…remembering the scenario of war!


…recordando o cenário de guerra! (remembering the scenario of war)!

…estamos no final do ano de 2017, é época de Natal, não o queremos terminar o ano, sem prestar uma muito sincera homenagem, às personagens que nos acompanharam naquele conflito armado que foi a Guerra Colonial, que o então governo de Portugal manteve com as suas Provincias Ultramarinas em África!. (we are at the end of the year 2017, it’s Christmas time, we do not want to end the year, it without paying a very sincere tribute to the characters who accompanied us in that armed conflict that was the Colonial War that the then Portuguese government maintained with its Overseas Provinces in Africa)!.

…durante dois anos, estivemos em pleno cenário de guerra, vivemos momentos horríveis de mêdo e angústia, mas sobrevivemos, talvez entre outras razões porque, as nossas tarefas eram desenvolvidas dentro do arame farpado, dentro de um miserável acampamento improvisado, sem condições de vida, mas não tanto exposto como os nossos companheiros, cuja missão era combater, caminhar sobre savanas e pântanos, muito mais expostos a mortíferas emboscadas, onde normalmente, uma mina ou rajada de metralhadora, não perdoavam!. (for two years, we were in the middle of war, we lived horrible moments of fear and anguish, but we survived, perhaps among other reasons because our tasks were developed inside the barbed wire, inside a miserable improvised camp, without conditions of life, but not so much exposed as our companions, whose mission was to fight, to walk on savannas and marshes, much more exposed to deadly ambushes, where normally, a mine or a machine-gun blast, did not forgive)!.

…o nosso nome nesse cenário era o “Cifra”, pois era a nossa tarefa diária, cifrar e decifrar mensagens, viajávamos pelo cenário de guerra, uma vez por mês, distribuindo material classificado aos diversos grupos de combate espalhados pela zona onde estávamos estacionados, aproveitando todos os meios de transporte que estavam disponíveis, desde uma coluna militar ao helicóptero de transporte de feridos ou mortos em combate, à simples avioneta do correio!. Sofremos algumas emboscadas, mas nunca demos um tiro em combate, o nosso aquartelamente era constantemente bombardeado, mas nós refugiávamo-nos nos abrigos subterrânios que por lá haviam, não éramos guerreiros, uma granada para nós, era um bloco de ferro, que o nosso companheiro “Curvas, alto e refilão”, às vezes carregava no bolso do camuflado!. (our name in this scenario was “Cipher”, because it was our daily task, to encrypt and decipher messages, we traveled through the war scene once a month, distributing classified material to the various combat groups spread around the zone where we were parked, taking advantage of all means of transport that were available, from a military column to a helicopter transporting wounded or killed in combat, to the simple mail plane!. We suffered some ambushes, but we never fired a shot in combat, ours were constantly bombed, but we took refuge in the underground shelters that were there, we were not warriors, a grenade for us, it was a block of iron, which our companion “Curvas, high and complicative”, sometimes carried in the pocket of the camouflage)!.

…infelizmente não temos fotografias de alguns, não sabemos se ainda estão vivos, o seu estado de saúde, o seu estado social, oxalá andem por aí, leiam este texto, se retratem nestas personagens que rabiscámos com muito carinho, pois foram nossos companheiros, nossos “herois”, dos quais guardamos as suas imagens no fundo do nosso coração, que nos acompanharam em momentos de angústia, de mêdo e de amargura, mas também com muitos sorrisos e, às vezes até chorando!. (unfortunately we do not have photos of some, we do not know if they are still alive, their state of health, their social state, may they go around, read this text, portray themselves in these characters that we scribbled with great affection, companions, our “heroes”, of whom we keep their images in the depths of our hearts, who accompanied us in moments of anguish, fear and bitterness, but also with many smiles and sometimes even crying)!.

…começamos pelo “Setúbal”, pois era este o seu “nome de guerra”, derivado ao ser oriundo da cidade de Setúbal, em Portugal, que para nós, era mais do que o companheiro, o militar, o guerreiro ou o amigo, era qualquer coisa como aquele “garoto”, que todos nós tivemos na infância, que vivia na porta ao lado da nossa casa, na mesma rua ou na mesma aldeia, com quem brincávamos, jogávamos à berlinda, à bola, roubávamos fruta do quintal do vizinho, às vezes zangávamo-nos e andávamos à porrada, mas sempre amigos!. Sim, era isso tudo, mas adultos e confidentes, pois o Setúbal, contava-nos coisas da sua vida privada, com aquela que iria ser a sua esposa amada, que às vezes não querendo ouvir, lhe dizia-mos:

– essas coisas não se devem contar, são coisas tuas e da tua noiva, pensa nelas, nesses momentos que são única e simplesmente vossos e, que ao pensar neles, mais faz fortificar o desejo de a tornar a ver, e deste modo, não a vais esquecer nunca, e o amor entre vocês cada vez vai ser maior!.

(we started with “Setúbal”, because this was his “name of war”, derived from being from the city of Setúbal, Portugal, was more than his companion, the military, the warrior or friend, it was something like that “boy” that we all had in childhood, who lived next door to our house, in same street or in the same village, who we played, we played the hot seat, the ball, stole fruit from the neighbor’s yard, sometimes we were angry and we walked to the beating, but always friends. Yes, that’s all, but adults and confidants since the Setúbal, he told us things about his private life with the one that would be his beloved wife, and that sometimes not wanting to hear and told him:

– These things do not they should have, are yours and your bride things, think about them, those moments that are simply and solely yours, and to think of them, more is fortifying the desire to make it to do, and thus not’ll never forget and the love between you, time will be greater)!.

…ele ao ouvir isto, começava a chorar, mas ao fim de algum tempo, voltava ao normal, e com a chegada até nós do “Curvas, alto e refilão”, cujo “nome de guerra” lhe foi dado por ser alto e curvado para a sua frente, que vocês já conhecem a sua desafortunada história, de relatos anteriores, se não conhecem, um dia destes vamos contá-la de novo, pois foi abandonado pela sua mãe, que andava “na vida”, ou seja, na prostituição, ainda criança, e viveu “ao Deus dará”, como é costume dizer-se, sem nunca ter um carinho ou alguém que lhe limpasse o ranho do nariz, e sem nunca ter conhecido a palavra “mãe” ou a palavra “família”, passando quase a sua adolescência em escaramuças, negócios ilícitos e em esquadras e cadeias da capital, em Lisboa, lá em Portugal e, logo perguntou:

– o que é que passa com este agora?. Eu não disse, que depois que veio de férias e viu a noiva, veio um pouco “maricas”?.

(He hearing this, began to cry, but after some time returned to normal, and the arrival until we, the “Curvas, high and complicative”, whose “name of war” was given to him by being tall and crooked in front of him, you already know their unfortunate history, previous reports, if you still do not know, one of these days we will tell you again, because it was abandoned by his mother, who was “in life”, that is, in prostituition, as a child and lived “the God will give”, as is often said, never having an affection or someone cleared his snot nose, and without ever having known the word “mother” or the word “family”, spending almost his adolescence in skirmishes, illegal businesses and police stations and prisons of the capital, in Lisbon, there in Portugal and, then asked:

– what goes with this now?. I did not say that after he came on vacation and saw the bride, came a little “pussies”?).

…mas adiante, “O Cifra”, o “Setúbal” e o “Curvas, alto e refilão”, eram amigos e faziam um grupo unido, era uma espécie de “Trempe”, era um “Triângulo”, a quem outros companheiros, às vezes queriam modificar, como por exemplo, o “Mister Hóstia”, cujo “nome de guerra” lhe foi dado por ser muito cristão, andar sempre com a “Biblia” debaixo do braço e, ajudar na missa, que às vezes se realizava no aquartelamento, pois a todo o momento, nunca perdendo nenhuma oportunidade de tentar convertê-los em bons cristãos, dizendo-lhes:

– Toda a vossa força unida tem que estar ao serviço de Deus, rezem e ajoelhem-se perante Jesus, que é o vosso Salvador, no lugar de andarem sempre a fumar e a beber, só pensarem no mal e nas “bajudas”, (que eram as raparigas africanas, que viviam próximo do aquartelamento), que vão ser a vossa perdição!.

(But later, the “Cipher”, “Setúbal” and “Curvas, high and complicative”, were friends and were a united group, was a kind of “Trempe” was a “Triangle” to whom other companions, sometimes wanted to modify, for example, “Mister Host”, whose “name war” was given to him for being very Christian, to always walk with the “Bible” under his arm and to help in the Mass, which sometimes took place in the barracks, because at all times, never losing no opportunity to try to convert them into good Christians, telling them:

– your whole united force must be to God’s service, pray and kneel before Jesus, what is your Savior, instead of always walk to smoke and drink, just think of the evil and the “bajudas”, (who were the African girls, who live near the quartering), which will be your undoing)!.

…como isto não chegasse, o “Pastilhas”, cujo “nome de guerra” lhe foi dado, porque era o nosso dedicado enfermeiro, a quem nós roubávamos o alcool para fazer deliciosos “cocktails”, sempre que via qualquer um deste grupo aproximar-se da enfermaria, logo ia esconder o frasco do álcool, e dizia:

– bêbados, vão morrer queimados por dentro e eu tenho muito prazer em ir ao vosso funeral!.

…claro, o “Curvas, alto e refilão”, logo lhe respondia, naquela linguagem porca e agressiva:

– Oh pastilhas, deixa-te de merdas, pois nós sabemos que às vezes ao fim da tarde, essas faces rosadas na cara, não são só do sol e, o teu nariz às vezes também vermelho não engana, o que tu queres é o álcool só para ti!.

(As this was not enough, the “Pastilhas”, whose “name of war” was given to him, because he was our dedicated nurse, whom we stole alcohol to make delicious “cocktails”, whenever he saw any of this group approach the ward would soon hide the bottle of alcohol, and said:

– Drunks, will die burned inside and I’m happy to go to your funeral)!.

Of course, the “Curvas, high and complicative”, then answered him, that nut and aggressive language:

– Oh “Pastilhas”, leaves you shit, because we know that sometimes in the evening, those rosy cheeks in the face, are not sun only and your nose sometimes also red does not deceive, what you want is alcohol just for you)!.

…o Furriel Miliciano, era tratado por este nome, portanto o seu “nome de gerra”, porque era o seu posto militar, mas no tratamento, era simples, amigo, parecendo mais um companheiro, soldado combatente e sofredor!. Do seu grupo de combate fazia parte entre outros o “Trinta e Seis”, o “Marafado”, o “Setúbal”, o “Mister Hóstia” e o “Curvas, alto e refilão”, e diziam que o “Curvas, alto e refilão”, era o líder, quando saíam em patrulha!. Nós gostávamos do grupo, convivia-mos, eram uns “gajos fixes”, que fumavam cigarros feitos à mão, e claro, sempre prontos para uma farra!. (the Furriel Miliciano, was treated by this name, therefore his “name of war”, because it was his military post, but in the treatment, it was simple, friend, looking like another companion, combatant soldier and sufferer !. Among his combat group were “Thirty-Six”, “Marafado”, “Setúbal”, “Mister Host” and “Curvas, high and complicative”, among others, and said that “Curvas, high and complicative”, was the leader, when they were on patrol!. We liked the group, we used to be, they were “cool guys” who smoked handmade cigarettes, and of course, always ready for the binge!.

…o “Arroz com Pão”, era o seu “nome de guerra”, porque uma certa vez, sendo ele o responsável pela nosso fraca alimentação, este bom militar fazia o que podia com os poucos géneros alimentícios que lhe eram proporcionados, mas dessa vez exagerou e, nós complicando, ele simplesmente respondeu:

– se não gostam, comam arroz com pão!.

(The “Rice with Bread”, was his name of war, because one time, being responsible for our poor diet, this good soldier did what he could with the few foodstuffs that were provided, but this time he exaggerated and, we complicating him simply answered :

– if you do not like it, eat rice with bread!.

..tinha as suas queixas, mas passageiras, e no fundo, tirando o roubo do pão e de algum vinho, que lhe fazíamos, até gostava de nós, pois às vezes ajudávamos a descascar batatas, mas só em última necessidade, mesmo quando não houvesse mais ninguém, pois dizia que estragava mais batatas do que o normal, e claro, queríamos sempre a caneca do café cheia de vinho, às vezes dizia-nos:

– fora daqui, vai-te lucro que me dás perca!

(Had his complaints, but fleeting, and in the end, taking the theft of the bread and some wine that we made him, even liked us, because sometimes we helped to peel potatoes, but only in the last need, even when there were no more no one, because he said that he was spoiling more potatoes than usual, and of course, we always wanted the coffee mug full of wine, sometimes he would tell us:

– out of here, you’ll make a profit, you’ll lose me!

…o “Trinta e Seis”, era o seu “nome de guerra”, porque era o seu número militar, um soldado telegrafista, era um homem adulto no seu proceder, até responsável de mais para a sua idade, tinha algum poder de influência sobre o “Curvas, alto e refilão”, que o ouvia e só a ele obedecia, sem refilices. Diziam que quando saíam em patrulha, o “Trinta e Seis” ia sempre junto do “Curvas, alto e refilão”, e além de se protegerem um ao outro, o “Trinta e Seis”, controlava-o nas suas, por vezes, descontroláveis acções guerreiras!. (The “Thirty-Six”, was his name of war, because it was his military number, one telegrapher soldier, was a grown man in his ways, to charge more for their age, had some influence over the “Curvas, high and complicative”, who listened to him and him only obeyed without complicatives. They said that when they went out on patrol, the “Thirty-Six” was always with the “Curvas, high and complicative”, and beyond to protect each other, the “Thirty-Six”, controlled him in his sometimes uncontrollable actions warriors)!.

…o “Marafado”, era o seu “nome de guerra”, porque era oriundo da província do Algarve, lá em Portugal, onde diziam que todos eram um pouco “Marafados”, no princípio era alegre, gostava de vinho, e até cantava uns fados desafinados, mas depois que presenciou uma cena de uns prisioneiros mortos, onde os seus corpos foram queimados e enterrados numa vala, nunca mais foi o mesmo homem, para o final era um homem calado e marcado pela guerra, raras vezes se juntava, passava o tempo ouvindo música, o relato do seu grupo de futebol Benfica e notícias no seu rádio portátil!. (The Marafado, was its name of war, because it came from the province of Algarve, back in Portugal, where they said that everyone was a bit “Marafados”, in the beginning was cheerful, fond of wine, and even sang a tune fates, but then witnessed a scene of a dead prisoner, where their bodies were burned and buried in a ditch, was never the same man for the end was a quiet man and marked by war, rarely joined, spent time listening to music, the story of his soccer group Benfica and news on your portable radio)!.

…acompanhou-nos desde o Cais de Alcantara, na Doca de Lisboa, em Portugal, navegou connosco, para a então Guiné Portuguesa, estacionou em cenário de guerra por o mesmo período de tempo que nós, e foi sempre um bom companheiro, apesar de ter um posto de comando e responsabiidade!. Era o “Nosso Alferes”, homem com educação superior, com bom trato, não gostava que lhe fizéssemos a respectiva continência, porque única e simplesmente, era uma pessoa humilde no trato, um verdadeiro companheiro!. Veio de férias a Portugal, visitando a nossa família, levando fotos e um filme com os nossos pais, irmãos e demais família!. Mais tarde, a sua esposa veio fazer-lhe companhia por algum tempo, era uma “lufada de ar fresco”, na pequena vila de Mansoa!. (accompanied us from the Alcantara Pier, at the Dock of Lisbon, in Portugal, sailed with us, to the then Portuguese Guinea, parked in a war scenario for the same period of time as us, and was always a good companion, despite having a command post and responsability!. It was “Our Lieutenant”, a man with a superior education, with good treatment, he did not like that we salute him, because he was simply a humble person in the deal, a true companion! He came on a vacation to Portugal, visiting our family, taking photos and a movie with our parents, siblings and the rest of the family!. Later, his wife came to keep him company for some time, it was a “breath of fresh air” in the small village of Mansoa)!.

…o “Sargento da Messe”, compreendia o grupo, facilitava o acesso ao bar dos sargentos, talvez porque precisasse da ajuda do “Cifra”, nas contas, pois éramos nós, que lhas acertava todos os meses, pois tinham sempre que terminar em zero, sem lucros nem perdas, e ele não era lá muito bom com algarismos, até diziam que era “burro”, passe o termo, pois era uma excelente pessoa, pelo menos para nós!. (The “Sergeant of the Harvest”, understood the group, facilitated access to the bar of the sergeants, perhaps because he needed the help of “Cipher” in all, because we were the ones who got the bills every month, for they had always to end in zero, with no profit or loss, and he was not very good with numbers, even said it was “dumb”, pass the word, it was an excellent person, at least for the “Cipher”!.

…o “Comandante” não queria que lhe fizessem a saudação, talvez para não saberem que era comandante e que dava ordens que matavam pessoas, dizia:

– estamos todos no mesmo barco, mas com diferentes responsabilidades!.

…nós, o “Cifra”, mais tarde viemos a saber que era um apaixonado pela arte de fotografar!. Ele queria respeito, às vezes quando as coisas não corriam bem, ficava com cara de Comandante, e quase todos o evitavam!.

The “Commander”, did not want to do the greeting, perhaps not knowing who was commander and who gave orders to kill people, he said:

– we are all in the same boat but, with different responsibilities!.

We, the “Cipher”, later came to know that he was passionate about art shooting!. He wanted respect, sometimes when things were not going well, he looked like a commander, and almost all avoided him)!.

…também havia as filhas do Libanês, que era um pequeno comerciante que existia na vila de Mansoa, que eram importantes para os militares estacionados naquele miserável aquartelamento, havia até quem dissesse que elas eram as causadoras de os militares tomarem banho mais frequentes vezes, vestirem roupa lavada e fazerem algumas vezes a barba, e pentearem o seu cabelo, portanto tinham mais poder e influência nos militares do que os seus superiores, que podiam dizer mil vezes para terem mais higiene pessoal, que a esses mesmos militares não lhes importava qualquer ordem nesse sentido, e que acima de tudo enchiam a pequena igreja de perfume exótico, que existia naquela pequena vila de Mansoa!. Também se dizia que se não fossem elas a igreja talvez, em alguns dias, ficasse vazia, talvez não fosse verdade!. (There were also Lebanese daughters, who was a small merchant who existed in the village of Mansoa, that were important to the military stationed in that miserable barracks, had even said that they were the cause of the military to take more frequent bath times, wear clean clothes and do sometimes beard and to comb your hair, so they had more power and influence in the military than his superiors, who could say a thousand times to have more personal hygiene, that these same military did not matter to them any order in this sense, and above all filled the small church of exotic perfume that existed in that small village of Mansoa!. Also said that if they were not the church perhaps in a few days, stay empty, maybe it was not true)!.

…havia o “Life Boy”, ao qual lhe foi dado o “nome de guerra”, por vender os sabonetes da marca Lifebuoy, aos seus companheiros, que veio para o aquartelamento algum tempo depois, que parecia um chinês, já sei que vão dizer que só faltava o “chinês”, e tinha uma costela de “Libanês”, pois passado pouco tempo de ter chegado ao aquartelamento, já se andava a fazer a uma das filhas do Libanês!. Era um pequeno comerciante dentro do aquartelamento!. (There was the “Life Boy”, which was given the ‘name of war”, for selling Lifebuoy brand soaps, to his companions, who came to the barracks some time later, it looked like a Chinese, I know you will say that only lacked the “Chinese”, and I had a rib “Lebanese” because after a while you have reached the barracks, already was doing one of the Lebanese’s daughters!. Was a small trader in the barracks!.

…só havia o tal Major das Operações Especiais, o tal que deu uma bofetada, que mais parecia um murro, na cara de um guerrilheiro fardado, com as mãos amarradas, e que caiu no chão desamparado, por lhe ter dito que queria ser tratado como prisioneiro de guerra!. O apelido do Major era Sardinha, portanto o Major Sardinha logo foi rebaptizado de “Major Petinga”!. Perdeu nesse momento todo o nosso respeito, queria a saudação sempre que com ele nos cruzávamos!. Nós, o “Cifra”, pensávamos que devia de ter sido promovido há pouco tempo, pois andava sempre vestido de camuflado, com um cinto, onde trazia uma pistola, os galões novos e reluzentes nos ombros, as botas sempre engraxadas, e como no comando a que o “Cifra” pertencia, tirando militares condutores auto, era tudo pessoal de gabinetes, que não deviam de saber acertar com um tiro duas vezes no mesmo sítio, alguns nunca tinham pegado numa G-3 nem nunca tinham tirado uma cavilha a uma granada, aquele Major vestido assim e com aquelas atitudes, fazia rir o pessoal, portanto, com tanto exagero, tornava-se ridículo!. (There was only this Major Special Operations, the one who gave a slap, which looked more like a punch in the face of a uniformed guerrilla, with his hands tied, and fell helplessly ground for telling her he wanted to be treated as War prisioner!. The nickname of Major Sardinha was therefore Major Sardinha was soon renamed the “Major Petinga”!. He lost all our respect at that moment, he wanted to salute whenever with him in we crossed!. We, the “Cipher” thought should have been promoted recently, it was always camouflaged dress with a belt, which carried a pistol, the new and shiny gallons shoulders, boots always greased, and how the command that the “Cipher” belonged, taking auto drivers military, it was all personnel offices, which do not should know hit with a shot twice in the same place, some had never held a G-3 or had never taken a peg to a grenade, that Major so dress and with those attitudes, her laugh personnel, therefore, with much exaggeration, it became ridiculous)!.

…um dia, este grupo do “Cifra”, do “Setúbal” e do “Curvas, alto e refilão”, mais o “Trinta e Seis”, regressando da sede do Clube de Futebol da pequena vila de Mansoa, juntos, passa pelo tal Major, que logo diz, com uma cara séria, mostrando autoridade:

– vocês não podem andar assim em grupos, portanto a partir de agora separem-se, só podem andar dois militares juntos!.

…nesse momento, o tal Major estava na companhia de mais dois ou três militares graduados, e o “Curvas, alto e refilão”, como era seu costume, pois não recebia ordens, logo lhe respondeu, colocando-se na posição de sentido, com a sua medalha Cruz de Guerra ao peito, fazendo o tal Major “Petinga”, também colocar-se na mesma posição, dizendo com a maior das calmas:

– essa lei é só para nós, ou para todas as patentes militares?

…o “Major Petinga”, que era muito mais baixo na estatura, virou os olhos para o chão e respondeu:

– Vão lá embora, por esta passam!.

…pouco depois, o “Curvas, alto e refilão”, quando junto do nosso grupo, disse:

– Gostava de apanhar este filho da puta, lá no mato, debaixo de uma emboscada dos guerrilheiros, pois deixava-o lá sozinho!.

(One day, this group, “Cifra”, of “Setúbal” and “Curvas, high and complicative”, plus the “Thirty-Six”, returning the seat of the football club, the small village of Mansoa, together, through the so Major, who then says with a straight face, showing authority :

– You can not walk well in groups, so from now to separate, can only walk two military together!.

At that moment, the one Major was in the company of two or three senior military, and “Curvas, high and complicative”, as was his custom, it received no orders, then replied, placing in the attention, with its War Cross Medal to his chest, making such “Major Petinga” also put up in the same position, saying with the greatest calm:

– This law is just for us, or for all military ranks?.

The “Major Petinga” which was much lower in height, turned his eyes to the ground and said:

– Go there though, for this pass!.

Shortly after, the “Curvas, high and complicative”, when from your group, said:

– I would like to take this motherfucker, there in the woods, under an ambush of the guerrillas, as left him there alone!.

…passado uns dias, quando nós, o “Cifra”, foi entregar uma mensagem decifrada no comando, o “Major Petinga”, pergunta-nos:

– Ouve lá, sabes se aquele soldado, a que chamam “Curvas, alto e refilão”, já matou alguém?. Ele olhou-me com uma cara!.

Past few days, when we, the “Cipher”, was delivering a decrypted message in command, “Major Petinga” ask us:

– Listen, if you know that soldier, they call “Curvas, high and complicative”, ever killed anyone?. He looked at me with a face!.

…da nossa vivência naquele maldito aquartelamento, já para o final da nossa estadia forçada em cenário de guerra, também havia cenas e episódios que nos faziam divertir, como por exemplo:

…a nossa farda, ou seja o nosso uniforme, já estava roto e gasto, havia somente uns calcões e uma camisa em boas condições, que se guardava para a viajem de regresso a Portugal caso sobrevivêssemos, assim, o “Curvas, alto e refilão”, andava quase sempre nú, ou então com o resto de uns trapos, que tinham sido calções há quase dois anos atrás e, a medalha Cruz de Guerra, que lhe tinha sido colocada no peito, pelo Governo de Portugal, pela sua coragem em combate, debaixo de fogo, com desprezo pela sua vida, salvando os seus companheiros, andava pendurada nesses restos de calções, caminhava pelo dormitório e, quando o questionavam, ele dizia:

– vai chatear a tua avó!. E cala-te, senão és capaz de levar com uma granada no focinho!.

(of our experience in that accursed barracks, already towards the end of our forced stay in the war scene, there were also scenes and episodes that made us have fun, such as:

Our uniforms, were already worn and worn, there were only a pair of pants and a shirt in good condition, which was kept for the trip back to Portugal if we survived, thus, “Curvas, alto and complicative” was almost always naked, or else with the rest of rags, which had been shorts almost two years ago, and the Cruz de Guerra medal, that he had placed in his chest by the Portuguese Government for his courage in combat, under fire, with contempt for his life, saving his companions, he was hanging on these remains of shorts, he walked through the dormitory, and when they questioned him, he said:

– will upset your grandmother!. And shut up, otherwise you can carry a grenade on your muzzle!.

…andava tão “desesperado”, que uma vez, até deixou ir a medalha Cruz de Guerra, agarrada aos restos dos calções para a lavadeira, e chamava filho da puta a toda a gente, pois tinham-lhe roubado a medalha, e qual foi o seu espanto, quando a lavadeira, no final da semana, lhe vem entregar a roupa e, com a medalha na mão, lhe diz mais ou menos isto:

– Isto parece “patacão” (dinheiro), mas não é, deve ser patacão do Portugal, tem uma fita agarrada, se tú não queres, eu coloca na orelha, tem “manga de ronco” (muito bonito)!.

…e exemplificava, com a medalha encostada na orelha e, como tinha umas argolas no pescoço, até nem lhe ficava nada mal!.

(He walked so “desperate” once, to let go the Cross Medal War, clinging to the remains of shorts for the laundress, and called motherfucker to everybody because had stolen the medal, and what was his astonishment, when the laundress at the end of the week, it comes hand clothes, and with medal in hand, tells you something like this:

– this seems Patacão, (money) but it is not, should be Patacão of Portugal, has a clutching tape if you do not want, I put in the ear, have “manga de ronco” (very beautiful)!.

And exemplified with the medal leaning against the ear, engraving on top, and as he had a ring on the neck, not even him was not bad)!.

…pronto, ficaram a conhecer as personagens que mais nos marcaram em cenário de guerra, que sempre lembramos, e no futuro, qualquer história que contamos lá da então Guiné Portuguesa, que envolvam estas personagens, já têm conhecimento de quem se trata, pois às vezes quase brincando, contamos a verdade das situações de dor, sofrimento, angústia, mas também de algumas ocasiões menos más, não muitas, que vivemos naquela maldita guerra! (soon, they got to know the characters that marked us most in a war scenario, which we always remember, and in the future, any story that we have there of the then Portuguese Guinea, that involve these characters, are already aware of who it is, because sometimes we almost joking, we tell the truth of the situations of pain, suffering, anguish, but also some less bad times, not many, that we live in that damn war)!.

Tony Borie, December 2017.

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