…Lusotropicalism!.

…lusotropicalismo!. (Lusotropicalism)!.

…a história universal hoje explica-nos que, por volta da década de 1950, um número crescente de movimentos anti-coloniais africanos pedia a independência total dos territórios africanos ultramarinos do então governo colonialista de Portugal!. Alguns, com o apoio de outras nações, queriam a autodeterminação nacional, enquanto outros queriam uma nova forma de governo baseada em princípios marxistas!. (Universal history today explains to us that by the 1950s, an increasing number of anti-colonial African movements called for full independence from the overseas African territories of Portugal’s then colonial government!. Some, with the support of other nations, wanted national self-determination, while others wanted a new form of government based on Marxist principles)!.

…os líderes do então governo colonial de Portugal, tentavam afastar os apelos à independência defendendo uma política de assimilação, multirracialismo e missão civilizadora, ou lusotropicalismo, como forma de integrar as então colónias portuguesas e os seus povos, mais estreitamente com o próprio governo, àquela data colonialista, pois para o então regime governante português, o império ultramarino era uma questão de interesse nacional, a ser preservada a todo custo!. (The leaders of Portugal’s then colonial government tried to fend off calls for independence by defending a policy of assimilation, multi-racialism and civilizing mission, or lusotropicalism, as a way of integrating the then Portuguese colonies and their peoples, more closely with their own government, to that colonialist date, because for the then Portuguese ruling regime, the overseas empire was a matter of national interest, to be preserved at all costs)!.

…chegaram mesmo ao ponto de, já por volta do ano de 1919, um delegado português na Conferência Internacional do Trabalho em Genebra declarar que, “A assimilação das assim chamadas raças inferiores, através do cruzamento, por meio da religião cristã, pela mistura dos elementos mais amplamente divergentes como a liberdade de acesso aos mais altos cargos do Estado”, dizendo mesmo que, lá na Europa, onde Portugal continental estava situado, que eram estes os princípios que sempre guiaram a colonização portuguesa na Ásia, na África, no Pacífico e, anteriormente, na América do Sul!. (Came to the point that by the year 1919 a Portuguese delegate to the International Labor Conference in Geneva stated that “The assimilation of the so-called inferior races, through the crossing, through the Christian religion, through the a mixture of the most widely divergent elements, such as freedom of access to the highest positions of the State”, even saying that, in Europe, where continental Portugal was situated, these were the principles that always guided Portuguese colonization in Asia, in the Pacific and, previously, in South America)!.

…claro que tudo isto era propaganda, pois na verdade, nós, mais tarde estivemos lá, vivemos durante dois anos o conflito armado da guerra de libertação, que opunha o governo colonialista Português de então, aos diversos grupos organizados e armados, que lutavam pela liberdade e independência dos seus territórios, falámos e convivemos com locais, nativos de aldeias rurais que, por uma razão ou por outra se tornaram nossos companheiros, vimos, presenciámos e, pelo menos no território da então Guiné Portuguesa, havia segregação, onde a mistura de raças não existia, havendo critérios restritos de qualificação que afinal, a mesma história nos acabou por confirmar!. (Of course all of this was propaganda, for in fact we were there later, for two years we lived the armed conflict of the liberation war, opposed by the Portuguese colonialist government of that time, to the various organized and armed groups that they fought for the freedom and independence of their territories, we talked and lived with local people, natives of rural villages who, for one reason or another, became our companions, we saw, we witnessed, and at least in the territory of then Portuguese Guinean there was segregation, where the mixture of races did not exist, and there are strict qualification criteria that, after all, the same story has confirmed us)!.

…havia uma percentagem muito pequena, talvez menos de um por cento para que as pessoas negras se tornassem naquela época, cidadãos portugueses completos e, o exército colonial português foi amplamente segregado em termos de raça e etnicidade, pelo menos até aos anos da nossa estadia, onde havia originalmente três classes de soldados no serviço ultramarino português, que eram os soldados comissionados (brancos), soldados estrangeiros (africanos assimilados) e africanos nativos ou indígenas (indigenato), onde, como anteriormente dissemos, por volta dos anos da nossa estadia, essas categorias foram renomeadas para 1ª, 2ª e 3ª classes!. (There was a very small percentage, perhaps less than one per cent for black people to become at that time, complete Portuguese citizens, and the Portuguese colonial army was largely segregated in terms of race and ethnicity, at least until the (soldiers), foreign soldiers (assimilated Africans), and native or indigenous Africans (indigenato), where, as we said earlier, around the years of our stay, these categories were renamed to 1st, 2nd and 3rd class)!.

…o acesso à educação básica, secundária e técnica permaneceu muito fraco, não só até à data da nossa estadia, como se prolongou, onde alguns africanos puderam frequentar escolas localmente ou, em alguns casos, em Portugal continental, tendo isto resultado na sua educação superior, e claro, um conhecimento mais profundo do regime colonial de segregação que então se vivia que, proporcionou o avanço de certas pessoas de cor negra, então considerados portugueses, como por exemplo, Samora Machel, Marcelino dos Santos, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Jonas Savimbi, Joaquim Chissano ou Graça Machel entre outros que, revoltados com a presente situação, se tornariam personagens proeminentes, começando uma guerra de libertação e as suas consequências, onde mais tarde foram considerados lideres africanos e heróis nacionais na Guerra de Libertação das Colónias Portuguesas!. (Access to basic, secondary and technical education remained very weak, not only up to the date of our stay, but also prolonged, where some Africans were able to attend schools locally or, in some cases, in mainland Portugal, his superior education, and of course, a deeper knowledge of the colonial regime of segregation then lived, which provided the advancement of certain black people then considered Portuguese, such as Samora Machel, Marcelino dos Santos, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Jonas Savimbi, Joaquim Chissano or Graça Machel among others who, in revolt with the present situation, would become prominent characters, beginning a war of liberation and its consequences, where later they were considered African leaders and national heroes in the War of Liberation of the Colonies Portuguese)!.

…assim, nós ainda jovens, quase crianças, oriundos da Europa, com uma educação de aldeia, onde os princípios honestos de família vinham de há séculos, fomos arrancados do cenário da nossa aldeia na encosta agreste da montanha do Caramulo, mobilizados, treinados à pressa e enviados no porão de um navio de carga, navegando para sul no oceano Atlântico até à costa do continente africano, para combater pessoas que nunca antes tínhamos visto e nada tínhamos em contra, fazendo parte do contingente europeu que lutava na então Guerra Colonial Portuguesa!. (So we, still young people, almost children, from Europe, with a village education, where the honest principles of family came from centuries ago, we were uprooted from the setting of our village on the rugged hillside of Caramulo mountain, mobilized, trained in a hurry and sent in the hold of a cargo ship, sailing south in the Atlantic Ocean to the coast of the African continent, to fight against people we had never seen before and had nothing against, being part of the European contingent fighting in the then Portuguese Colonial War)!.

…fomos viver um cenário onde não se explicavam as injustiças, os actos de profunda repugnância e violência, onde resultavam, combates, mêdo, fúria e muitas mortes, onde a angústia, o desespero e o medo, nos colocava numa situação horrível, onde entre outras coisas o álcool, nos aliviava a mente, pelo menos por momentos, pois este cenário estava lá, estava sempre presente, era a cara da guerra, com feridos e mortos em combate para ambos os lados, incluindo a população civil desarmada!. (We went to live in a scenario where injustices, acts of deep repugnance and violence, where fighting, fear, fury and many deaths resulted, where anguish, despair and fear, caused us a horrible situation, where, among other things, alcohol alleviated our minds, at least for a moment, because this scenario was there, it was always present, it was the face of war, with wounded and dead in combat on both sides, including the unarmed civilian population)!.

…era o rosto da guerra, numa África de então, onde numa terra com um chão fértil, era um território onde os famintos, os doentes, os analfabetos e a miséria eram constantes e, infelizmente continuaram, mesmo depois, quando parecia que já havia paz, fazendo-nos lembrar que defacto nós europeus, saímos de África físicamente, mas possívelmente não trouxémos as armas, as bombas e as balas, deixando lá apenas, como seria nossa inteira obrigação, todas as maravilhosas armas da paz do século XX!. (Was the face of war, in an Africa of that time, where in a land with a fertile ground, it was a territory where the hungry, the sick, the illiterate and the misery were constant and, unfortunately, continued, even later, when it seemed there was already peace, reminding us that we Europeans, we left Africa physically, but possibly we did not bring guns, bombs and bullets, leaving there only, as would be our obligation, all the wonderful weapons of peace of the twentieth century)!.

…quando uns anos depois regressámos à nossa aldeia, lá na encosta agreste da montanha do Caramulo, com pouca ou nenhuma vontade em acreditar na palavra “esperança”, como veteranos de combate, passando por algumas experiências de vida mais traumáticas que se possam imaginar, a família que nos recebeu, sabia, notava imediatamente, que alguma coisa estava mal connosco, pela nossa linguagem, maneira de se comportar, que estávamos diferentes, talvez um pouco loucos e algo agressivos!. (When a few years later we returned to our village, on the rugged hillside of the Caramulo mountain, with little or no desire to believe in the word “hope”, as veterans of combat, experiencing some more traumatic life experiences imaginable, the family that received us, knew, noticed immediately, that something was wrong with us, by our language, way of behaving, that we were different, maybe a little crazy and something aggressive)!.

…a maldição de um veterano de guerra, é que nunca esquece!. Ainda hoje, mais de cinquenta anos depois, o corpo e a mente de um veterano de guerra, reage automáticamente aos disparos da memória, sentindo de novo, em certos momentos, as feridas, o medo e o horror que por si passaram, enquanto presente num cenário de combate!. Contudo, já o dissémos em algumas vezes, o mêdo ou talvez coragem, que nos ajudou a sobreviver num campo de batalha, não funciona muito bem agora, nesta avançada idade, mas ainda vai sendo possível assumir o control dessa horrível vivência e, vamos continuando a expulsar alguma energia positiva que nos resta, daquela que nos foi roubada, pelo desastre da Guerra Colonial Portuguesa, em África!. (The curse of a war veteran, is that he never forgets!. Even today, more than fifty years later, the body and mind of a war veteran reacts automatically to the shots of the memory, feeling again, at certain times, the wounds, the fear and the horror that they passed as a present in a combat scenario!. However, we have said it sometimes, the fear or perhaps courage, that has helped us survive on a battlefield, does not work very well now, at this advanced age, but it is still possible to take control of this horrible experience and, to expel some of the positive energy we have left over from the one that was stolen from us by the disaster of the Portuguese Colonial War in Africa)!.

…servir a nação numa zona de guerra, é um preço muito elevado!. Na lotaria da vida pode-nos sair um bilhete premiado com a morte!. Com alguma sorte podemos sobreviver mas, o síndrome de guerra, leva-nos por todo o tempo do resto das nossas vidas, a uma pesada viajem no Coração das Trevas!. Não mais esquecemos a jornada de um soldado combatente numa mortífera guerra de guerrilha, de um país que nos USOU e nos ESQUECEU, desde a nossa mobilização na época de uma pré-guerra, passando pela miserável experiência no campo de batalha, até a um difícil retorno de pós-guerra, sempre nos IGNORANDO!. (Serving the nation in a war zone, is a very high price!. In the lottery of life can leave us a ticket rewarded with death!. With some luck we can survive, but the war syndrome takes us all the way through the rest of our lives, to a heavy trip in the Heart of Darkness!. We no longer forget the journey of a combatant soldier in a deadly guerrilla war, from a country that USED us and FORGOTTEN us, from our mobilization in the prewar period, through the miserable experience on the battlefield, to a difficult one post-war return, always IGNORING us)!.

…na nossa já um pouco avançada idade, um sorriso cria a felicidade em casa e traz descanso ao cansado, alegria para o desanimado, sol para o triste, sendo talvez um dos melhores antídotos da natureza para aqueles problemas, que principalmente as pessoas já sem muitas ocupações, recordam o seu passado, vivem das recordações e vivências de quando eram jovens, já cansadas demais para sorrirem, mas precisam de um sorriso para os estimularem e, ninguém é tão rico ou poderoso que se possa dar bem sem ele, assim como também ninguém é tão pobre, que não se sinta enriquecido por o receber!. (In our already somewhat advanced age, a smile creates happiness at home and brings rest to the tired, joy to the discouraged, sun to the sad, being perhaps one of nature’s best antidotes to those problems, especially people already without many occupations, remember their past, live from memories and experiences of when they were young, too tired to smile, but need a smile to stimulate them, and no one is so rich or powerful that you can do well without it, just as no one is so poor that he does not feel enriched by receiving it)!.

…os dirigentes políticos do Portugal de hoje, podiam pelo menos nos acenar, levantando a mão, dizendo-nos “Olá”, mesmo que fosse uma saudação talvez não verdadeira, era um pequeno sinal que reparavam em nós, “Veteranos de Guerra”, que ainda andamos por cá, claro, sendo cada vez menos, pois a idade não perdoa!. (The political leaders of Portugal today could at least waved us, raising their hands, saying “hello”, even if it was a greeting perhaps not true, it was a small sign they noticed us, “Veterans of War”, hat we still walk around, of course, being less and less, because age does not forgive)!.

Tony Borie, April 2019.

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