The Grandmother Agar!

The Grandmother Agar!

A Avó Agar!

…o tronco de uma árvore, era o lugar onde se sentava, andava sempre na companhia do seu cão amigo, que era um descendente, talvez na sexta ou sétima geração, do cão de guarda “lobo”, o seu primeiro cão, e de um pequeno pau, ao qual se amparava e, ajudava a dar uns passos sózinha. O tronco da árvore e ela, juntos, deviam de andar próximo das duas centenas de anos, pois ela, a Avó Agar, não se lembrava da idade, mas dizia: “havia guerra, entre o norte e sul, houve um grande combate aqui, no Vale do Ninho D’Águia, os soldados, alguns feridos, com muita fome, vinham aqui a casa roubar comida e, diziam nessa altura que aqueles soldados, que aqui combatiam, traziam doenças, tal como o “tifo”, a “difteria” ou a “tuberculose”, que não perdoavam, pois matavam mesmo e, pensando que eu também ia morrer, a minha mãe levou-me à frente do padre, para me baptizar, eu já era uma menina”!. (the trunk of a tree, it was the place where he sat, she was always in the company of his friendly dog, who was a descendant, perhaps in the sixth or seventh generation, of the “wolf” guard dog, his first dog, and a small stick, and helped she to take a few steps alone! The tree trunk and she, together, must have been close to two hundred years, for she, Grandmother Agar, did not remember her age, but said: “There was war between north and south, there was a great fight here, in Vale do Ninho D’Águia, soldiers, some wounded, very hungry, came here to steal food and they said at the time that those soldiers, who were fighting here, brought diseases, such as “typhus”, “diphtheria” or “tuberculosis”, which they did not forgive because they killed and even thinking that I too was going to die, my mother took me to the front of the priest, to baptize me, I was already a girl”)!.

…estas eram as palavras da Avó Agar, que trazia nos pés umas chinelas, que tinham sido sapatos no Brazil. Andava embrulhada num xaile preto, com um lenço da mesma cor, amarrado na cabeça, que lhe cobria o seu cabelo já quase branco, também trazia uma cinta, bem amarrada, que a fazia segurar-se a si mesma, a saia grossa, de burel também preto, sobre a qual pendia uma pequena bolsa, bordada com um desenho imitando um coração, que sempre continha um “cruzado”, para dar ao seu neto António, para comprar alguma “guloseima” na loja da “Ti  Glória”, essa saia, que era comprida até aos seus pés,  cobria-lhe as pernas, dando-lhe algum conforto!. (these were the words of Grandmother Agar, who had on her feet slippers, which had been shoes in Brazil. She was wrapped in a black shawl, with a handkerchief of the same color, tied to her head, which covered her almost white hair, and she wore a strap, tightly tied, that made her hold herself, the thick skirt of black burel, on which hung a small bag, embroidered with a design imitating a heart, which always contained a “crusader”, to give his grandson Antonio, to buy some “delicacy” in the store of “Ti Gloria”, that skirt, which was long up to her feet, covered her legs, giving her some comfort)!.

…sentada, agarrada ao pau, a cabeça, um pouco caída para a frente, parecia que estava dormindo, mas despertava com as palavras do neto António, que correndo, lhe dizia: “Bom dia, hó Avó”!. Ela, ficava pensando, “fui eu que assisti a minha filha Ilda, quando este garoto nasceu, era uma manhã de Setembro, já quase no final das colheitas, andávamos na vindima das uvas”!. (seated, clinging to the stick, her head a little fallen forward, she seemed to be asleep, but she woke up at the words of her grandson Antonio, who ran to him and said, “Good morning, Grandmother!” She kept thinking: “It was I who watched my daughter Ilda, when this boy was born, it was a September morning, almost at the end of the harvests, we were in the grape harvest)!.

…algumas dezenas de anos antes, quando a Avó Agar, se estava a tornar numa rapariga bonita, sempre que vinha à vila, na companhia do “lobo”, o seu fiel cão de guarda, não lhe faltavam rapazes a rondar-lhe as saias, mas não se aproximavam dela, com receio do cão, mas se algum era mais atrevido, lhe dirigia um piropo, ela, olhando pelo canto dos seus lindos olhos castanhos, respondia: “Vai trabalhar rapaz, pois se trabalhasses como eu, não tinhas vontade de dizer essas parvoíces”!. E seguia em frente, descalça, desembaraçada, caminhando com alguma graça, movendo o seu jovem corpo com a beleza de uma camponesa bonita, que estava a ser desejada pelos rapazes da sua idade!. (a few dozen years before, when Grandma Agar was becoming a pretty girl, whenever she came to the village with the “wolf,” her faithful guard dog, she was not lacking in boys skirting her skirts, but they did not approach her, for fear of the dog, but if someone more daring, he would send her a compliment, she, looking at the corner of his beautiful brown eyes, answered: “will work boy, because if you worked like me, you did not want to say such silly things! ” And she went on, barefoot, unkempt, walking with some grace, moving her young body with the beauty of a beautiful peasant, who was being desired by the boys her age)!.

…em casa diziam-lhe: “hó Agar, mais cedo ou mais tarde, tens que arranjar homem, pois mulher não se põe ao fumeiro para se guardar, chega a altura e, tem que ser usada, senão já ninguém a quer”!. E ela respondia: “Homem para mim, tem que ser que eu goste a valer, de contrário, vou ficar solteira!. E mais, não me importo que seja casado, velho, novo ou viúvo, logo que eu goste dele, tudo está bem comigo”!. (at home they said to her, “Agar, sooner or later, you have to find a man, for a woman does not go to the firehouse to guard herself, the time comes, and it has to be used, if no one wants it!”. She would say,  “Man for me, it has to be that I like it, otherwise I’m going to be single! And besides, I do not care if I’m married, old, new or widower, as soon as I like him, I’m fine with me”)!.

…era assim, a Avó Agar, orgulhosa e frontal, nas suas palavras, talvez por tal, a Avó Agar, ainda jovem, já era mãe solteira de quatro filhos. Esteve apaixonada, quatro vezes e, o resultado dessas paixões, foram quatro filhos, que teve que criar sózinha. Um morreu com a doença do “tifo”, os outros sobreviveram!. As palavras de amor e carinho que sabia dizer, o carácter, o orgulho e a dignidade, que mostrava ter, marcaram-nos para toda a vida!. Alguns anos depois, já com quatro filhos, teve algumas propostas de casamento, mas o seu coração não deixava. Às vezes, chamava-nos a nós, seu neto António para junto de si e, dizia com os olhos fixos em qualquer ponto, que ninguém sabia onde era: “meu querido netinho, alguns dos homens que conheci, traíram-me, foram cobardes, não assumiram as suas responsabilidades. Nunca procedas dessa maneira, tens que ter carácter, orgulho e dignidade, assumindo sempre os teus compromissos, por favor, anda de cara levantada e, olha as pessoas nos olhos”!. (Grandmother Agar, proud and frontal in her words, perhaps because of this, Grandma Agar, still young, was already a single mother of four children, who had to raise her own. One died of “typhus” disease, the others survived !. The words of love and affection that he knew how to say, the character, the pride and the dignity, which he showed, have marked them for life!. Some years later, already with four children, had some proposals of marriage, but his heart did not leave. Sometimes he would call us, his grandson Antonio, next to him and, with his eyes fixed at any point, no one knew where it was: “my dear little grandson, some men I met, they betrayed me, they were cowards, do not assume your responsibilities. Never do it in this way, you have to have character, pride and dignity, always taking your commitments, please walk with your face up and look people in the eyes”)!.

…era uma pessoa com coragem, sabia fazer de tudo um pouco, explicava e ajudava em todas as lides da lavoura, enquanto se pode movimentar!. A Avó Agar, era maravilhosa,  gentil e forte, sempre se importava com os outros, em especial com os seus netos. Fazia-nos acreditar, explicando passagens da sua difícil vida,  sendo sempre uma fonte de orientação, ouvindo,  perguntando,  confortando,  enfim,  era fantástica,  era um calmante,  era uma fonte de segurança,  em cada ou qualquer tarefa, que nós jovens, naquele tempo de dificuldades,  estivésse-mos envolvidos!. (was a person with courage, knew how to do everything a little, explained and helped in all the fields, while you could move!. Grandma Agar, was wonderful, kind and strong, always cared for others, especially her grandchildren. It made us believe, explaining passages from his difficult life, always being a source of guidance, listening, asking, comforting, it was fantastic, it was a soothing, it was a source of security, in every task, in that time of difficulties, we were involved)!.

…pariu os seus quatro filhos sózinha, sem a ajuda de ninguém!. Quando sentia as dores e, via que era o momento certo do nascimento, ia para a sua cama, agarrando-se às barras de pau preto, de que era feita a cama, que tinham vindo do Brazil, como ela sempre nos dizia, sofria, juntando a agonia das dores, à alegria que sentia, com o nascimento de mais uma criança!. Em seguida, como mulher desembaraçada, por vezes arrastando-se, fazia todos os cuidados necessários, tanto a ela, como à criança!. (he gave birth to his four children alone, without the help of anyone! When she felt the pains, and saw that it was the right moment of birth, she went to her bed, clutching at the bars of black wood, from which the bed was made, which had come from Brazil, as she always told us, he suffered, joining the agony of pain, to the joy he felt, with the birth of yet another child!. Then, as a selfless woman, sometimes dragging herself, she did all the necessary care, both to her and to the child)!.

…era a “parteira”, da sua aldeia, no Vale do Ninho d’Aguia. Sabia medicinas caseiras que curavam as enxaquecas, que eram frequentes no inverno. Apareciam lá por casa,  mulheres de diferentes aldeias, que a vinham consultar, pois os seus filhos não “pegavam na mama”. Ela, a Avó Agar, depois de recitar diferentes rezas, a criança, agarrava-se ao peito da mãe e não parava de mamar!. Um dia, na nossa presença, um “rachador”, (homem que com um machado, cortava lenha na montanha), espetou uma farpa de madeira numa perna, que a atravessou de um lado ao outro. O homem apareceu junto da Avó Agar, gritando aflito com dores. Ela, com a maior calma do mundo, fez uma fogueira no chão, aproximou o homem do calor do lume, com um pano molhado e com algumas rezas, a farpa de madeira, aos poucos vai saindo e, no espaço de umas horas, o homem, com a perna limpa e um farrapo amarrado, continuou o seu trabalho!. (was the “midwife” of her village, in the Vale do Ninho D’Águia. He knew home-made medicines that cured migraines, which were common in winter. They showed up at the house, women from different villages, who came to consult her, because her children did not “get on the breast”! She, Grandma Agar, after reciting different prayers, the child, clung to the breast of the mother and did not stop breastfeeding!. One day, in our presence, a “splinter,” (a man with an ax chopping wood on the mountain), stuck a wooden splinter into a leg, which crossed it from side to side. The man appeared with Grandmother Agar, screaming in pain. Grandmother Agar, with the greatest calm of the world, made a bonfire on the floor, approached the man from the heat of the fire, with a wet cloth and with some prayers, the wooden splinter, gradually it leaves and, in the space of a few hours, the man, with his leg clean and a ragged tied, continued his work)!.

…a Avó Agar, morreu apaixonada, dizendo que não valia a pena viver mais, pois o seu último amor, há muito falecido, esperava-a de braços abertos, lá no outro mundo!. (Grandmother Agar, died in love, saying that it was not worth living any longer, because her last love, long dead, awaited her with open arms, in the other world)!

…hoje, já lá vão muitas décadas, eu, o teu neto António, lembro-me de ti, Avó Agar, onde quer que te encontres, continuo a adorar-te,  ganhei o teu respeito,  pessoa como tu, Avó Agar,  será muito difícil de encontrar,  eras especial, obrigado pelo teu calor, pelo teu conforto, e por, quando criança, me deixares chorar nos teus braços, nos momentos que eu mais precisava!. (today, many decades have gone by, I, your grandson Antonio, I remember you, Grandma Agar, wherever you may be, I continue to adore you, I have gained your respect, a person like you, Grandma Agar, it will be very hard to find, you were special, thank you for your warmth, for your comfort, and for, as a child, you let me cry in your arms, in the moments that I most needed)!.

…já no século vinte, com uma nova urbanização no Vale do Ninho d’Aguia, em sua homenagem, deram o seu nome à aldeia onde nasceu!. (already in the twentieth century, with a new urbanization in the Vale do Ninho D’Águia, in his honor, gave his name to the village where he was born)!.

Tony Borie, October 2017.