…na então Guiné Portuguesa!. (…in the then Portuguese Guinea)!.

…os últimos meses de presença em cenário de guerra, foram passados quase como todos os combatentes que cumpriram vinte e quatro longos meses de estadia na então província Portuguesa da Guiné em África!. Infelizmente e com alguma amargura, hoje ainda revivemos alguns acontecimentos!. É a vida dizem alguns!. Mas… para nós combatentes, os momentos de medo, angústia e desespero, ficaram gravados no pensamento e espetados no corpo, tal como um ferro em brasa com farpas bastante afiadas!. 

(…the last months of presence in a scenario of war, were spent almost like all the combatants who completed twenty-four long months of stay in the then Portuguese province of Guinea in Africa!. Unfortunately and with some bitterness, we still relive some events today!. It’s life some say!. But… for us combatants, the moments of fear, anguish and despair, were engraved in our thoughts and stuck in our bodies, like a red-hot iron with very sharp barbs)!.

…aquele conflito armado estava de dia para dia a aumentar as suas proporções, era já uma guerra de guerrilha feroz e traiçoeira, tornando-se muito difícil viajar de uma povoação para outra sem haver contacto com os guerrilheiros ou com qualquer das suas emboscadas e armadilhas, pois colocavam minas e fornilhos nas principais estradas, carreiros, pontões ou saídas e entradas obrigatórias nas travessias dos rios e pântanos, utilizavam os seus corredores de abastecimento durante a noite, tinham as suas “casas mato”, e claro, os guerrilheiros já tinham treino e alguma experiência em combate, sabendo bem o terreno que pisavam!.

(…that armed conflict was increasing day by day in its proportions, it was already a fierce and treacherous guerrilla war, making it very difficult to travel from one village to another without having contact with the guerrillas or any of their ambushes and traps , as they placed mines and bowls on the main roads, paths, pontoons or mandatory exits and entrances in the crossings of rivers and swamps, they used their supply corridors at night, they had their “bush houses”, and of course, the guerrillas already had training and some experience in combat, knowing well the terrain they were on)!.

…e, em algumas situações naquele cenário, as condições para se tentar recuperar um qualquer morto ou ferido, pois as vítimas, deviam ser puxados para algum tipo de posição onde houvesse alguma segurança, para serem tratados e, levar um homem ferido ou morto, requer até quatro homens como portadores, o que também enfraquecia uma unidade militar num momento crítico, portanto esses infelizes militares de combate, quando eram atingidos, alguns deles, por lá ficavam para sempre!.

(…and, in some situations in that scenario, the conditions for trying to recover a dead or injured person, as the victims should be pulled into some kind of position where there is some security, to be treated and, to take a wounded or dead man, it requires up to four men as carriers, which also weakened a military unit at a critical moment, so these unfortunate combat soldiers, when they were hit, some of them, stayed there forever)!.

…nós íamos sobrevivendo!. Naquele pequeno calendário em papel quadriculado que fizémos, onde todos os dias lá colocávamos uma cruzinha, estava a caminho de se completar!. Com alguma sorte, já não eram tantos assim os dias que nos faltavam para um possível abandono daquele miserável cenário e, o desejado regresso à Europa!. Todos os dias pela manhã, ao colocar uma cruzinha no referido quadrado, considerávamos uma conquista, que não era bem uma conquista, era uma reconquista, sentindo uma satisfação interior, que não cabia dentro de nós!.

(…we were surviving!. In that little squared-paper calendar we made, where every day we put a cross, it was on its way to completion!. With any luck, there were not so many days left for a possible abandonment of that miserable scenario and, the desired return to Europe!. Every morning, when placing a cross in the square, we considered it an achievement, which was not really an achievement, it was a reconquest, feeling an inner satisfaction, which did not fit within us)!.

…já não saíamos do aquartelamento rodeado de arame farpado, que considerávamos um “posto avançado de fronteira”, a não ser por motivos de ordem maior!. O movimento de militares, tinha aumentado na área, quase que triplicado, em alguns dias, eram centenas de militares em constante movimento, com as viaturas e equipamento de combate ocupando todos os espaços!. Era uma barafunda!. 

(…we no longer left the barracks surrounded by barbed wire, which we considered a “frontier outpost”, except for reasons of a higher order!. The movement of soldiers, had increased in the area, almost tripled, in a few days, there were hundreds of soldiers in constant movement, with vehicles and combat equipment occupying all spaces! It was a mess)!.

…com a chegada de novos militares, já ninguém se conhecia!. No dormitório, colocaram mais do dobro das camas!. Naquele momento existiam dois andares de camas, muito chegadas umas às outras, com roupa camuflada, alguma suja e molhada, colocada em cima dos mosquiteiros e em outros locais a secar, daqueles esforçados militares de combate que tinham a sorte de regressar vivos das frequentes operações de patrulha a que eram forçados a fazer!.

(…with the arrival of new soldiers, no one knew each other anymore!. In the dorm, they put more than double the beds! At that time there were two floors of beds, very close together, with camouflage clothing, some dirty and wet, placed on top of mosquito nets and in other places to dry, of those hard-working combat soldiers who were lucky enough to return alive from frequent operations of patrol they were forced to do)!.

…nós, com alguma perícia caminhávamos por um labirinto de camas, quase como vivêssemos dentro de um submarino!. Logo à entrada do dormitório estava sempre uma caixa com uns restos de munições, claro, não auxiliava nada a quem queria passar, mas também ninguém se importava com isso e, sempre que passava por lá um militar dáva-lhe um empurrão com a perna, mas alguém voltava a colocá-la no lugar inicial, porque o militar que dormia na cama ao lado queria o seu espaço!.

(…we, with some skill, walked through a maze of beds, almost like living inside a submarine!. Right at the entrance to the dorm there was always a box with some leftover ammunition, of course, it didn’t help anyone who wanted to pass, but no one cared about that either, and whenever a military man passed by, he gave him a push with his leg, but someone put it back in its original place, because the soldier who slept in the bed beside him wanted his space)!.

…em alguns dias de calor infernal, o cheiro a suor e outras coisas, era insuportável, e alguns vinham dormir ao ar livre, encostados às paredes do dormitório, onde alguns dias por mês, alguém, muitas vezes éramos nós, com um balde feito com aduelas de um barril do vinho, onde se colocava um pouco de criolina e água, e pincelávamos, com uma vassoura feita de ramos de alguns arbustos, em volta do dormitório!. 

(…on some days of infernal heat, the smell of sweat and other things was unbearable, and some came to sleep outdoors, leaning against the dorm walls, where a few days a month, someone, many times it was us, with a bucket made with staves of a barrel of wine, where a little cryoline and water were placed, and we brushed, with a broom made of branches from some bushes, around the bedroom)!.

…naquela área ao fundo do aquartelamento, onde existiam os tais furos de água quente, muito quente, a cheirar a enxofre ou coisa parecida, era um pandemónio!.  As couves e alfaces, que por lá tínhamos plantado, desapareceram, agora no seu lugar, estava cheia de bidons, uns com água, outros vazios e amolgados ao sol, quente, abafado e húmido!. 

(…in that area at the back of the barracks, where there were such hot water holes, very hot, smelling of sulfur or something similar, it was pandemonium!. The cabbage and lettuce, which we had planted there, disappeared, now in their place, it was full of drums, some with water, others empty and crushed in the sun, hot, stuffy and humid)!.

…todo o cenário estava a ficar tão difícil de suportar, que já tínhamos receio de visitar a aldeia junto ao local onde nos encontrávamos, onde sempre fomos bem recebidos, e sempre respeitámos a dignidade e o forte carácter dos naturais, que muito admirávamos!. Alguns até nos tratavam por “irmão”, e sempre seguimos as leis, as ordens e os ensinamentos dos “homens grandes”!.

(…the whole scenario was getting so hard to bear, that we were already afraid to visit the village near the place where we were, where we were always welcomed, and we always respected the dignity and strong character of the natives, who we admired so much!. Some even called us “brother”, and we always followed the laws, orders and teachings of the “big men”)!.

…que, tal como por diversas vezes já mencionámos, com toda a sua sabedoria, e com muitas “chuvas” no corpo, que deviam de ser anos, vivendo numa profunda miséria, apontando com uma espécie de bengalim, com que afugentavam algumas moscas e batiam nos cães, que famintos se aproximavam das “moranças”, que eram as suas casas cobertas de colmo, onde entre outras coisas, pronunciavam num português acrioulado, que nós compreendíamos perfeitamente, e diziam-nos: olh’a qu’la alí… cabaçú ká t’m… and’a pr’a qui… baju’da ale’m… ma’m’a firmi’… depo’s d’… tém mangá di sábi sábi… précisa d’… está altúra d’… conversa gir’o… o irmãu é qui… ficá nu Guiné… cá bai nu Portugal… e quando nos despedíamos, agarravam-nos na mão e diziam, “ca bai”, e davam-nos “mantenhas”, e às vezes até ficavam, t’chora!. Isto são palavras difíceis de traduzir, mas qualquer combatente que por lá passou, sabe um pouco o seu significado!.

(…which, as we have already mentioned several times, with all their wisdom, and with lots of “rain” on the body, which must have been years, living in deep poverty, pointing with a kind of bengalim, with which they chased away some flies and they beat the dogs, who hungrily approached the “moranças”, which were their thatched houses, where, among other things, they pronounced in Creole Portuguese, which we understood perfectly, and said to us: oh’a qu’la alí… cabaçú ká t’m… and’a pr’a qui… baju’da ale’m… ma’m’a firmi’… after d’… there’s manga di sábi sábi… need d’… it’s height d’… talk gir ‘o… his sister is here… he’s naked Guinea… here bai nu Portugal… and when we’d say goodbye, they’d grab us by the hand and say, “ca bai”, and they’d give us “keep it”, and sometimes they even stayed, t ‘cry!. These are difficult words to translate, but any combatant who has been there knows a little bit what they mean)!.

…e nós íamos escrevendo o nosso diário!. As palavras que completavam as frases eram sempre as mesmas, eram o resumo de ataques àquele “posto avançado de fronteira” pois era a partir dali que eram frequentes as emboscadas, os feridos e as mortes, só mudávamos as datas!. Às vezes ficávamos desesperados, quase em pânico e gritávamos: “merda, tirem-nos daqui, estamos a ficar doidos”!.

(…and we were writing our diary!. The words that completed the sentences were always the same, they were the summary of attacks on that “frontier outpost” because it was from there that ambushes, injuries and deaths were frequent, we only changed the dates!. Sometimes we would get desperate, almost panicky and scream: “shit, get us out of here, we’re going crazy”)!.

…hoje, toda e qualquer plataforma que permita navegar pelas histórias daquela maldita guerra, todas são relatos, embora alguns pessoais, que apresentam evidiências verdadeiras da angústia e do mêdo dos veteranos sobreviventes em combate de ambos os lados, porque os guerrilheiros que lutavam pela libertação do seu território, também sofriam a mesma situação que nós, que ali estávamos ao serviço da então nação colonial, que era Portugal do século passado!.

(…today, any platform that allows you to navigate through the stories of that damned war, all are reports, although some are personal, that present true evidence of the anguish and fear of the veterans surviving in combat on both sides, because the guerrillas who were fighting for liberation of its territory, they also suffered the same situation as us, who were there at the service of the then colonial nation, which was Portugal in the last century)!.

…enfim, hoje, embora um veterano de uma idade um pouco avançada, a todo o momento o pensamento caça-nos na vida, e nós, que naquele cenário de uma guerra terrestre de guerrilha, éramos o “Cifra”, um soldado desarmado, onde a disciplina de um campo de batalha não era lá muito eficaz para a nossa sobrevivência e, onde só talvez, os cigarros e algum excesso de álcool, nos dava algum miserável conforto!.

(…in short, today, although a veteran of a little advanced age, at every moment thought hunts us in life, and we, who in that scenario of a land guerrilla war, were the “Cifra”, an unarmed soldier, where the discipline of a battlefield was not very effective for our survival and, where just maybe, cigarettes and some excess of alcohol, gave us some miserable comfort)!.

…e já lá vão mais de 50 anos que vivemos aquele horrível cenário da guerra colonial Portuguesa em África e, nesta já avançada idade, não só históricamente como com a experiência de todos estes anos vividos, o reviver, ou seja, lembrar a angústia e o mêdo de um horrivel cenário de guerra de guerrilha nas selvas, savanas, pântanos, rios ou riachos, como era a situação geográfica da então província da Guiné, a contagem dos mortos e dos feridos de ambos os lados, onde os sobreviventes, que ficaram com doenças e traumas, não só fisica como também moralmente, hoje, toda e qualquer homenagem ou reconhecimento do esforço dispendido obrigatório em servir a bandeira da sua Pátria, não vai servir de nenhuma plataforma que permita melhorar a vida ou a saúde de um qualquer combatente, mas com toda a certeza que até um simples sorriso, vai auxiliar, pois muitos de nós ainda navegam naquelas horríveis experiências por lá vividas!.

(…and it’s been more than 50 years since we lived that horrible scenario of the Portuguese colonial war in Africa and, in this already advanced age, not only historically but with the experience of all these years lived, reliving, that is, remembering the anguish and the fear of a horrible scenario of guerrilla warfare in the jungles, savannas, swamps, rivers or streams, as was the geographical situation of the then province of Guinea, the counting of the dead and wounded on both sides, where the survivors, who remained with diseases and traumas, not only physically but also morally, today, any homage or recognition of the mandatory effort spent in serving the flag of their homeland, will not serve as any platform to improve the life or health of any combatant , but with all certainty that even a simple smile will help, as many of us are still navigating those horrible experiences lived there)!.

Tony Borie, Século XXI. (Tony Borie, 21st Century).

One thought on “…na então Guiné Portuguesa!. (…in the then Portuguese Guinea)!.

  1. Como sempre, boa narrativa. Um abraço do teu amigo Roger, e boa saude

    Tony Borie – Pieces of my life escreveu no dia sábado, 9/10/2021 à(s) 08:30:

    > tonisaborie posted: ” …os últimos meses de presença em cenário de guerra, > foram passados quase como todos os combatentes que cumpriram vinte e quatro > longos meses de estadia na então província Portuguesa da Guiné em África!. > Infelizmente e com alguma amargura, hoje ainda ” >

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