…fica nu Guiné… cá bai nu Portugal!.

…ficá nu Guiné… cá bai nu Portugal!.

…é impossível esquecer as nossas experiências na guerra e, aquilo que nos ajudou a sobreviver lá, agora, já lá vão quase seis dezenas de anos, não funciona muito bem na nossa normal vida, no entanto ainda vai sendo possível lidar com tudo isto positivamente, assumindo algum control do pensamento, exalando alguma energia positiva, pelo menos contando essas experiências!.

(…it is impossible to forget our experiences in the war and, what helped us to survive there, now, for almost six dozen years, does not work very well in our normal life, however it will still be possible to deal with everything this positively, assuming some control of the thought, exhaling some positive energy, at least telling these experiences)!.

…a guerra é um fenómeno caracterizado, pelo uso da violência letal entre dois lados opostos, envolvendo uma disputa sobre soberania, território, recursos, religião ou outras questões!. Normalmente é um estado de conflito armado e organizado entre dois actores, que podem ser estatais ou não estatais, envolvendo combatentes ou não combatentes, mas no fundo, no fundo, ambas as partes querem atingir as suas metas, às vezes miltares e através da força!. E claro, não podemos ignorar que durante o século 20, estima-se que entre 167 e 188 milhões de pessoas perderam a sua vida, como resultado dessa maldita palavra, designada como “guerra”!. 

(…war is a phenomenon characterized by the use of lethal violence between two opposing sides, involving a dispute over sovereignty, territory, resources, religion or other issues!. It is usually a state of armed and organized conflict between two actors, which can be state or non-state, involving combatants or non-combatants, but deep down, deep down, both parties want to achieve their goals, sometimes militants and through force!. And of course, we cannot ignore that during the 20th century, it is estimated that between 167 and 188 million people lost their lives as a result of that damn word, called “war”)!.

…na história de hoje, vamos tentar esquecer a parte dolorosa, do terror, mêdo e angústia, que vivemos no conflito armado no interior de África, naquela horrorosa guerra de guerrilha, na então Província Colonial da Guiné Portuguesa, onde às vezes parecia que nos estávamos movendo para trás, tentando descrever um normal dia, embora rodeados de equipamento bélico, no entanto, sem ataques dos guerrilheiros ao nosso “Posto Avançado” ou qualquer outro incidente e, livres das nossas tarefas!.

(…in today’s history, we will try to forget the painful part, the terror, fear and anguish, that we live in the armed conflict in the interior of Africa, in that horrible guerrilla war, in the then Colonial Province of Portuguese Guinea, where at times it seemed that we were moving backwards, trying to describe a normal day, although surrounded by military equipment, however, without guerrilla attacks on our “Outpost” or any other incident and, free from our tasks)!.

… já lá iam quase dois anos!. Quando ali chegámos, era uma aldeia chamada Mansôa, onde ajudámos a construir um aquartelamento militar, que poderíamos considerar um “Posto Avançado”, ou seja, um lugar onde os militares de combate, tomavam conhecimento das primeiras savanas, rios, riachos, bolanhas, (terras lamacentas de cultivo de arroz), pântanos e florestas de trilhas frescas, usadas pelos guerrilheiros que lutavam pela independência do seu território, querendo libertar-se da presença dos Europeus, que por ali andavam há quase quinhentos anos!.

(…it was almost two years ago!. When we got there, it was a village called Mansôa, where we helped build a military barracks, which we could consider an “Outpost”, that is, a place where the combat soldiers, took notice of the first savannas, rivers, streams, bolanhas, (muddy lands of rice cultivation), swamps and forests of fresh trails, used by the guerrillas who fought for the independence of their territory, wanting to free themselves from the presence of Europeans, who had been walking there for almost five hundred years)!.

…cá vai a história!. Ao começo da luz do dia, quando alguns companheiros do pelotão de morteiros, portanto, militares de combate, se preparavam para sair em patrulha, levantámo-nos, sacudindo a enxerga onde dormíamos, fechando imediatamente a rede mosquiteira para que aqueles malditos mosquitos não entrassem!. Depois de vestir o resto de uns calções já coçados, calçar nos pés umas tamancas, feitas de umas tábuas e uma tira de lona, que faziam de dobradiças de uma caixa de munições, colocámos ao ombro o farrapo branco e encardido, que fazia de toalha, que em novo, se chamava oficialmente toalha e era feito de pano crú!.

(…here’s the story!. At the beginning of daylight, when some members of the mortar squad, therefore, combat soldiers, were preparing to go out on patrol, we got up, shaking the bed where we slept, immediately closing the mosquito net so that those damned mosquitoes would not enter!. After putting on the rest of some already scratched shorts, putting on clogs on my feet, made of boards and a strip of canvas, which were hinges of a box of ammunition, we put on the shoulder the white and grimy rag, which was made of towel, which again was officially called a towel and was made of raw cloth)!.

…saímos da barraca ainda em construção, sem qualquer porta ou janela, que oficialmente se chamava dormitório, levando nas mãos uma barra de sabão “Life Boy”, comprada na aldeia, no estabelecimento do “Libanês”,  encaminhando-nos para um local, na parte mais sul do aquartelamento, onde tinham sido abertos três furos de água, que vinha quente, mesmo muito quente, a cheirar a enxofre ou coisa parecida, onde havia alguns bidons vazios, de gasolina, gasóleo ou mesmo óleo, que tinham sido lavados com areia, e estavam já cheios de água do dia anterior, já morna e, com a ajuda da já referida toalha encardida, tomávamos um “banho de passarinho”, ou seja, lavámo-nos nas partes mais sensíveis do corpo!.

(…we left the tent still under construction, without any door or window, which was officially called a dormitory, carrying in our hands a bar of soap “Life Boy”, bought in the village, in the establishment of “Lebanese”, heading for a place, in the most southern part of the quarter, where three water holes had been drilled, which was hot, even very hot, smelling of sulfur or something, where there were some empty drums of gasoline, diesel or even oil, which had were washed with sand, and were already full of water from the previous day, already warm and, with the help of the aforementioned grimy towel, we took a “bird bath”, that is, we washed ourselves in the most sensitive parts of the body)!.

…continuando com a narrativa, regressámos ao dormitório!. Como era dia de folga das nossas tarefas, vestimos roupa lavada, calçando as botas de lona também já coçadas e só apertadas com atacadores em dois buracos, colocando um cigarro “três vintes” na boca!. Dirigimo-nos ao cabanal onde existia a cozinha, servindo-nos de um púcaro de café negro, sem açúcar, que se tirava ao de cima de uma enorme panela!. Sentamo-nos cá fora, bebendo o café, pensando como devia ser o tempo e as pessoas agora, lá na nossa aldeia na Europa, na vertente agreste da montanha do Caramulo, naquela época de primavera, com um sol brilhante, lindo e sem mosquitos e aquela humidade, que naquele momento, já se fazia sentir!.

(…continuing with the narrative, we returned to the dormitory!. As it was a day off from our tasks, we put on fresh clothes, wearing canvas boots that were also itchy and only tightened with laces in two holes, putting a “three vintes” cigarette in the mouth!. We went to the hut where the kitchen existed, using a cup of black coffee, without sugar, which was removed from the top of a huge pot!. We sat outside, drinking coffee, thinking about what the weather and people should be like now, there in our village in Europe, on the rough side of the Caramulo mountain, in that spring time, with a bright, beautiful sun and no mosquitoes and that humidity, which at that moment, was already felt)!.

…com estes pensamentos, dirigimo-nos à aldeia que existia próximo do aquartelamento, visitando entre outros, o tal africano que como sempre estava deitado na rede, e que fazia os tais cigarros especiais feitos à mão, com uma mistura de ervas que as suas mulheres apanhavam na floresta, em especial em zonas junto aos pântanos, onde cultivavam algum arroz!.

(…with these thoughts, we went to the village that existed next to the barracks, visiting, among others, the African man who, as always, was lying in the hammock, and who made these special handmade cigarettes, with a mixture of herbs that his women were harvested in the forest, especially in areas close to the swamps, where they cultivated some rice)!.

…levantámos a mão dizendo “olá”!. Ele, vendo-nos àquela hora da manhã, sem dizer uma única palavra, vai dentro da “morança” (sua casa coberta de colmo), trás uma mão cheia de cigarros, de onde tirámos dois, que não usámos, guardando-os para mais tarde!. Cá fora da sua “morança”, duas das suas mulheres, junto de algumas das suas filhas, tentavam arrumar alguma lenha, afugentando uns cães magros que por ali andavam quase cobertos de moscas e outros insectos, que se iam coçando nas suas  pernas!.

(…we raised our hand saying “hello”!. He, seeing us at that hour in the morning, without saying a single word, goes inside the “morança” (his thatched house), brings a handful of cigarettes, from which we took two, which we didn’t use, keeping them for later!. Out of his “moranca”, two of his women, together with some of his daughters, were trying to get some firewood, chasing away skinny dogs that were almost covered in flies and other insects that were scratching their legs)!.

…falámos um pouco com elas e, entre outras palavras, sempre que nos viam, pronunciavam num português acrioulado, que nós compreendíamos perfeitamente, e diziam-nos: olh’a qu’la alí… cabaçú ká t’m… and’a pr’a qui… baju’da ale’m… ma’m’a firmi’… depo’s d’… tém mangá di sábi sábi… précisa d’… está altúra d’… conversa gir’o… o irmãu é qui… ficá nu Guiné… cá bai nu Portugal… e quando nos despedíamos, agarravam-nos na mão e diziam, “ca bai”, e davam-nos “mantenhas”, e às vezes até ficavam, t’chora!. (isto são palavras difíceis de traduzir, mas qualquer combatente que por lá passou, sabe um pouco o seu significado)!.

(…we talked a little with them and, among other words, whenever they saw us, they pronounced in Portuguese in a Greek language, which we understood perfectly, and they said to us: look there … cabaçú ká t’m… and ‘ pr’a qui… baju’da ale’m… ma’m’a firmi ‘… depo’s d’… has manga di sábi sábi… précisa d ‘… he is very tall… talk gir’o… the brother is qui… it will be naked Guinea… here bai nu Portugal… and when we said goodbye, they would grab us in the hand and say, “ca bai”, and give us “keep”, and sometimes even stay, t’chora !. (these are difficult words to translate, but any combatant who has passed through there, knows a little about their meaning)!.

…regressámos à aldeia de Mansôa!. Fomos ao mercado ver os produtos que estavam para vender, onde cheirava a tabaco seco, carne fresca e coca, mangos e papaia, fruta de caju, amendoim verde, a que chamavam mancarra, bananas, batata doce, peixe seco, mandioca, balaios de arroz, aguardente de palma vendida ao púcaro, macacos, periquitos e outras aves exóticas, pano de diferentes cores vendido à peça, colares e bujigangas ou figuras em madeira representando animais!.

(…we returned to the village of the Mansoa!. We went to the market to see the products they were about to sell, where they smelled like dry tobacco, fresh meat and coca, mangos and papaya, cashew fruit, green peanuts, what they called mancarra, bananas, sweet potatoes, dried fish, cassava, balas de rice, palm brandy sold to púcaro, monkeys, parakeets and other exotic birds, cloth of different colors sold by the piece, necklaces and bujigangas or wooden figures representing animals)!.

…e claro, alguns gatos empoleirados no muro do mercado, assim com alguns cães que circulavam por ali, com o rabo entre as pernas, e outros deitados próximo das bancas onde se vendia carne fresca, cães estes, que de vez em quando davam ao rabo sacudindo as moscas e outros insectos, moscas e insectos esses, que saltavam dos cães para cima da carne fresca e, mais um amalganhado de coisas sem fim de que já por diversas vezes mencionámos em textos anteriores, e de onde saíamos meio tontos!.

(…and of course, some cats perched on the wall of the market, as well as some dogs that circulated there, with their tails between their legs, and others lying next to the stalls where fresh meat was sold, these dogs, which from time to time they gave their tails by shaking flies and other insects, flies and insects, which jumped from the dogs onto the fresh meat and, another bundle of endless things that we have already mentioned several times in previous texts, and from where we came out feeling dizzy)!.

…também por lá havia, homens africanos, alguns quase nús, outros vestidos com uma vestimenta que tinha sido branca, há algum tempo atrás, (diziam-nos que eram “os Gilas”), que lhes cobria o corpo até aos pés, quase todos descalços, a falarem e sempre a mascarem algo, que cuspiam de vez em quando, sem repararem em ninguém, e sempre que encaravam com um militar, calavam-se, e viravam a cara para outro lado!. 

(…there were also African men, some almost naked, others dressed in a garment that had been white, some time ago, (they told us it was “the Gilas”), which covered their bodies up to their feet, almost all of them barefoot, talking and always chewing something, which they spit from time to time, noticing anyone, and whenever they faced a military man, they fell silent, and turned their faces away)!.

…também havia mulheres, com um balaio de qualquer coisa à cabeça, que equilibravam, como se fosse num circo, e crianças, com o ranho no nariz e o dedo na boca, agarradas às pernas da mãe, outras ainda bebés, amarradas com um pano largo às costas das mães, que de vez em quando choravam, e a mãe ouvindo o choro, atiráva-lhe com a mama para trás, debaixo do braço, onde o bebé mamando, logo se calava!.

(…there were also women, with a ball of something on their heads, who balanced, as if it were in a circus, and children, with the snot on their nose and finger in their mouth, clinging to their mother’s legs, others still babies, tied up with a wide cloth on the mothers’ back, who cried from time to time, and the mother, hearing the cry, threw her breast backwards, under her arm, where the baby suckled, then shut up)!.

…saindo do mercado, passámos pela casa onde está a espécie de câmara municipal, dizendo “olá” ao funcionário, que era nosso amigo, e também passámos pelos correios comprando dois selos, para colocar numas cartas que queríamos enviar para a Europa com fotografias para os nossos pais!. Os selos têm o formato de losangos e fotografia de animais, e são compridos, tentando sempre colocá-los no envelope, antes de escrever a direcção, pois ocupam uma grande parte do envelope!.

(…leaving the market, we passed the house where the town hall is located, saying “hello” to the official, who was our friend, and we also went through the post office buying two stamps, to put in letters we wanted to send to Europe with photographs for our parents!. The stamps are in the shape of diamonds and animal pictures, and are long, always trying to put them in the envelope, before writing the address, as they occupy a large part of the envelope)!.

…seguindo em frente, passámos pela loja do Libanês, para comprar uns sabonetes “Life boy”!. Não eram necessários, mas sempre se viam as filhas do Libanês, as tais que ao domingo e quando havia capelão, por ocasião da missa que se celebrava na capela da aldeia, inundavam o ambiente com o seu perfume exótico!.

(…moving on, we passed the Lebanese store, to buy some “Life boy” soaps!. They were not necessary, but the daughters of the Lebanese were always seen, the ones who on Sunday and when there was a chaplain, on the occasion of the Mass celebrated in the village chapel, flooded the room with their exotic scent)!.

…seguindo, caminhando junto ao rio, onde estavam algumas canôas, umas em terra seca, outras na água!. São quase todas propriedade do Iafane, africano também nosso amigo, (pelo menos nós considerávamos nosso amigo), com uma certa estatura física, de etnia “Balanta”, que faz o transporte de pessoas e bens, que veêm trazer os seus produtos, para vender no mercado, ou na Casa Ultramarina e, alguns desses africanos, quando viajam na canôa, vêm nús, só colocando um simples pano servindo de tanga, depois de atracar as canôas!.

(…following, walking along the river, where there were some canoes, some on dry land, others in the water!. They are almost all owned by Iafane, an African also our friend, (at least we considered our friend), with a certain physical stature, of ethnic “Balanta”, that transports people and goods, who come to bring their products, to sell at the market, or at Casa Ultramarina, and some of these Africans, when traveling in the canoe, come naked, just putting on a simple cloth as a loincloth, after docking the canons)!.

…falando um pouco da personagem do Iafane, não falava muito bem português, mas compreendia-se, tinha a sua “morança” e algumas mulheres!. Nós, que frequentemente andávamos por ali, considerávamos que era um “barqueiro”!. Tinha uma pequena barraca, coberta de colmo junto à ponte, onde guardava os remos e demais utensílios, onde nós, por vezes passávamos horas, abrigando-nos do sol e ouvindo as suas histórias de mulheres novas que trazia das aldeias ribeirinhas que visitava, umas para serem suas esposas, outras para outros “homens grandes”, e onde apreciava as possíveis raparigas que tivessem algum potencial de se tornarem em esposas!. Algumas fugiam passado algum tempo, pois não queriam viver com ele na aldeia!.

(…talking a little about the character of Iafane, he didn’t speak Portuguese very well, but he understood himself, he had his “morança” and some women!. We, who frequently walked around, considered that he was a “boatman”!. He had a small thatched hut by the bridge, where he kept the oars and other utensils, where we sometimes spent hours, sheltering from the sun and listening to his stories of young women he brought from the riverside villages he visited, some to be his wives, others for other “big men”, and where he appreciated the possible girls who had some potential to become wives!. Some fled after some time, because they did not want to live with him in the village)!.

…acima mencionámos que o considerávamos nosso amigo, pois tratáva-nos por “irmão”, confidenciando-nos até, que tinha sido contactado por um emissário dos guerrilheiros para parar com o seu negócio, pois os produtos e as raparigas que trazia para a vila, eram propriedade do movimento de libertação!. Já o tinham avisado e mostrava um certo receio ao dizer isto!. Passado algum tempo, deixámos de o ver, assim como às suas canoas!. 

(…above we mentioned that we considered him our friend, because he called us “brother”, even confiding us, that he had been contacted by an emissary of the guerrillas to stop his business, because the products and the girls he brought to the village, were the property of the liberation movement!. They had already warned him and showed a certain fear when saying this!. After a while, we stopped seeing him, as well as his canoes)!.

…soubemos depois que “foi no mato”, que na linguagem local era transferir-se para os guerrilheiros, fazendo parte do movimento de libertação, e que estava recebendo treino num país estrangeiro!. Talvez até já fosse guerrilheiro na altura em que era barqueiro, e do modo como a guerra se estava intensificando, o Iafane, sabendo os hábitos do pessoal na aldeia, concerteza que ia dar mum guerrilheiro com futuro!.

(…we later learned that “it was in the woods”, that in local language it was to transfer to the guerrillas, as part of the liberation movement, and that he was receiving training in a foreign country!. Perhaps he was already a guerrilla by the time he was a boatman, and the way the war was intensifying, Iafane, knowing the habits of the people in the village, certainly would give a guerrilla with a future)!.

…continuando, daqui, seguimos para a sede do clube de futebol, dando dois dedos de conversa com o rapaz que servia no bar, mas que naquele momento andava a varrer, com uma vassoura feita de ramos de alguns arbustos, cá fora, o chão térreo, e levantava algum pó, portanto sujava mais do que limpava!. Às vezes encontramos por lá alguém que queira jogar às cartas, e lá vai uma “sueca”, ou uma “bisca lambida”, quase sempre na disputa de uma cerveja!.

(…continuing, from here, we went to the headquarters of the football club, giving two fingers of conversation with the boy who served at the bar, but who at that moment was sweeping, with a broom made of branches of some bushes, outside, the ground floor, and raised some dust, so it smeared more than it cleaned!. Sometimes we find someone there who wants to play cards, and there goes a “Swede”, or a “licked brisket”, almost always in the dispute for a beer)!.

…e, chegava a hora de ir à “bóia”, como dizia o saudoso cabo Bóia, que era a refeição do meio dia, que nós nesses dias fora das nossas tarefas, quase nunca assistíamos, pois esperávamos pelo fim da refeição, indo visitar o sargento da messe, que sempre guardava qualquer coisa do almoço, e que sabia que nós apreciávamos!. Por ali ficávamos quase toda a tarde, ajudando em qualquer coisa, ou simplesmente conversando, dando um cigarro dos especiais ao sargento da messe, guardando o outro!.

(…and, it was time to go to the “buoy”, as the late Corporal Bóia used to say, which was the midday meal, which we, on those days outside our duties, almost never attended, because we waited for the meal to end, going to visit the mess sergeant, who always kept something from lunch, and who knew we appreciated it!. We stayed there most of the afternoon, helping with anything, or just talking, giving the sergeant of the harvest a special cigarette, keeping the other)!.

…quase ao fim da tarde, com a temperatura um pouco mais fresca, que infelizmente era quando os mosquitos mordiam mais, mas pouca diferença já faziam, pois a pele do nosso corpo, já estava rija e curada, íamos na companhia dos companheiros Setubal e do Curvas, alto e refilão, dar um passeio pela ponte, admirando o rio, na altura da maré cheia, pois parecia o rio da vila a que pertencia a nossa aldeia, lá na Europa, na época do inverno, quando a água das chuvas, vinda da montanha, o fazia transbordar e alagar os campos vizinhos!.

(…almost at the end of the afternoon, with a slightly cooler temperature, which unfortunately was when mosquitoes bit more, but little difference they already made, because the skin of our body was already hard and healed, we were in the company of our companions Setubal and Curvas, tall and tall, take a stroll across the bridge, admiring the river, at high tide, as it looked like the river of the village to which our village belonged, back in Europe, in the winter time, when the water rain, coming from the mountain, made it overflow and flood the neighboring fields)!.

…neste local, o pôr do sol, era um espectáculo com alguma relevância, onde o sol brilhava sobre o manto de água reluzente, pois na sua superfície, existia sempre uma camada de lama!. Nesse momento fumávamos o tal cigarro especial, entre os três, sentados na beira da ponte, e talvez por isso, o cenário se tornasse encantador, tal qual como se viam nas películas, que às vezes assistíamos na sede do clube de futebol!.

(…in this place, the sunset, was a show with some relevance, where the sun shone on the mantle of shining water, because on its surface, there was always a layer of mud!. At that moment, we smoked that special cigarette, among the three, sitting on the edge of the bridge, and perhaps for that reason, the scenery became charming, just as seen in the films, which we sometimes watched at the headquarters of the football club)!.

…quase noite, chegávamos ao aquartelamento, passando pelo cabanal da  cozinha, roubavando um naco de pão, sobre o olhar do “Arroz com pão”, que era o cabo do rancho, que sabia que nós fazíamos isso quase todos os dias, e sempre lá tinha o pão, sempre no mesmo sítio, que era numa espécie de banca de cozinha, mas muito mal feita, com os restos de umas tantas caixas de munições, bebendo cada um uma cerveja, que já tínhamos trazido da messe dos sargentos!.

(…almost at night, we arrived at the barracks, passing by the kitchen hut, stealing a loaf of bread, under the eyes of the “Arroz com Pão”, which was the ranch handle, who knew that we did this almost every day, and there was always the bread, always in the same place, which was in a kind of kitchen sink, but very poorly made, with the remains of a few boxes of ammunition, each drinking a beer, which we had already brought from the sergeants’ harvest)!.

…por fim, chegando à barraca ainda em construção, sem qualquer porta ou janela, que oficialmente se chamava dormitório, ouvíamos as quase reportagens, daqueles que tinham saído em patrulha, ou em alguma operação de destruição de bases inimigas, adormecendo quase sempre tarde, quando o último terminava de falar, ou algum companheiro deixava de ressonar!.

(…finally, arriving at the tent still under construction, without any door or window, which was officially called a dormitory, we listened to the almost reports, of those who had gone out on patrol, or in some operation to destroy enemy bases, almost always falling asleep late, when the last one finished speaking, or some partner stopped snoring)!.

…embora um veterano de uma idade um pouco avançada, o pensamento caça-nos na vida e, nós, que naquele cenário de uma guerra terrestre de guerrilha, éramos o “Cifra”, um soldado desarmado, onde a disciplina de um campo de batalha não era lá muito eficaz para a nossa sobrevivência e, onde só talvez, os cigarros e algum excesso de álcool, nos dava algum miserável conforto!.

(…although a veteran of a little old age, thought hunts us in life and we, who, in that scenario of a terrestrial guerrilla war, were the “Cifra”, an unarmed soldier, where the discipline of a field battle was not very effective for our survival and, where only maybe, cigarettes and some excess alcohol, gave us some miserable comfort)!.

Tony Borie, Século XXI.   (Tony Borie, 21st Century)

2 thoughts on “…fica nu Guiné… cá bai nu Portugal!.

  1. Amigo Tony Grande prosa sim senhor, estás com uma memória a 100%, parabens. Aproveito para te desejar, a ti e toda a familia, um SANTO NATAL E BOM 2021, livre desta maldita pandemia, que promete continuar. Nós os mais velhotes, vamos a ver se nos aguentamos, é que esta guerra é pior do que a da Guiné, pois não conseguimos ver o inimigo, e lá não era assim como sabemos. Um grande abraço do Roger

    Tony Borie – Pieces of my life escreveu no dia sábado, 12/12/2020 à(s) 09:56:

    > tonisaborie posted: ” …ficá nu Guiné… cá bai nu Portugal!. …é > impossível esquecer as nossas experiências na guerra e, aquilo que nos > ajudou a sobreviver lá, agora, já lá vão quase seis dezenas de anos, não > funciona muito bem na nossa normal vida, no entanto ainda vai se” >

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