…three legged bench!


…a Tripeça! (three legged bench)!

…os anos vão passando, a viagem que fomos fazendo, por lugares, alguns remotos, em diversos continentes, que nos foram trazendo pensamentos, por vezes agradáveis, outros não muito agradáveis, mesmo angustiosos, mas fazem parte desta odisseia, que é e foi, a nossa estadia neste planeta, a que ainda vão chamando de “Planeta Terra”!. (the years are passing, the journey we have been doing, places, some remote, in different continents, that have brought us thoughts, sometimes pleasant, others not very pleasant, even distressing, but are part of this odyssey, which is and it was our stay on this planet, which we still call “Planet Earth”)!.

… a nossa já longa vida, levou a nos identificar quase totalmente, com uma música do cantor de baladas Willie Nelson, onde diz “My Heros Have Always Been Cowboys”, (Os meus Heróis sempre foram os Cowboys), porque na verdade, a não ser os da nossa infância, dos livros das “histórias aos quadradinhos”, nunca tivémos um qualquer herói, pelo menos os “fabricados” pela história mundial, que nos apresentam em diferentes épocas!. (our long life, led us to identify almost entirely with a song by singer Willie Nelson, where it says “My Heroes Have Always Been Cowboys”, because in fact, except those of our childhood, from the books of “stories to squares”, we have never had any hero, at least those “fabricated” by world history, which present us at different times)!.

…hoje voltamos à Guerra Colonial Portuguesa, a África, ao chão de terra vermelha, onde passámos um período da nossa vida, amargurada, coberta de medo e angústia, mandados para lá por um primeiro-ministro mentiroso, com um pensamento cheio de ideias políticas, que na altura diziam, ou ele se auto-identificava, como um “herói do povo”, dizendo-nos para irmos para a guerra, entre outras coisas interromper o comunismo, que ameaçava as suas Províncias Coloniais, para proteger as pessoas pobres, que viviam por lá!. (today we went back to the Portuguese Colonial War, the Africa, to the ground of red earth, where we spent a bitter, fearful and anguished period of our lives, sent there by a lying prime minister, with a thought full of political ideas, which at the time said, or he identified himself as a “hero of the people,” telling us to go to war, among other things, to stop communism, which threatened its Colonial Provinces, to protect people, poor people who lived there)!.

…hoje, ao lembrarmos aqueles anos, pensando naquele maldito primeiro-ministro, que nos arrancou da nossa aldeia do Vale do Ninho d’Águia, na encosta agreste da montanha do Caramulo, lá naquele Portugal da Europa, desterrando-nos para uma área de combate, a milhares de quilómeros de distância, combatendo pessoas que nenhum mal nos tinham feito antes, que nem sequer conhecíamos, provocando uma guerra que se prolongou por anos, matando milhares de jovens, ferindo e traumatizando outros tantos, onde só existia um cenário de medo, angústia e sofrimento!. (today, as we remember those years, thinking of that accursed Prime Minister, who has taken us from our village in the Valley of the Ninho d’Águia, on the rugged hillside of Caramulo Mountain, back in that Portugal of Europe, banishing us to a thousands of miles away, fighting people that no evil had done to us before, which we did not even know, provoking a war that lasted for years, killing thousands of young people, wounding and traumatizing others, where there was only one scenery of fear, anguish and suffering)!.

…já lá ia mais de um ano, quase dois, no interior da então Província da Guiné Portuguesa, estava a tornar-se difícil, mesmo muito difícil, quase penoso, havia momentos de completo descontrolo, não sabíamos quem éramos, onde estávamos, nada nos importava, o cigarro não saía dos lábios, acendiam-se uns aos outros, a nossa companheira de quase todos os momentos, a tal garrafa que era especial, porque tinha uma rolha em porcelana, com argola em borracha, fechando por intermédio de uma engrenagem de dois arames, que os primos de Lisboa, tinham trazido da capital e, que nós trouxemos da nossa aldeia do Vale do Ninho d’Águia, que sempre nos acompanhou, andava cheia de tudo, até medo, pois já conhecia o som de uma metralhadora disparando ou a explosão de uma granada de morteiro 90, mas naquele momento, trazia um líquido parecido com coca-cola, mas de coca-cola não tinha nada, era uma mistura de vinho, café e álcool roubado ao “Pastilhas”, na enfermaria!. (more than a year, almost two years ago, within the then Province of Portuguese-Guinea, it was becoming difficult, even very difficult, almost painful, there were moments of complete lack of control, we did not know who we were, where we were, nothing mattered to us, the cigarette did not leave our lips, they lit each other, our companion of almost every moment, the bottle that was special, because it had a porcelain stopper, with rubber ring, closing by means of of a two-wire gear that the Lisbon cousins had brought from the capital, and which we brought from our village in the Valley of the Ninho d ‘Águia, which always accompanied us, was full of everything, even fear, since I already knew the sound of a machine-gun firing or the explosion of a mortar grenade 90, but at that moment, it had a Coke-like liquid, but of Coke it had nothing, it was a mixture of wine, coffee and alcohol stolen from “Pastilhas”, in the nursery room!.

…apesar desse aspecto desleixado, quando chegava o momento de entrar de serviço e executar as nossas tarefas, apresentávamo-nos limpos, usando a camisa comunitária, que era a que sempre estava pendurada no Centro Cripto e, que todos os companheiros usavam para entregar as mensagens já decifradas no comando, especialmente quando havia contacto com o comandante!. As tarefas eram executadas com toda a precisão, fazia-nos bem, andávamos ocupados, no entanto, fora das nossas tarefas, surgia na nossa mente uma espécie de triângulo, era uma “tripeça”, igual à que havia na casa da avó materna, já velha, com uma perna quase a partir!. Esta, na nossa mente, também tinha uma, talvez duas pernas quase a partir, pois orgulhosamente, considerávamo-nos parte de três famílias, eram três queridas famílias!. (in spite of this sloppy appearance, when it was time to get on duty and perform our tasks, we would present ourselves clean, wearing the community shirt, which was the one that was always hung in the Crypto Center and which all the companions used to deliver the messages already deciphered in the command, especially when there was contact with the commander!. The tasks were executed with all the precision, it did us well, we were busy, however, outside our tasks, it came in our mind a kind of triangle, it was a “three legged bench”, just like the one in the maternal grandmother’s house, already old, with an almost broken leg!. This, in our mind, also had one, perhaps two legs almost split, because proudly, we considered ourselves part of three families, were three dear families)!.

…os naturais, aquelas pessoas amigas que viviam na tal “tabanca”, (aldeia), com casas cobertas de colmo, um pouco a norte do aquartelamento, eram a nossa primeira família, passávamos por lá quase todos os dias, viviam debaixo da maior miséria que um ser humano pode viver, palhotas com chão térreo, com uma simples panela, que às vezes nem era panela, era uma lata de conserva de qualquer coisa, que levávamos com comida do aquartelamento, dormiam em cima de um lastro feito de ervas secas, coberto com um simples pano, onde o pouco com que se alimentavam, repartiam com os animais, que também famintos, cobertos de insectos, com o rabo entre as pernas, procuravam aproximar-se delas, dessas simples pessoas que, vivendo miserávelmente davam-nos tudo o que lhes era possível dar, sem nunca pedirem nada em troca, sempre com um sorriso, olhando-nos nos olhos, sinceras e humildes, com uma maneira própria, que nós, oriundos da velha Europa, nunca tínhamos visto em toda a nossa ainda jovem vida!. Agora, quase a abandoná-las, talvez para sempre, ficávamos tristes, mesmo muito tristes, com algumas lágrimas de saudade, dizíamos baixinho, só para nós:

– desejava ansiosamente o dia de regressar à Europa, agora quero ficar aqui para sempre!.

(The natives, those friendly people who lived in such “tabanca” (village), with thatched houses, a little north of the barracks, were our first family, we went there almost every day, lived underneath of the greatest misery that a human being can live on, with ground-level huts, with a simple pan, which sometimes was not even a pan, was a can of anything that we carried with food from the barracks, slept on a ballast made of dried herbs, covered with a simple cloth, where the little they fed, distributed with the animals, who also hungry, covered with insects, with the tail between their legs, sought to approach them, those simple people who, living miserably gave us everything they could give them, never asking for anything in return, always with a smile, looking us in the eyes, sincere and humble, with a way of our own, which we, from old Europe, had never seen in all our still young life! Now, almost abandoning them, perhaps forever, we were sad, even very sad, with a few tears of longing, we said quietly, just for us:

– Anxiously wanted the day to return to Europe, now I want to stay here forever)!.

…os nossos companheiros, em especial o nosso grupo com quem convivemos dois anos, o Curvas alto e refilão, o Marafado, o Trinta e Seis, o Setúbal, o Mister Hóstia, o Arroz com Pão, o Gascidla, o Lifouboy, o Pastilhas, o Furriel Miliciano ou o Sargento da Messe, conheciamo-nos como tivéssemos vivido juntos toda a vida, eram eles a nossa segunda família, sabíamos os costumes uns dos outros, muitas vezes zangados mas amigos, bebíamos, fumávamos, roubávamos pão, vinho ou álcool, quando um tinha fartura de alguma coisa, todos tinham fartura e, quando não havia para um, não havia para ninguém!. Todos os nossos problemas ficavam quase resolvidos ao deitar, sobre influência alguns, outros de sentinela, não vão os guerrilheiros atacar o aquartelamento nessa noite!. (our companions, especially our group with whom we have lived for two years, the Curvas high and complicative, the Marafado, the Thirty-Six, Setúbal, Mister Hóstia, Rice with Bread, Gascidla, Lifouboy, the Furriel Miliciano or the Sergeant of the Messe, we knew how we had lived together all our lives, they were our second family, we knew the customs of each other, often angry but friends, we drank, we smoked, we stole bread, wine or alcohol, when one had plenty of something, all had plenty, and when there was not for one, there was no one! All our problems were almost solved at bedtime, on some influence, some sentinel, the guerrillas will not attack the barracks that night)!.

…a terceira família, era aquela que nos esperava na Europa, que nos mandava cartas e aerogramas, algumas com fotos, que nos proporcionava alguns momentos de menos sofrimento, desejando-nos sorte, perguntando se nos encontrávamos bem, ao qual muitas vezes rspondíamos que, qualquer dia iríamos regressar e, nesse momento iriam ver o que restava de nós!. Em alguns momentos imaginávamos como seriam as suas faces quando os visse de novo, uns talvez parececem mais velhos, outros talvez não, alguns tinham nascido depois de abandonar-mos a aldeia, outros já não pertenciam ao número dos vivos, enfim, iria acontecer alguma surpresa, mas uma surpresa agradável, no entanto estas três famílias traziam a nossa mente ocupada, algo confusa e um pouco angustiada também!. (the third family was the one who was waiting for us in Europe, who sent us letters and aerograms, some with photos, which gave us some moments of less suffering, wishing ourselves luck, asking if we were well, which often We would say that someday we would come back, and then they would see what was left of us! At times we imagined what their faces would look like when they saw them again, some may look older, some might not, some had been born after we left the village, some were no longer living, some would happen surprise but a pleasant surprise, however these three families brought our mind occupied, somewhat confused and a bit distressed too)!.

…e na verdade, num dia quente, princípio de verão, regressámos à Europa, um pouco diferentes, mais frios, vendo e cheirando a área, não vendo mais o chão de terra vermelha, desconfiados, com medo de tudo o que se movimentasse em nosso redor, não acreditando em heróis, pois se os houvesse, foram os irmãos de guerra que morreram em combate, os quais alguns, ajudámos a recolher o que restava dos seus ensanguentados corpos, embrulhando-os no seu próprio camuflado, roto pelo tempo e pelos buracos de balas mortíferas que o atravessaram, enquanto a sua alma, se é que existia, os abandonava, fugindo, também amedrontada para um infinito qualquer!. (and in fact, on a warm day, early summer, we returned to Europe, a little different, cooler, seeing and smelling the area, no longer seeing the ground of red earth, distrustful, afraid of everything that moved around us, not believing in heroes, for if the there were war brothers who died in combat, some of whom we helped to collect what was left of their bloody bodies, wrapping them in their own camouflage, broken by the time and by the holes of deadly bullets that passed through it, while the his soul, if it existed, abandoned them, fled, also frightened to any infinite)!

…era o que restava de nós!. (was what was left of us)!

Tony Borie, April 2018.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s