lado de lá da bolanha. Mais tarde houve informações, de que aqueles três estavam a servir de isco para a patrulha se aproximar!.

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…houve fogo intenso, que durou quase quinze minutos, os militares desesperados consumiram quase todas as suas munições, tanto granadas ofensivas, granadas de morteiro, como balas, havendo somente um ou dois soldados mais receosos, com alguns carregadores ainda com balas!.

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…passado algum tempo, deixou-se de ouvir o som de tiros, aos poucos levantaram-se, chamaram uns pelos outros e estavam todos, sem um único morto ou qualquer ferimento. Não havia mais sinal de guerrilheiros, nem pessoal a trabalhar na “bolanha”, alguns diziam que viram dois desses trabalhadores a fugirem debaixo de fogo,  feridos e, os militares sem munições, sem mortos ou feridos e, a olharem uns para os outros, ficando com alguma alegria, dentro daquele cenário de guerra. Já tinham comunicado ao aquartelamento pela rádio, durante a emboscada, a situação em que se encontravam, que lhe enviara imediatamente reforços em seu auxílio. Regressaram à estrada sem mais qualquer confronto, pois os guerrilheiros bateram em retirada!.

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…quando regressaram ao aquartelamento, abraçados, com os olhos vermelhos de chorarem e, ainda com algumas lágrimas, cantavam: 

– “Avé, Avé, Avé Maria!. Foi um milagre de Nossa Senhora! Estamos todos vivos! 

O agora Tony, sempre pensou que foi uma emboscada, onde os militares tiveram única e simplesmente sorte e, os guerrilheiros, talvez ainda sem muita experiência, pois não esperaram que os militares se aproximassem, fizeram fogo durante algum tempo, batendo em seguida em retirada, pois sabiam que estavam perto do aquartelamento e, em seguida viriam reforços. Só não sabiam, com toda a certeza, é que os militares naquela altura estavam à sua mercê, pois não tinham mais munições!

Mas seria só sorte?

Tony Borie, Setembro de 2014.

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