…the Camera!

…a Máquina Fotográfica! (The Camera!)

…a Kodak, que era a primeira máquina fotográfica que o Cifra tinha, desapareceu por altura de um desastre de avioneta, no norte, perto da fronteira. Numa das suas fugidas, no carro dos doentes, à capital da província, o Cifra comprou outra, agora uma Konica, já com mais botões e complicada, tirava fotografias quase como nas revistas!.

..nas suas viagens pelas diferentes zonas de guerra, na entrega do tal material classificado, o Cifra fazia dezenas de fotografias, umas do ar, outras em terra, algumas chocantes, outras de paisagens deslumbrantes da selva, de animais, de pássaros exóticos, de cenários de guerra, de colegas, enfim, de tudo o que entendesse que era útil fotografar. Os rolos para a máquina, a preto e branco, vinham da capital, dos serviços cartográficos do exército, onde também eram processadas as fotografias, pois o amigo Braga, ali em serviço, que tinha andado no grupo folclórico da sua terra natal, e já conhecia o Cifra das andanças folclóricas, antes do serviço militar em Portugal, encarregava-se de todo esse processo!.

…conseguia, ninguém sabia como, os rolos de películas e papel de fotografia, reproduzia centenas de fotos iguais, daquelas com motivos mais importantes, que depois dispensava aos militares mais novos que iam chegando a Mansoa, e que tinham curiosidade em ver como era a Guiné, ou simplesmente oferecia aos amigos, tudo isto acontecia na normalidade, até que algumas fotografias, das mais ousadas, começaram a correr de mão em mão no aquartelamento. Como o Cifra era popular e conhecido, pois já estava estacionado há bastante tempo neste aquartelamento, chegou ao conhecimento do comandante, porque o sargento da messe, que era amigo do Cifra, e a quem lhe dava algumas fotografias daquelas mais ousadas, que se regalava a apreciar, enquanto o Cifra lhe fazia as contas, porque ele se via aflito para as referidas contas acabarem em zero e, sem saber se cometia alguma asneira, um dia disse, na sala onde comiam os oficiais:

– quem tem essas fotografias é o Cifra!. 

…um certo dia, ao entregar uma mensagem, já decifrada no comando, o comandante, chama-o, lá de dentro, e pergunta-lhe:

– ouve lá, que história é essa das fotografias?. Andas sempre metido em disparates, ninguém tem mão em ti, só endireitas com uma valente “porrada”!.

…o Cifra ia para dizer algumas palavras, mas o comandante, com voz de comandante, logo lhe diz:

– cala-te, traz-me cá essas fotografias para eu ver!. 

…o Cifra ficou um pouco apreensivo e pensou:

– agora, que falta tão pouco tempo para regressar, vou apanhar algum castigo e não saio mais daqui!. 

…francamente, ao Cifra não lhe importava nada um castigo em papel, pois não gostava do serviço militar e dos seus regulamentos, pois só falavam de guerra, de disciplina, de prisão, de punições. Um dia até ouviu dizer que a pessoa que fez os regulamentos militares se tinha suicidado depois de os fazer, por se ver impossibilitado de cumprir com o que tinha escrito e, o Cifra entendia que já não podia ser mais punido, pois tinha nascido na Europa, embarcaram-no e trouxeram-no para África, já estava privado da sua liberdade, preso dentro de uma espécie de campo de concentração, rodeado de arame farpado, há quase dois anos. Andava desesperado com o ambiente de guerra que via em seu redor e, pelas notícias de mortes, nas mensagens que todos os dias decifrava, tudo isto acontecia sem nunca ter feito mal a ninguém, e para mais andava sempre cheio de medo, neste cenário de guerra. Do que ele tinha mais receio é que prolongassem a sua estadia neste mesmo cenário!.

…de volta ao centro cripto, pensou melhor:

– isto são fotografias que eu tirei, que mal há nisto, pois se há alguns colegas, mesmo até furriéis e oficiais que fazem o mesmo?.

…enchendo-se de coragem e, tomando uma atitude tal como se fosse o “Curvas, alto e refilão”, levou uma caixa de sapatos com centenas de fotografias ao comandante!.

…uns dias depois, que para o Cifra pareciam meses, ao entregar uma mensagem, o comandante diz-lhe:

– logo, antes do anoitecer, vem ver-me aos meus aposentos!. 

…o Cifra lá apareceu, com uma camisa da farda amarela do Setúbal, vestida e limpa, pois toda a sua roupa da farda amarela já estava coçada e rota, e a da farda camuflada, quem a usava era o Setúbal, o Curvas, alto e refilão, o Marafado ou o Mister Hóstia, e só não a usava o Trinta e Seis, porque não lhe servia. Pediu licença e entrou.

…o comandante, com uma garrafa de Vat 69 na mão e dois copos, que era o whisky que se bebia nas forças armadas, manda-o sentar. Começa com um interrogatório simples, mas interessado, com alguns elogios e alguma admiração, pois algumas dessas fotografias, talvez por acaso, eram únicas e autênticas obras de arte!.

…ao mesmo tempo também era repreensivo e, em alguns momentos, usava a cara de comandante. Quando a garrafa estava quase vazia, e mais de uma hora de blá, blá, blá, já com um sorriso na cara e as palavras já saíam aos soluços, completa:

– Tens algum talento, mas esta foto aqui não tem luz, foi tirada do ângulo errado, eu tenho diapositivos de fotografias que tirei há mais de trinta anos e continuo a estudá-los. Vou pedir para a capital uma máquina como deve de ser, com flash e tudo, vou dar-te umas explicações com ela e por certo vais melhorar. Ouve lá, em troca, quero a promessa de ti…, que as melhores fotografias…, são para o meu arquivo. E pára com essa coisa de andares a vender, ou lá o que é, fotografias… na guerra! Entendidos?

…esta última palavra, foi dita com cara de comandante…, sobre influência, tal como o Cifra, já estava na altura!. Afinal, o comandante também tinha a cultura da fotografia, e não só….

…tanto essa máquina, que na altura destes acontecimentos, era uma das melhores máquinas fotográficas que havia no mercado, como as centenas de fotos, quando o Cifra emigrou, para outro país, ficaram em Portugal em casa de seus pais, e muitos anos mais tarde, quando foi por elas, tinham desaparecido, algumas estavam em casa de familiares, já em muito fraco estado. Se fossem encontradas em bom estado, eram bons documentos de guerra!.

The camera!

Kodak, which was the first camera that Cipher had disappeared by the time of a plane disaster in the north near the border. In one of his fleeing in the car of the patients, the provincial capital of the Cipher bought another, now a Konica, already with more buttons and complicated, almost like taking pictures in the magazines.

In his travels through different war zones, the delivery of such classified material, the Cipher made dozens of photographs, some air, some on land, some shocking, some stunning scenery of the jungle, animals, exotic birds, scenarios of war, gentlemen, finally, to understand everything that was useful to photograph. The rollers for the machine, black and white, came from the capital, the mapping services of the army, where he also photographs were processed, because the friend Braga on there service, which had been in folk group from their homeland, and have Cipher knew the folk wanderings, before military service in Portugal, was in charge of this whole process. He could, no one knew how, rolls of film and photo paper, reproduced hundreds of pictures equal, those with the most important reasons that then dispensed to younger soldiers who were coming to Mansoa, and we were curious to see what it was like Guinea, or simply offered to friends, this is all happening in normality, until some photographs, bolder, began to run hand in hand in their barracks. As the Cipher was popular and known, was already parked there since a long time in this barracks, came to the attention of the captain, the sergeant because of the harvest, who was a friend of the Cipher, and who gave him some photographs of those bolder who fared to appreciate, while the Cipher made her bills, because he found himself grieving for those accounts end up at zero, and not knowing if committed some blunder, said one day, in the room where the officers ate: 

-Who has these photographs is the Cipher!. 

One day, while delivering a message, have deciphered the command, the commander calls it, from inside, and asks:

– Listen, what’s this about photographs?. Stilts always getting into nonsense, nobody has hand on you, just straighten with a brave “shitload”!.

The Cipher was going to say a few words, but the commander, with a voice command, it just says: 

– Shut up, brings me here, I see these photos for!.

The Cipher was a little apprehensive and thought: 

– Now that lack such a short time to return, I will take some punishment and do not go over here!. 

Frankly, the Cipher does not care about anything a punishment on paper, he did not like military service and its regulations as they only spoke of war, discipline, prison, punishment. Until one day he heard that the person who made the military regulations had committed suicide after the do, see if unable to comply with what he had written, and the Cipher understood that he could no longer be punished because he had been born in Europe boarded him and brought him to Africa, was already deprived of his liberty, and stuck in a kind of concentration camp, surrounded by barbed wire, almost two years ago. Walked desperate war with the environment he saw around him, and the news of deaths in messages deciphered every day, this is all happening without ever harmed anyone, and more, was always full of fear, this scenario of war. He had more than fear is to prolong your stay in this same scenario!. 

Back to center crypto, best thought:

– These are photographs that I took, what harm is there in this, because if there is some fellow, even until furriéis and officers who do the same?.

Filling up courage, and taking an attitude as if he were the “Curves, high and refilão”, took a shoe box with hundreds of photographs to the commander. A few days later, it seemed to Cipher months, to deliver a message, the commander tells him:

– Shortly before nightfall, come to see me to my quarters!. 

The Cipher there appeared, with a yellow shirt uniform of Setúbal, dressed and cleaned, because all your clothes yellow livery was already scratched and route, and the camouflage uniform, who wore it was Setúbal, Curves, and high refilão the Marafado or Mister Host, and not only wore the Thirty-Six, why not fit him. He excused himself and went in. The commander, with a bottle of Vat 69 in hand and two glasses, it was the whiskey that was drunk in the military, have him sit. Begins with a simple interrogation, but interested, with some praise and some admiration, because some of these photographs, perhaps by chance, were unique and authentic works of art.

At the same time it was also reprehensible and, at times, wore the captain’s face. When the bottle was almost empty, and over an hour of blah, blah, blah, already with a smile on his face and the words ever came out sobbing, complete:

– Do you have some talent, but this has no light photo here was taken the wrong angle, I have slides of photographs I took for over thirty years and continue to study them. I will ask for the capital as a machine must be with flash and everything, I’ll give you some explanations with it and certainly going to improve. Listen, in return, I promise you … that … the best photographs are for my file. And stop with this thing to sell stories, or whatever it is, photographs … in the war! Understood?. 

This last word was spoken with the commander guy … on influence, such as Cipher, was already at the time. After all, the commander also had the culture of photography, and not only!.

 Both this machine that at the time of these events, was one of the best cameras that were on the market as the hundreds of photos when the Cipher emigrated to another country, were in Portugal at home from their parents, and many years later, when it was by them, had disappeared, some were with relatives already in very poor condition. If they were found in good condition, were good war documents.

Tony Borie, November 2017.

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