…reading the war diary!


…lendo o diário de guerra! (reading the war diary)!.

…hoje vamos contar uma história pitoresca passada em cenário de guerra!. Vamos esquecer mecanismos para governar uma guerra, tratados para proteger os direitos humanos, impedir o genocídio, restringir as armas mais perigosas, pois tudo isso só existe no papel, guerra é guerra, quando existe é para vencer ou perder, quase vale tudo, esses esforços, quase nunca são bem sucedidos, as guerras são terríveis, são travadas e atrocidades são cometidas, essa é a verdade!. (Today we will tell a past picturesque story in a scenario of war!. Let us forget mechanisms to govern a war, treats to protect human rights, prevent genocide, restrict the most dangerous weapons, because all this only exists on paper, war is war, when there is to win or lose, almost anything, these efforts are almost never successful, wars are terrible, they are fought and atrocities are committed, that is the truth)!.

…abrimos o nosso diário de guerra, lá vêm duas páginas, onde com alguma dificuldade se pode ler que no dia 4 de Novembro, que devia de ser do ano de 1964, fomos jantar a casa do Primeiro Sargento de uma Companhia de Engenharia, que estava estacionada na vila de Mansoa durante a construção do novo aquartelamento e, que vivia numa casa do Libanês, com sua esposa, sendo o responsável por tudo o que dizia respeito a uso de cimento, nas obras do novo aquartelamento, usando um camião de três rodados, que transportava o cimento desde o cais do rio Gêba, na cidade de Bissau!. Alguns militares, diziam que o referido camião não era lá muito seguro, pois “deixava cair” alguns sacos de cimento antes de chegar à vila de Mansoa, chegando quase sempre, pouco mais que meio!. (We open our war diary, there come two pages, where with some difficulty one can read that on November 4, which should have been from the year 1964, we went to dinner at the home of the First Sergeant of an Engineering Company, who was stationed in the village of Mansoa during the construction of the new barracks, and who lived in a Lebanese house with his wife and was responsible for all that was involved in the use of cement in the construction of the new quarters using a truck of three wheeled, that transported the cement from the quay of the river Gêba, in the city of Bissau!. Some soldiers said that the truck was not very safe there, as it “dropped” some sacks of cement before arriving at the village of Mansoa, arriving almost always, little more than half)!.

…o Primeiro Sargento, sempre guardava algum cimento para usar nas fundações das futuras barracas que se iam construindo, roubando terreno aos pântanos que circundavam a área!. Se roubava cimento, era parte do comércio que uniu parte do mundo, onde milhões, dizemos até combóios de dinheiro, são constantemente retirados da classe de pobreza que em algumas partes do globo existem, onde quadrilhas organizadas funcionam, contrariando os ideais de liberdade e igualdade de um estado de direito, que infelizmente continuam a avançar, impossíveis de parar em algumas partes do nosso planeta!. Enfim, é um legado do qual somos herdeiros da fortaleza de gerações passadas!. (The First Sergeant, he always kept some cement to use on the foundations of future tents that were being built, stealing land from the marshes that surrounded the area!. Stealing cement, it was part of the trade that united part of the world, where millions, we even say trains of money are constantly removed from poverty class that in some parts of the globe exist, where organized gangs work, contrary to the ideals of freedom and equality of a state of law, which unfortunately continue to advance, impossible to stop in some parts of our planet!. At last, it is a legacy of which we are heirs of the fortress of past generations)!.

…nós neste momento, somos pessoas com uma idade um pouco avançada, talvez fora do tempo, da actualidade e, o que acabamos de escrever são apenas “off words”, (palavras de fora), não estavam escritas no nosso diário de guerra, portanto vamos continuar a ler o que lá está escrito!. Aquele jantar, foi um grande convívio, havia lá uma gazela, que tinha sido assada no forno do aquartelamento, batatas cozidas com a pele, pão e azeitonas, regadas com muito vinho, não sendo necessário explicar que tudo isto foi roubado no aquartelamento, (da tal parte do comércio que uniu parte do mundo)!. (We at this moment are people of a slightly advanced age, perhaps out of time, of the present day, and what we have just written are just “off words”, were not written in our diary of war, so let’s continue reading what’s written there!. That dinner was a great joie de vivre, there was a gazelle, which had been roasted in the oven of the barracks, potatoes cooked with the skin, bread and olives, washed with plenty of wine, not having to explain that all this was stolen in the barracks, (of that part of the trade that united part of the world)!.

…não explica porque nos convidaram, mas falando no forno do aquartelamento, devia de ter havido a influência do “Arroz com Pão”, que era o companheiro responsável pelas refeições servidas aos militares, e também do “Tótó”, que era o padeiro, também responsável pela distribuição do vinho, tudo nomes de guerra com que foram baptizados, por isto ou por aquilo, por algumas peripécias em que foram protagonistas, mas que eram nossos amigos e, não se realizava nenhuma “patuscada”, em que não nos avisassem!. (Does not explain why they invited us, but speaking in the furnace of the barracks, there must have been the influence of “Rice with Bread,” which was the companion responsible for the meals served to the military, and also of the “Tótó”, which was the baker, also responsible for the distribution of wine, all names of war with which they were baptized, for this or that, for some adventures in which they were protagonists, but that were our friends and, there was no “spree”, in which they warned us)!.

…numa das páginas seguintes, um pouco à frente vem escrito numa linguagem um pouco primitiva que, viémos à capital da então província, a cidade de Bissau, na camionete dos doentes, na companhia do “Furriel Miliciano”, (outro nome de guerra), que andava sempre a fumar um cigarro feito à mão, todavia não estávamos doentes, estávamos única e simplesmente de folga das nossas tarefas militares!. Viémos sem licença, portanto “desenfiados”, como se então se dizia!. Na cidade, visitámos os pontos de referência que normalmente os militares visitavam quando vinham do “mato”, metemo-nos nos “copos”, talvez pensando que não tínhamos solução definitiva para os problemas da guerra, talvez pensando numa nova maneira sobre a noção de uma guerra justa, que não existia nem nunca existirá, ou no imperatiivo de uma paz, que sim, seria justa!. (In one of the following pages, a little later, written in a somewhat primitive language, we came to the capital of the then province, the city of Bissau, in the van of the sick, in the company of the “Furriel Miliciano” (another name for war), who was always smoking a handmade cigarette, yet we were not sick, we were simply and simply absent from our military tasks!. We saw without license, therefore “unmanned”, as if it were said!. In the city, we visited the landmarks that the military usually visited when they came from the bush, got into the “cups”, perhaps thinking that we had no definitive solution to the problems of war, perhaps thinking in a new way about the notion of a just war, that did not exist and never will exist, or in the imperative of a peace, that yes, would be just)!.

…não regressámos à camionete dos doentes, dormimos num local, que segundo o que diz no diário, era “piolhoso”, ao norte da cidade, onde havia uma grande “tabanca”, (aldeia), com muitas “moranças”, (casas), e raparigas africanas, que não falavam “crioulo” (dialecto local), nem usavam sómente um pano em volta da cinta, não tinham “mama firme”, (peito duro e saliente), ou argolas no pescoço e nas pernas servindo de enfeite, nem andavam descalças!. Pelo contrário, usavam roupas de cor berrante, justas ao corpo, principalmente a segurarem a mama, que não era firme, lábios com alguma pintura, um perfume barato cheirando a álcool, com gestos sensuais e provocatórios!. Quando se aproximavam, falavam algumas palavras obscenas num português acrioulado, dizendo:

– és pessoal do Lisboa?. Queres água ou licor do Lisboa?. Olha aqui, “mama firme” (peito duro e saliente)?. Anda cá, dá “patacão, (dinheiro)!.

(We did not return to the van of the sick, we slept in a place, which according to what it says in the diary, was “lousy”, to the north of the city, where there was a big “tabanca” (village) with many “morances” (houses), and African girls, who did not speak “Creole” (local dialect), nor did they use only a cloth around the strap, had no “firm breast” (hard and salient chest), or rings on the neck and legs they did not even walk barefoot! On the contrary, they wore gaudy garments, tight to the body, especially to hold the breast, which was not “firm”, lips with some paint, an inexpensive scent smelling of alcohol, with sensual and provocative gestures! When they approached, they spoke some obscene words in an acriled Portuguese, saying:

– Are you personal to Lisboa?. Do you want water or liqueur from Lisbon?. Look here, “firm breast” (hard and salient chest)?. Come on, give me “patacão”, (money)!.

…no diário continua escrito que, ao outro dia acordámos não sabíamos onde, mas sem perdermos a calma, com uma certa compostura, retirámos algumas garrafas já vazias de bebida ao nosso redor, sem nenhum “patacão” (dinheiro) nos bolsos, não sabendo se fomos roubados ou se simplesmente gastámos tudo, sentindo algum orgulho no que fizémos, com o braço no ombro um do outro, pois mal nos contínhamos em pé, apresentámo-nos no aeroporto militar de Bissalanca, pregando uma grande mentira, dizendo que tínhamos sido agredidos e roubados, no entanto estávamos bem, mas tínhamos que regressar já ao aquartelamento de Mansoa!. (In the diary it continues written that the next day we woke up we did not know where, but without losing our calm, with a certain composure, we took some already empty bottles of drink around us, without any “patacão” (money) in our pockets, not knowing if we were stolen or if we simply spent everything, feeling some pride in what we did, with the arm in the shoulder of each other, since we were still standing, we introduced ourselves in the military airport of Bissalanca, preaching a great lie, saying that we had been beaten and robbed, but we were fine, but we had to go back to Mansoa)!.

…o furriel Honório, o piloto da avioneta do correio, a quem chamávamos o “Pardal” pelas suas acrobacias, ia levar correio e medicamentos à vila de Mansabá, trouxe-nos na avioneta!. Quando a avioneta sobrevoou o aquartelamento de Mansoa e, a secção de combate foi prestar segurança à pequena abertura que havia no capim ao norte do aquartelamente, a que nós chamávamos aeroporto, pensando recolher os sacos do correio, onde não vinha correio nenhum, deparando com nós, ambos com aspecto de militares abandonados, logo nos disseram:

– só podiam ser vocês!. O comandante vai dar-vos uma “porrada” (castigo disciplinar), que estão fodidos!.

(The furriel Honorius, the pilot of the mail plane, whom we called the “Sparrow” for his acrobatics, was going to take mail and medicines to the village of Mansabá, he brought us in the plane! As the plane flew over Mansoa’s barracks and the combat section went to secure the small opening in the grass north of the village, which we called the airport, thinking of picking up the mail bags, where no courier came, we, both looking like abandoned soldiers, soon told us:

– It could only be you!. The commander is going to give you a “stuck” (disciplinary punishment), you are fucked)!.

…nunca sabemos porquê, mas mais nada nos aconteceu!. Que “porrada”, maior podíamos levar, se tínhamos sido “agredidos e roubados” e, mesmo assim, obedientes, regressámos ao local de tortura!. (We never know why, but nothing else happened to us!. What a “stuck” we could take, if we had been “beaten and robbed” and yet obedient, we went back to the torture place)!.

Tony Borie, May 2018.

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