…the “Pen”!

…o “Caneta”!. (the “Pen”)!.

…com a idade, deixámos de fazer alguns disparates, finalmente temos a cabeça no lugar, agora o corpo, esse está caindo aos bocados e, quando escolhemos o cereal, é por causa da fibra, não por causa do brinquedo, que costuma vir lá dentro!. (with age, we stop doing some nonsense, finally we have the head in place, now the body, this is falling to bits, and when we choose the cereal, it is because of the fiber, not because of the toy, which usually come inside)!.

…são pequenas verdades e, talvez derivado ao não estarmos muito ocupados, vamos lembrando com mais frequência as pessoas que nos marcaram durante a vida de jovem, principalmente os companheiros da nossa vivência em África, no tal miserável cenário de guerra e, hoje vamos contar a história, lembrando a pessoa bondosa do companheiro “Caneta”, cá vai!. (are small truths and, perhaps derived from not being too busy, we are remembering more often the people who marked us during the life of a young person, especially the companions of our experience in Africa, in such miserable war scenario and today let’s tell the story, remembering the kind person of the companion “Pen”, here it goes)!.

…o carro da “Psico-Social”, foi um invento do comando a que pertencíamos, era uma viatura da marca Unimog, coberto com uma cobertura de pano oleado, tanto na cabine como na zona de carga, tinha instalado uma aparelhagem sonora, com quatro altifalantes colocados no topo da viatura, tipo funil, tal como se usava nos arraiais das festas e romarias, nas aldeias e vilas de Portugal!. (the “Social-Psycho” car was an invention of the command to which we belonged, it was a Unimog brand vehicle, covered with an oiled cloth covering both in the cabin and in the cargo area, had installed a sound system , with four loudspeakers placed on the top of the vehicle, funnel type, as used in the festivals and pilgrimages, in the villages and towns of Portugal)!.

…a sua missão era percorrer algumas aldeias nas redondezas do aquartelamento e não só, distribuindo panfletos, alguns com a fotografia de um militar com uma arma à tiracolo, com uma criança africana ao colo, dizendo num português acrioulado, que os militares estavam ali para proteger, ajudar, ensinar, curar feridas, dar medicamentos, enfim, fazer tudo o que o Criador ainda não tivesse oportunidade de ter feito!. Esses panfletos, também deviam de dizer, mas não diziam que, estávamos lá, para proteger a “Companhia Ultramarina”, que nós, não sabíamos com que capitais, mas também não queremos ir ao ponto de a associar à, “Royal African Company” muitos anos atrás, longe de nós semelhante comparação, mas na verdade era a “Companhia Ultramarina”, quem controlava toda a vida comercial da então província da Guiné Portuguesa, pois todos os armazéns, barcos de transporte e cais de embarque, nas principais vilas ou lugares importantes, negociava e transportava quase todos os produtos que saíam da então província da Guiné Portuguesa!. (his mission was to visit some villages in the vicinity of the barracks, not only distributing pamphlets, some with the photograph of a soldier with a gun in his arms, with an African child in his lap, saying in an acriled Portuguese that the military were there to protect, to help, to teach, to heal wounds, to give medicines, in short, to do everything that the Creator had not yet had opportunity to have done!. These pamphlets should also say, but they did not say that, we were there to protect the “Overseas Company”, that we did not know with what capital, but we do not want to go so far as to associate it with the “Royal African Company” many years ago, far from us a similar comparison, but in fact it was the “Overseas Company”, who controlled the entire commercial life of the then province of Portuguese Guinean, since all the warehouses, shipping boats and embarkation docks in the main towns or important places, negotiated and carried almost all the products that left the then province of Portuguese Guinean)!.

…continuando, algumas vezes o “Pastilhas”, o tal companheiro cabo enfermeiro, que fazia de doutor, ia nesta viatura da “Psico-Social”, com uma mala à tiracolo, com uma cruz vermelha desenhada na frente, onde levava, entre outras coisas, comprimidos, álcool medicinal, tintura e ligaduras, e desinfectava com álcool, depois pincelava com mercúrio cromo, deitando em seguida um pó branco, envolvendo com ligaduras, algumas feridas nas pernas e nos pés, que alguns africanos, já com idade avançada, tinham principalmente dos joelhos para baixo, dizendo mais ou menos isto:

– Mézinho do sinhô dotô, faz manga di bom!.

…era só o que o “Pastilhas” sabia dizer, em português acrioulado!.

(continuing, sometimes the “Pastilhas”, the companion corporal nurse, who was a doctor, went in this vehicle of “Social-Psycho”, with a suitcase in tow, with a red cross drawn in front, which led, among other things, tablets, medicinal alcohol, dye and bandages, and disinfected with alcohol after pinned with mercury chrome, laying then a white powder, wrapping with bandages, some wounds in the legs and feet, some African, late in life, especially had the knees down, saying more or like this:

– Mézinho of suh Doto makes manga di good!.

Was just what the “Pastilhas” could say, in Portuguese Creole!.

…quase todos sabiam, que após a viatura abandonar o local, as ligaduras eram removidas, para os mais novos enrolarem e fazerem uma pequena bola de futebol, sendo as feridas lavadas com água, às vezes suja, e as moscas e outros insectos iriam poisar de novo nelas!. (Almost everyone knew that after the vehicle leaving the scene, the bandages were removed, to the newest curl and make a small soccer ball, and the wounds washed with water, sometimes dirty, and the flies and other insects would poisar of new in them)!.

…a aparelhagem sonora era utilizada por um africano em quem os militares confiavam, que falava em crioulo, ou outro dialecto, dizendo o que só ele entendia, pois os militares não percebiam!. (The stereo system was used by an African whom trusted the military, speaking in Creole or another dialect, saying that only he understood, because the military did not understand)!.

…agora sim, vamos começar a história de sofrimento, do bom companheiro “Caneta”!. A viatura da “Psico-Social”, depois de fazer a sua viagem, quase diária, ficava estacionada, dentro do aquartelamento, perto do local onde nós, a quem nos chamavam “Cifra” dormíamos e, era aí que o “Caneta”, pegando no colchão, no travesseiro e no rádio portátil, ia dormir, quando os ataques de tosse contínua o apoquentavam, e ele não queria acordar ou molestar, com os ruídos da sua tosse, os seus companheiros!. (Now, let’s start the story of suffering, the good companion “Pen”!. The vehicle of the “Social-Psycho”, after traveling almost daily, was parked inside the barracks, near the place where we, who were called “Cipher”, slept, and that was where the “Pen” picking up the mattress, the pillow, and the portable radio, went to sleep, when the attacks of continuous coughing made him sick, and he did not want to disturb his companions with the noise of his cough)!

…o “Caneta” era um cabo escriturário, de estatura média, cara de criança, pois quase não tinha barba, com uma madeixa de cabelo preto, caída para a frente, que lhe cobria os olhos e parte do nariz, que ele arredava para os lados com a mão, segurando sempre um lápis ou uma caneta, de onde, talvez daí lhe viesse o nome. Era ele quem fazia as “ordens do dia”. Fazia cinco cópias, que distribuía por diversas repartições do aquartelamento e arquivava o original, às vezes fazia mais uma cópia, quando algum militar era louvado ou qualquer outra coisa digna de registo e, entregava por mão própria a esse militar. Também escrevia, e lia, os aerogramas e as cartas a alguns militares menos habilitados para o fazerem, portando sabia coisas privadas, desses militares, que confiavam nele e gostavam da maneira com ele escrevia, porque começava sempre os seus escritos com uma letra maiúscula cheia de floreados, pois tinha alguma habilidade para o desenho e, às vezes fazia o rosto de alguns, mais populares, como era o caso do “Curvas, alto e refilão”, com uma arma na mão!. (The “Pen” was a corporal clerk, of medium height, man child, because he had almost no beard, with a black hair strand, tumbling forward, covering his eyes and part of the nose, he left sideways with hand, always holding a pencil or pen, where perhaps there would his name. It was he who made the “agendas”. He made five copies, which distributed by various departments of the barracks and shelved the original, sometimes made another copy, when some military was praised or any other thing worthy of registration and delivered by hand to this soldier. Also wrote and read the letter cards and letters to some less qualified military to do so, bearing knew private things, those soldiers who trusted him and liked the way he wrote, because he always began his writing with a capital full letter flowery, for he had some skill for drawing, and sometimes did the face of some-more popular, as was the case of “Curvas, high and complicative” with a gun)!.

…o “Caneta” não comia quase nada, quando a comida vinha para a mesa, ele procurava uns bocaditos de qualquer coisa, que colocava na boca, mastigava e raras vezes engolia, só gostava de pão, bebia muita água, por vezes quando lhe apertava a sede, bebia dos bidons de água, que estavam a arrefecer dos três furos que havia ao fundo do aquartelamento, de onde saía água quente, mesmo muito quente, a cheirar a enxofre ou coisa parecida, por vezes com pó e insectos mortos ao de cima, onde ele soprava a superfície, mergulhando a sua cara de criança, incluindo a madeixa de cabelo preto, bebendo por alguns segundos, levantando a cara e com alguma satisfação dizia:

– é suja, mas é boa!.

(The “Pen” did not eat almost anything, when the food came to the table, he sought a snacks anything, which placed in the mouth, chewed and rarely swallowed, just like bread, drank a lot of water, sometimes when pressed his thirst and drank the water cans, which were cooled from the three holes that had the quartering the bottom, where left hot water, even very hot, the smell of sulfur or the like, sometimes with dust and dead insects at the top, where he blew the surface, plunging your child’s face, including black hair bundle, drinking for a few seconds, lifting the face and with some satisfaction saying:

– It’s dirty, but it’s good)!.

…mais ou menos aos treze meses de estadia na província, começou-lhe aquela tosse!. Primeiro era só um catarro, depois era mesmo tosse, ficava aflito quando alguém estava a fumar perto dele e a tosse quase o sufocava, os olhos ficavam vermelhos, colocando a mão na garganta em sinal de aflição!. Os colegas sabendo dessa situação, não fumavam junto dele. Foi ver o “Pastilhas”, o tal cabo enfermeiro, que o analisou, mandou-lhe abrir a boca, escutou-lhe o peito e logo lhe disse:

– Tens que ir amanhã, no carro dos doentes, a uma consulta ao hospital da província, estás a ficar muito “infezado”!.

(About thirteen months of stay in the province, began her that cough. First it was just a snot, then it was even cough, was distressed when someone was smoking next to him and coughing almost choked, his eyes were red, placing his hand on the throat distress signal!. Colleagues learned of this situation, not smoked with him. Went to see the “Pastilhas”, the one corporal nurse, which analyzed it, sent him open his mouth, listened to his chest, then I said to him:

– You have to go tomorrow, in the car of the patients, a query to the hospital province, you are getting too “infested”)!.

…lá foi à consulta, onde o doutor o analisou, lhe mandou tirar algumas radiografias e o mandou embora de regresso à unidade militar e, que fosse de novo à consulta na semana seguinte, para mais detalhes!. Vai à consulta na semana seguinte e muitas outras. Anda com uns comprimidos e com um frasquito de xarope no bolso, de onde toma uns goles, sempre que é atacado pela tosse contínua!. A tosse agora, prolonga-se por minutos, fica com cor vermelha no rosto, os olhos chorosos e, passado uns minutos de tosse, na sua boca, aparece alguma saliva com uma cor vermelha, que limpa a um farrapo, restos de uma camisa do “Cifra”, pois o “Caneta” já tinha gasto todos os farrapos da sua farda!. (There was consultation where the doctor examined him sent to take some X-rays and sent him away back to the military unit, and it was back to the consultation next week for more details!. Go to consultation next week and many others. Walks with some pills and a small bottle syrup in his pocket, from which takes a few sips, whenever it is attacked by continuous coughing!. Coughing now goes on for minutes, gets red in the face, the tearful eyes, and after a few minutes of coughing in your mouth, appears some saliva with a red, wiping a rag, remains of a shirt the “Cipher”, because the “Pen” had already spent all the tatters of his uniform)!.

…a próxima sexta-feira vai de novo ao hospital da capital da província, no carro dos doentes, vê um novo doutor, pois o antigo tinha ido para Portugal, faz novas radiografias e regressa à unidade militar, dizendo no dormitório, para quem o quisesse ouvir:

– Não comam nem bebam por objectos que eu tenha tocado, pois estou tuberculoso!.

…todos os presentes ficaram tristes e admirados com a informação, guardando silêncio, excepto o “Curvas, alto e refilão”, que num ataque de fúria diz:

– Filhos da puta, são todos uns filhos da puta!

…a guerra para o Caneta acabou!.

(Next Friday will again to the hospital in the provincial capital, in the car of the sick, see a new doctor, as the former had gone to Portugal, makes new X-rays and returned to the military unit, saying the dormitory, for whom wanted hear:

– Do not eat or drink for objects I have touched, for I am suffering from tuberculosis!.

All present were saddened and amazed with the information, keeping silent, except “Curvas, high and complicative”, that a jealous rage says:

– motherfuckers, they’re all motherfuckers!.

The war for the “Pen” over)!.

…começou outra guerra, agora não combatia guerrilheiros, combatia uma doença que naquela época era quase mortal. Recolhe todos os seus haveres, que coloca no saco do exército e numa malita, incluindo o seu rádio portátil, onde ouvia entre outras coisas, o relato de futebol do seu clube em Portugal. Na semana seguinte vem para a “metrópole”, como então se dizia, para um sanatório numa montanha, no centro de Portugal. (He started another war, not now fighting guerrillas fighting a disease which at that time was almost deadly. Collect all its assets, laying on the army bag and another little bag, including his portable radio, which heard among other things, the football account of his club in Portugal. The following week come to the “Metropolis”, as it was then called, to a sanatorium on a mountain in central Portugal)!.

…nós, o “Cifra”, não mais tivémos notícias do “Caneta”, mas nunca o esquecemos e, quando regressámos a Portugal, como a nossa aldeia ficava não muito distante dessa montanha, fomos um dia de bicicleta, a essa região de hospitais sanatórios, para tentar encontrar o “Caneta”!. Encontrámos um velho, com cara de criança!. Magro, muito magro, o cabelo raro e cinzento, uns olhos iguais, com algum brilho, as orelhas finas e saídas, trazia vestido uma bata branca que lhe cobria o corpo até aos pés, estava sentado na borda da cama, com um lápis na mão direita e um bloco de papel branco na mão esquerda, tentando desenhar a cara de um militar com uma arma na mão, cercado de arame farpado, talvez lembrando o seu antigo aquartelamento, na província de onde foi evacuado, já doente. (we, the “Cifra”, no longer had news of the “Pen”, but we never forgot it, and when we returned to Portugal, as our village was not too far from this mountain, we went for a day of cycling to this region of sanatorium hospitals, to try to find the “Pen”!. We found an old man, with a child’s face!. Thin, very thin, the rare and gray hair, a same eyes, with some luster, the fine and outputs ears, was wearing a white robe that covered his body to the feet, was sitting on the edge of the bed, with a pencil in right hand and a white pad of paper in his left hand, trying to draw the face of a military with a gun in hand, surrounded by barbed wire, perhaps remembering his old barracks in the province where it was evacuated, already sick)!.

…o rádio portátil, estava lá!.

..assim que nos viu, levanta a cara, larga o bloco de papel, que caiu no chão, fica com o lápis na mão direita, levanta-se com algum custo da cama, dá uns passos para nós, dizendo:

– só podias ser tu, mais ninguém!. Ainda nenhum militar do nosso comando me veio ver!.

…e abraça-nos, chorando, com alguns soluços, tentando conter-se. Dava a impressão que lhe custava chorar!.

…conversámos, fez algumas perguntas a custo, pois não dizia duas palavras seguidas, sem abrir a boca e tentar pôr algum ar dentro de si, tinha mesmo muita dificuldade em falar, nós respondemos a tudo o que nos lembrávamos, incluindo o regresso, mas o “Caneta” sempre nos perguntava:

– Mas… morreu mais alguém?

…e por fim diz, com bastante dificuldade:

– olha, se não tens receio de comer a comida tocada por um tuberculoso, aceita estes figos, que a minha mãe que ontem esteve aqui, me deixou!.

(The portable radio, was there!.

So he saw us, raises the face, large paper block, which fell to the ground, gets the pencil in his right hand, gets up at some cost of the bed, takes a few steps for us, saying:

– Only you could be you, nobody else. Still no military of our command came to see me!.

And hugs us, crying, with a few hiccups, trying to hold back. It seemed that cost him cry!.

We talked, asked a few questions at a cost, not to say two words in a row, without opening his mouth and trying to put some air inside him, he was very difficult to speak, we responded to everything we remembered, including the return, but the “Pen” always asked us:

– But … died anyone else?.

And finally say, with some difficulty:

– Look if you have not afraid to eat the food touched by a consumptive, accept these figs, that my mother was here yesterday, left me)!.

…o sabor dos figos da mãe do “Caneta”, são a última recordação que guardamos do companheiro daquela frente de guerra, que foi o “Caneta”, pois passado algum tempo, fomos de novo para o visitar, mas já lá não se encontrava, informaram-nos que mesmo débil, foi embora, queria regressar à sua aldeia, porque queria morrer na sua aldeia, junto da sua família!. Nunca mais soubemos nada do “Caneta”, que era oriundo de uma aldeia próximo da cidade da Guarda, junto à fronteira com a Espanha, para onde naquela altura mandámos duas cartas, uma pelo Natal e outra pela Páscoa, nunca obtendo resposta!. (the taste of the figs of the mother of the “Pen”, are the last remembrance that we had of the companion of that front of war, that was the “Pen”, since after some time, we went again to visit, but already there was not, informed us that even weak, he left, wanted to return to his village, because he wanted to die in his village, next to his family!. We never knew anything about the “Pen,” which came from a village near Guarda, near the border with Spain, where at that time we sent two letters, one for Christmas and one for Easter, never getting an answer)!.

Tony Borie, January 2018.

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