…dreaming, in a scenario of war!

…dreaming, in a scenario of war!


…sonhando, em cenário de guerra! (dreaming, in a scenario of war)!

…já lá vão três quartos de século, portanto não nos consideramos jovens, pela madrugada já estamos despertos, lá vêm lembranças do maldito cenário de guerra que vivemos na então Guiné Portuguesa, situada naquela parte onde o continente Africano, começa a ficar mais estreito, próximo onde passa a linha imaginário do Equador, onde o clima, para quem nasceu na Europa, é um pouco difícil adaptar-se, onde naquele tempo de luta armada, em pleno cenário de guerra, um dia pode não ser um dia, mas sim horas, minutos ou segundos, pois qualquer mina, fornilho ou rajada de uma metralhadora numa qualquer emboscada, pode modificar o cenário, transformando um jovem, com um corpo saudável, em plena força de vida, tanto física como  mentalmente, num corpo crivado de balas, embrulhado nos restos do seu camuflado, coberto de sangue, onde continuaria em cenário de guerra, exposto aos mosquitos e outras anomalias, até virem reforços, que poderiam ser terrestres ou aéreos, neste último caso, aéreos eram difíceis, pois no nosso tempo, cremos que só havia quatro ou cinco helicópteros com equipamento para recolher mortos ou feridos!. (it’s been three quarters of a century, so we do not consider ourselves young, we’re awake at dawn, there are memories of the damned war scenario that we live in the then Portuguese Guinea, located in that part where the African continent begins to get more narrow, near where the imaginary line of Ecuador passes, where the climate for those born in Europe is a little difficult to adapt, where in that time of armed struggle, in the midst of war, a day may not be a day, but for hours, minutes, or seconds, since any mine, fornillo or blast of a machine gun in any ambush, can modify the scene, transforming a young man, with a healthy body, into full life force, both physically and mentally, in a sieved body bullet, wrapped in the remains of his camouflaged, covered in blood, where he would remain in a war scene, exposed to mosquitoes and other anomalies, until they could see reinforcements, which could be terrestrial or aerial, in this In the last case, airships were difficult, because in our time we believed that there were only four or five helicopters with equipment to collect dead or wounded)!.

…isto não é fácil, é madrugada, pensamos que já nos consideramos despertos, talvez, bebemos um pouco de sumo de laranja, mas por poucos minutos, pois o nosso pensamento volta a adormecer, o sonho continua, não sabemos se a dormir ou despertos, mas, o cenário repete-se centenas de vezes, neste momento somos jovens outra vez, estamos lá, “estamos sentados, quase nús, numa cadeira feita da metade de um barril de vinho, temos uma cerveja quente na mão, o sol, que foi tórrido durante o dia, está a pôr-se, para o lado do rio, até podemos ver aquele reflexo amarelo avermelhado, um pouco acima da água da bolanha, os mosquitos zumbem à nossa volta mas não mordem, pois a pele do nosso corpo, já está “africana”. O “Curvas, alto e complicativo”, que é um bom companheiro, mas é assim que o chamamos, por entre outras virtudes, ser complicativo, não pára de dizer asneiras!. Tu, que me estás a ler, também és um militar Europeu a combater em África, estás agarrado à leitura da metade da terceira página, enrugada e um pouco rota, de um jornal com data de há um mês, estás encostado à esquina da porta, sem porta, da entrada daquele maldito dormitório, onde estão uns tantos camuflados a secar, por cima dos mosquiteiros, sujos de suor e lama, entre outras coisas, por ali cheira a tudo menos a “esperança”. O “Mister Hóstia”, que era aquele militar muito disciplinado, educado e religioso, vem recomendar-te, com um ar muito delicado, para leres aquele capítulo da Bíblia, onde recomendam qualquer coisa que nós não ouvimos bem, mas ao sair do dormitório, talvez sem dar por isso, dá-te um encontrão, que tu não gostaste, pois com o movimento rasgaste mais um pouco da metade da folha do jornal e, logo lhe respondeste, com um, “oh caralho, já não vês bem”!. (this is not easy, it is dawn, we think that we already consider ourselves awake, perhaps, drank some orange juice but for a few minutes, as our thoughts turn to fall a sleep, the dream continues, we do not know whether sleeping or awake, but the scenario is repeated hundreds of times, at this moment we are young again, we are there, “we are sitting almost naked on a chair made of half a wine barrel, have a warm beer in hand, the sun, which was scorching during the day, is to put yourself on the side of the river, until we can see that reddish yellow reflection, a little above the water bolanha, mosquitoes buzzing around us but do not bite, because the skin of our body, is already “African”. The “Curves, high and complicative”, who is a good companion, but this is what we call him, among other virtues, to be a complicative, does not stop swearing!. You, that you are reading to me, you are also a European military to fight in Africa, you are clinging to read half of the third page, wrinkled and slightly route, a newspaper dated a month ago, are leaning against the corner of the door, no door, the entrance of that damn dorm where many are a camouflaged to dry over the nets, dirty with sweat and mud, among other things, there smells like anything but “hope”. The “Mister Host,” which was that military very disciplined, educated and religious, comes recommend you with a delicate air, read that chapter of the Bible, which recommend anything that we do not hear well, but he left the dorm perhaps without realizing it, gives you a bump, that you do not liked, because with the torn a little more movement than half of the paper sheet, and soon you answered with a, “oh fuck, no longer see well”)!

…continuando a sonhar, nós, com um sorriso maroto, começámos a contar a história, naquela linguagem de combatente, sem aquelas palavras e frases modernas, que ninguém entende, história esta, que lemos não sabemos onde, mas muitos companheiros, como o “Setúbal”, o “Marafado”, o “Pastilhas”, o “Trinta e Seis”, mesmo o “Mister Hóstia”, que veio muito sorrateiramente colocar-se ao nosso lado, claro, com a bíblia na mão, a mostrá-la, e também o “Arroz com Pão”, que era o dedicado cabo do rancho, também veterano, que sempre lhes arranjava algo para comerem, quando saíam para combate, para irem entretendo o estômago, que não fosse ração de combate, que alguns diziam lhe dava a volta aos intestinos, que na linguagem local era, “panga bariga”, logo se vieram colocar ao nosso lado, para a ouvir, portanto, começámos a falar, cá vai:

– Ouçam bem, nada há a fazer, pois a nossa fama já vem de longe, talvez por volta do ano de 1617, está-nos no sangue, éramos e, talvez ainda hoje sejamos assim, queremos ser os melhores, os primeiros, os inovadores, ir lá à frente, sem quase nunca prever as consequências!.

…neste momento, o “Curvas, alto e complicativo”, manda-nos calar, com uma linguagem universal, rude, que quase todos nós conhecemos, mas nós continuámos a falar, cá vai:

– Vejam lá que um tal português, nosso antepassado, de nome Luís Mendes de Vasconcelos, fazia, não sabemos a mando de quem, aquelas incursões na África Austral e, de uma dessas vezes, já uns anos depois, (pois aquilo por ali, naquele tempo, era só escolher os que tinham aspecto mais saudável e melhores condições físicas e, carregar para bordo), talvez acompanhado pelos homens ao seu mando, também não sabemos se eram marinheiros ou piratas, invadiu a aldeia de N’dongo, em Luanda, Angola, carregando 60 cativos a bordo do navio negreiro São João Baptista, presos a ferros, homens e mulheres, foram enviados para o porto de Vera Cruz, no México. Os ingleses, holandeses, dinamarqueses e franceses, que por aquela altura se consideravam os donos do mar e das ilhas de uma região a que chamavam e ainda chamam “West Indies”, que quer dizer mais ou menos Índias Ocidentais, mas que não têm nada a ver com a Índia, que fica noutro continente, pois esta, é uma região da Bacia do Caribe e Oceano Atlântico Norte, que inclui as muitas ilhas e nações insulares das Antilhas e do arquipélago Lucayan, dizem até, que a culpa foi de um tal Cristóvão Colombo, que na sua primeira viagem às Américas, andando por ali a navegar, pensando que tinha chegado à Índia, lhe começou a chamar esse nome, e daí, os europeus de então, começaram a chamar-lhe Índias Ocidentais, para as diferenciar das ilhas que existem na verdadeira Índia, que são na região do sul e sudeste da Ásia”!.(continuing to dream, we, with a mischievous smile, began to tell the story, that combatant language without those words and modern phrases that nobody understands, history this, we read do not know where, but many companions like “Setúbal”, the “Marafado”, the “Tablets”, the “Thirty-Six”, even “Mister Host”, which came very stealthily put up on our side, of course, with the bible in hand, to show it, and also the “Rice and Bread”, which was dedicated ranch cable also veteran who always had them something to eat, when they went out to fight, to go entertain the stomach, it was not feed combat, which some said gave him back to the intestines, which in the local language was “panga bariga”, soon they came to put our side, to listen, so we started talking, here goes:

– Listen up, there is nothing to do, because our fame comes from afar, perhaps around the year 1617, is in our blood, were and perhaps still today we are well, we want to be the best, the former, innovative, go ahead without almost never predict the consequences!.

At this time, the “Curves, high and complicative”, send us shut up, with a universal language, rude, that most of us know, but we continued to talk, here goes:

– Look there that such a Portuguese, our ancestor, name Luis Mendes de Vasconcelos, did not know at the behest of those, those incursions in southern Africa, and one of those times, since a few years later (as it there, at that time, was only choose those who had healthier appearance and better physical conditions and carrying on board), perhaps accompanied by the men at his command, we do not know if they were sailors or pirates, invaded the village of N’Dongo in Luanda , Angola, carrying 60 captives aboard the slave ship St. John the Baptist, imprisoned in chains, men and women were sent to the port of Vera Cruz, Mexico. The English, Dutch, Danish and French, who by that time considered themselves the owners of the sea and the islands of a region they called and still call “West Indies”, which means more or less West Indies, but they have nothing to do with India, which is on another continent, as this is a region of the Caribbean Basin and the North Atlantic Ocean, including the many islands and island nations of the Antilles and the Lucayan archipelago, even say that it was the fault of a as Christopher Columbus, who on his first voyage to the Americas, walking around browsing, thinking he had reached India, she got the call that name, and then, the Europeans then began to call it the West Indies, for differentiate the islands that exist in the real India, which are in south and southeast Asia”)!.


…sonhando, interrompo, só para dizer que o “Curvas, alto e complicativo”, já me está a olhar de lado e a fazer gestos com a garrafa da cerveja vazia, vamos mas é continuar, cá vai a continuação:

– Esses tais Ingleses, holandeses, dinamarqueses e franceses, andavam por ali “à pesca”, principalmente dos navios portugueses ou espanhóis, pois sabiam que para cá traziam cativos africanos e, para lá levavam ouro, prata ou especiarias e, quando o marinheiro ou pirata, também não sabemos ao certo, que lá ia em cima, na vigia do navio, White Lion, (Leão Branco), a que também chamavam “The Flying Dutchman”, que quer dizer mais ou menos, “o holandês voador”, gritou com quanta força tinha nos seus já cansados e doentes pulmões, (pois a água potável, já estava racionada a bordo, já ia para duas semanas), para o seu capitão, um tal John Jope, e disse, “Portuguese ship to port, should bring slaves”, que quer dizer mais ou menos, “navio português a bombordo, deve trazer escravos”!

…continuando a sonhar, o “Setúbal”, que por sinal era nosso companheiro e amigo, que usou o equipamento camuflado que nos foi distribuído e, ia para as matas e bolanhas, naquele camuflado, já coçado, com as mangas cortadas, levava sempre um “lenço tabaqueiro”, que comprou na loja do Libanês, pendurado no cinto, dizia-nos ele, que era para lhe dar sorte, onde também ia o máximo de carregadores possível assim como uma granada, às vezes duas, que lhe eram distribuídas antes de sair, alguns também levavam uma faca bastante afiada, com uma protecção de cabedal, colocavam os restos das meias, que lhes saíam das botas, algumas rotas, por fora das pernas das calças, interrompeu-nos, para dizer, para não darmos mais “música”, mas continuámos a falar, cá vai:

– Não foi preciso mais nada, junto com seu assistente, o piloto Inglês Marmaduke Rayner, organizaram um ataque, unindo forças, também não sabemos se era um ataque de marinheiros ou um ataque de piratas, mas o certo é que quando se depararam com o navio português, São João Baptista, nessas águas do “West Indies”, atacaram-no e roubaram-lhe toda a sua carga, incluindo os africanos, colocando-os sobre o tal navio Leão Branco, que chegou a Old Point Comfort, que é hoje um lugar histórico na península do estado da Virginia, nos USA, em 20 de agosto de 1619, deixando ali, só 20 dos 60 cativos!.

(dreaming, I interrupt, just to say that the “Curves, high and complicative”, since me is to look a side and making gestures with bottle empty beer, but we are continue, here goes the continuation:

– These such British, Dutch, Danish and French, walked over there “fishing”, mainly of Portuguese or Spanish ships, for they knew that here brought African captives and there brought gold, silver and spices, and when the sailor or pirate, we do not know for sure, that there was going up, the ship’s porthole, White Lion (White Lion), which also called “the Flying Dutchman”, which means roughly, “the Flying Dutchman” screamed as hard as he had in his already tired and sick lungs (for drinking water, was already rationed on board, I was already for two weeks) to his captain, a certain John Joppa, and said, “Portuguese ship to port , shouldnt bring slaves”, which means roughly,”Portuguese ship to port, should bring slaves”!.

Continuing to dream, the “Setúbal”, which by the way was our companion and friend, who used the camouflaged equipment that was distributed to us and went to the woods and bolanhas, that camouflaged, as seedy, with the sleeves cut off, always carried a “tobacconist scarf” , who bought the Lebanese store, hanging on his belt, he told us it, that was for luck, which also was the most chargers can like a grenade, sometimes two, that you were distributed before leaving, some also took a very sharp knife with a leather protection, put the remains of the socks, which they came out of boots, some routes out of the trouser legs, interrupted us to say, so we do not give more “music” but we continued to talk, here goes:

– It did not take anything else, along with his assistant, the pilot English Marmaduke Rayner, organized an attack by joining forces, we do not know if it was an attack of sailors or an attack of pirates, but the fact is that when faced with Portuguese ship, St. John the Baptist in these waters of the “West Indies”, attacked him and robbed him all his cargo, including Africans, placing them on such a ship White Lion, who came to Old Point Comfort, which is today a historic place in the Virginia state peninsula, the USA, on August 20, 1619, leaving there, only 20 of the 60 captives)!.

…continuando a sonhar, tivemos outra interrupção, desta vez era o “Trinta e Seis”, o tal soldado que era baixo e forte na estatura, parecia de facto uma “bola”, passe o termo e, quando chamavam por ele, diziam, Trinta e Seis, rola para aqui, ou, o Trinta e Seis, não caminha, rola, o que ele nesse momento mostrava aquele dedo da mão esquerda, muito direito para cima, denunciando um gesto erótico, dizendo-nos, para “cantarmos” e, não falarmos, mas nós continuámos a falar, ou seja a sonhar, cá vai:

– E por quê só 20 cativos? Porque os outros 40, quando o tesoureiro do navio Leão Branco, que chegou cerca de quatro dias depois os tentou negociar como troca, para o abastecimento do navio, as negociações não foram aceites, houve mesmo tentativa de luta, então, o capitão ou pirata, também não sabemos ao certo, do navio Leão Branco, talvez zangado, levou toda a sua carga humana, condenando os cativos, não às praias ensolaradas de Bermuda, mas para suas plantações infernais, onde nunca mais se ouviu falar deles. Sabem qual era o preço para a troca destes seres humanos? Era única e simplesmente, água e milho. Falando agora dos outros 20 angolanos, que ficaram em Old Point Comfort, onde dois deles, ou seja, Antonio e Isabella, que receberam nomes cristãos, (nomes que lhe foram dados, como chamamos aos nossos animais de estimação), foram negociados com o capitão William Tucker, para trabalhar na sua plantação e, talvez para mais qualquer coisa, onde, quatro anos mais tarde, Antonio e Isabella se tornaram os pais do primeiro filho preto, escravo, cujo nascimento foi oficialmente documentado na América Colonial. O nome que lhe foi imposto era William Tucker, também o nome do homem que escravizou seus pais e, uma terceira pessoa identificada, a quem foi dado o nome de Pedro. Os restantes 17 não tiveram nome, foram trocados por produtos adicionais para o governador George Yeardley e Abraham Piersey, que os obrigou a trabalho em plantações ao longo do rio James, próximo de onde é hoje a cidade de Charles City, no mesmo estado!.

…neste momento, aparece o “Furriel Miliciano”, que adorava um cigarro feito à mão, e diz, “amanhã, às cinco, normal equipamento, só a primeira secção, não esqueçam de levantar as granadas ainda hoje”!.

…ainda bem que a nossa esposa Isaura, nos deu um abanão e acordámos, não fazendo muita diferença, pois a história tinha chegado ao fim!.

…e era verdadeira, talvez!.

(continuing to dream, we had another break, this time was the “Thirty-Six”, the one soldier who was stocky in stature, seemed in fact a “ball”, pass the word and when called by him, they said, Thirty-Six, rolls here, or the Thirty-Six, do not walk, roll, which he at that time showed that finger of his left hand, very straight up, denouncing an erotic gesture, telling us to “sing” and we do not talk, but we continued to talk, here goes:.

– And why only 20 prisoners? For the other 40, when the treasurer of the White Lion ship, which arrived about four days after the attempted to negotiate to exchange, to supply the ship, the negotiations were not accepted, there was even an attempt to fight, then the captain or pirate also do not know for sure, the White Lion ship, perhaps angry, took all their human cargo, condemning the captives, not the sunny beaches of Bermuda, but for his hellish plantations where never is heard of them. You know what the price for the exchange of these humans? It was purely and simply, water and corn. Speaking now of the other 20 Angolans, who stayed at Old Point Comfort, where two of them, namely, Antonio and Isabella, who received Christian names (names given to him, as we call our pets) were negotiated with the captain William Tucker, to work on his plantation, and perhaps to something else, which, four years later, Antonio and Isabella became the parents of the first black child, slave, whose birth was officially documented in Colonial America. The name that was imposed was William Tucker, also name the man who enslaved her parents and a third person identified, who was given the name of Peter. The remaining 17 had no name, were redeemed for additional products to Governor George Yeardley and Abraham Piersey, which forced them to labor on plantations along the James River, near what is now the city of Charles City, in the same state!.

At this time, it appears the “Furriel Militiaman” who loved a cigarette done by hand, and says, “tomorrow at five, regular equipment, only the first section, do not forget to raise the grenades today.”

Thankfully, our wife Isaura, and she gave us a jolt and woke up not making much difference, because the story was over)!.

And it was true, perhaps!.

Tony Borie December 2017.

…the Woman in the War!

…the Woman in the War!

…a Mulher na Guerra! (the Woman in the War)!

…a foto com que o Cifra inicia este texto, veio-lhe parar às mãos, na região do Oio, na então província da Guiné, nos anos de 1964/66. Não sabe se são mesmo guerrilheiras, ou se é somente uma foto para impressionar, mas ambas mostram uma cara com alguma angústia, também não sabe se foi o Cifra que a tirou, nas suas andanças de fim de mês, na entrega de material classificado de cifra, pela região onde estavam as forças militares que pertenciam ao seu agrupamento, que estava estacionado em Mansoa. O Cifra acredita que foi ele que a tirou, mas não sabe em que situação ou em que lugar, ou se estava mais algum militar com ele nesse momento com máquina fotográfica, sabe que foi na região do Oio, e talvez em Mansoa, Mansabá, Bissorã, Olossato, Cutia, Nhacra, Encheia, ou qualquer outro lugar, na região do Oio ou próximo. As armas que elas seguram são parecidas com as que as milícias usavam, e que acompanhavam os militares, servindo de guias tradutores. Se os antigos combatentes, que nessa altura lá se encontravam e souberem a sua proveniência, por favor contem a história, o Cifra e os demais agradecem, oxalá que ainda estejam vivas, e esta fotografia, é uma homenagem de respeito e apreciação, pelo seu sofrimento e pela sua coragem, não só delas, como todas as mulheres africanas que de uma maneira ou de outra estiveram envolvidas no conflito, e é assim que deve ser vista!.

…agora vamos ao texto:

..o Cifra, entende que nos relatos em que lembramos as nossas memórias, os homens, antigos combatentes, sempre falam de si, contam isto e aquilo, às vezes até criam um certo protagonismo. E então as mulheres, não estiveram por trás dos homens, não sofreram, não sentiram a ausência, não ficaram viúvas, não ficaram sem noivos, namorados, filhos, irmãos, netos, não choraram a ausência do marido, não ficaram sozinhas, às vezes com filhos bebés? E não foram só as mulheres dos militares europeus, foram também as mulheres africanas, das famílias dos guerrilheiros, isto é uma verdade, que alguns de nós, mas infelizmente poucos, ainda lembramos. Somos sobreviventes de uma guerra horrorosa, que não desejo, em nenhuma circunstância, se volte a repetir, mas vou mencionar algumas passagens de relatos de textos anteriores, onde o Cifra fala da mulher, portanto cá vai:

“Na aldeia havia somente uma mulher, magra, já de uma certa idade, nua da cinta para cima, com algumas argolas em volta do pescoço, servindo de enfeite, talvez. Estava sentada, ao lado de um balaio de arroz com casca, com as mãos ao lado da cara, falando aflita, numa linguagem incompreensível, e de vez em quando, tirava as mãos da cara, fazia gestos para a frente, ao mesmo tempo que balançava o corpo para a frente e para trás. Na sua frente, estavam duas crianças, também magras e nuas. Estas três pessoas, eram no momento, os habitantes da aldeia. 

Os soldados africanos, chamados pelo alferes, para traduzirem as palavras da mulher, diziam:

– Ela se lastima, por os militares lhe terem morto os seus dois filhos, e diz para se irem embora, que aqui não há mais ninguém. Também diz que tem quatro filhas, que desapareceram um certo dia pela madrugada, e que as visitam de vez em quando, pois neste momento eram guerrilheiras, transportadoras de material de guerra”. 

…e agora, outro relato tirado de outro texto:

“Em Portugal, o Cifra, visitou a família deste militar, por diversas vezes. Era de uma aldeia da serra da Estrela, tinha uma irmã e um irmão, ambos casados. A mãe andava sempre vestida de preto e dizia: 

– Ainda não fui, mas não tarda muito tempo. Sou viúva duas vezes, do meu Joaquim, que Deus lhe guarde a alma em descanso, e do meu António, que era a cara do pai, quando nasceu, e que foi dar o corpo às balas, e que morreu na guerra, lá na África. E mostrava sempre o farrapo do camuflado ensanguentado, que o Cifra lhe mandou, e a fotografia do António, que beijava e encostava ao coração”. 

…estes relatos exprimem dor, angústia e sofrimento, da mulher, tanto africana com europeia, e o Cifra acredita, que não existe nenhum ser humano, por mais estudos e experiência que tenha, que esteja qualificado para analisar o que ia na mente destes seres humanos, que perderam os seus entes queridos!.

…só para terminar, o Cifra fez o arranjo desta foto que é uma simples homenagem À MULHER, que de algum modo, esteve envolvida no conflito, tanto africana como europeia, que colocou frente-a-frente, os militares de Portugal contra os guerrilheiros que lutavam pela independência do seu território!.

The Woman and the conflit!

The photo with the Cipher begins this text, it came into the hands, on the Oio region of the then province of Guinea, in the years 1964/66. 

Do not know if they are even guerrilla or is it just a photo to impress but both show a guy with some trouble, did not know it was that took the Cipher, in their wanderings month-end, the delivery of classified material cipher, which were the region’s military forces belonging to his group, parked in Mansoa. The Cipher believes that he took, but do not know where that place or situation, or if he was any more military with him this time with a camera, was known to have been in the Oio region, and perhaps in Mansoa, Mansaba, Bissorã, Olossato, Agouti, Nhacra, Encheia, or anywhere else in the region or near Oio. The weapons that they hold are similar to that used militias, and who accompanied the military, serving as translators guides. If the former fighters, who at that time were there and know its provenance, please tell the story, the cipher and the other thanks, hopefully they are still alive, and this photo, is a tribute of respect and appreciation for his suffering and their courage, not only them, like all African women who in one way or another were involved in the conflict, and so it should be seen. 

Now for the text: 

The Cipher, believes that the reports we remember our memories, men, former soldiers, always speak of themselves, have this and that, sometimes even create a certain role. And then women were not behind the men, did not suffer, did not feel the absence, not widowed, were not without boyfriends, boyfriends, sons, brothers, grandsons, not mourned her husband’s absence, were not alone, sometimes with babies born? And it was not only women of European military, were also African women, the families of the guerrillas, it is a fact that some of us, but unfortunately few, we still remember. We are survivors of a horrific war, I do not want under any circumstances, happen again, but I will mention a few passages from reports of earlier texts, where the Cipher woman talking, so here goes:

 “In the village there was only one woman, lean because of a certain age, naked from the waist up, with some rings around the neck, serving as a garnish, perhaps. Was sitting beside a hamper of paddy, hands next to face, talking afflicted, an incomprehensible language, and occasionally, took his hands to the face, beckoned forward, while rocked forward and backward. In front of him were two children, too thin and bare. . These three people were at the time, the villagers African soldiers, called by the lieutenant, to translate the words of the woman, said: 

– It is with regret by the military have killed her two sons, and says to go away, that there’s nobody else here. Also says he has four daughters, who disappeared one day at dawn, and that visit from time to time, because this time they were guerrillas, carriers of war material”!.

 And now, another story taken from another text: 

“In Portugal the Cipher, visited the family of this soldier several times. It was a village of Serra da Estrela, had a sister and brother, both married. The mother was always dressed in black and said: 

 – I have not been, but not long long time. I am a widow twice, my Joaquim, God rest his soul at rest, and my Anthony, who was the face of his father when he was born, and that was to give the body the bullets, and who died in the war, there in Africa. And always showed the bloodied rag of camouflage, the Cipher commanded him, and the photograph of Anthony, who kissed and touched to the heart”!. 

These reports express pain, grief and suffering of women, both African, European, and Cipher believes that no human being, however studies and experience I have, you are qualified to analyze what was in the minds of those humans who lost their loved ones. Just to finish, the Cipher did the arrangement of this photo is a simple tribute to the woman, who somehow was involved in the conflict, both African and European, who placed face-to-face military of Portugal against the guerrillas fighting for independence of their territory. 

Tony Borie, November 2017.