…ILDA, the Mother!

…ILDA, the Mother!

…não sei bem se me lembro, pois eu era pequeno, mesmo muito pequeno, era um bébé, ainda não andava, nem falar sabia, mas lembro-me que, quando queria algo, chorava e, devia de chorar de diferentes maneiras, pelo menos ela compreendia-me, sabia quando tinha fome, quando tinha frio, quando me estava a doer em qualquer parte do corpo, ou quando estava molhado, sabia tudo, era como se fosse eu, estava lá sempre, olhava para mim e os seus olhos falavam-me e, eu lembro-me que gostava que ela me olhasse e eu falava-lhe, perdão chorava-lhe, e ela, a Mãe Ilda, era uma espécie de guerreira, ninguém me podia tocar, sempre vigilante, logo dizia: Cuidado, muito cuidado, é o meu filho, que é o meu mundo! (I do not know if I remember, because I was small, even very small, I was a baby, I still did not walk, I did not even know it, but I remember that I still did not walk or speak, but I remember that when I wanted to something, I was crying and I had to cry in different ways, at least she understood me, I knew when I was hungry, when I was cold, when it was hurting anywhere in my body, when I was wet, I knew everything, it was like I was always there, she was looking at me and her eyes were talking to me, and I remember that I liked her to look at me and, I told her, I was crying for her, and she, Ilda, was a kind of warrior, nobody could touch me, always vigilant, soon said: Beware, very carefully, it is my son, that is my world)!.

…a Mãe Ilda, ensinou-me a andar, vestiu-me uma espécie de “bibe”, andava todo o dia em seu redor, em outras palavras, não saía de volta das suas saias, sabia quando tinha fome e, dáva-me o comer na boca, sabia quando tinha ranho no nariz e, vinha assoar-me, com o seu avental, às vezes encardido, e dizia: Puxa, puxa, que é para o ranho sair!. (Mother Ilda, taught me how to walk, put on a kind of “bibe”, walked all day around her, in other words, did not leave her skirts, knew when she was hungry and gave me the eating in my mouth, I knew when I had snot on my nose, and he would come and blow me, with his apron, sometimes grimy, and he would say: Pull it, pull it, it’s for the snot to come out!

…ainda hoje, já lá vão mais de sete décadas, ainda faço isso, e quando o faço, fico mais aliviado!. A Mãe Ilda, levou-me à escola, quando tinha alguma zanga com qualquer companheiro, era a ela que me dirigia, chorando ou berrando, e ela, colocando a mão na minha cara, acariciando-me, mesmo muito encostada a mim, se chorava, limpava as minhas lágrimas, se berrava, acalmava-me de tal modo, que não me lembrava mais da zanga, protegia-me, eu era “seu”, e quando andava na rua pela sua mão, ela orgulhosa dizia: É o meu filho!. (even today, it’s been going on for more than seven decades, I still do it, and when I do, I’m relieved! Mother Ilda, took me to school, when I had some anger with a companion, it was she who was going to me, crying or screaming, and she, putting her hand to my face, caressing me, even very close to me, if she was crying, she wiped away my tears, she screamed, she calmed me so much that I could not remember her anger anymore, she protected me, I was “her”, and when she was walking in the street by her hand, she proudly said: my son!.

…cresci, conheci outras pessoas, mas ela sempre vigilante, aconselhou-me, verificava quais eram as minhas companhias, não me deixava, como ela dizia, “ir por maus caminhos”, explicáva-me as surpresas da vida, e eu procurava nela toda a informação, pois ela era sempre a voz final, era a minha Mãe Ilda!. (I grew up, I met other people, but she was always vigilant, she advised me, checked my companies, did not let me, as she said, “go by bad ways”, she explained the surprises of life, and I searched all over her the information, because she was always the final voice, it was my Mother Ilda!.

…a Mãe Ilda, fazia um dia nublado, num dia de sol!. Quando estava doente, beijava o lugar onde me doia, o seu sorriso dizia-me que ia ficar bem e, sempre lá estava para mim, de dia ou de noite, a sua voz suave, tiráva-me o medo, a sua mão apagava as minhas lágrimas, o seu carinho tão puro e honesto, manteve durante toda a minha vida, num homem seguro, ela era, o anjo da guarda, que me guiava e me amparou, nos meus primeiros passos, os seus olhos diziam-me, quanto se importava comigo e, davam-me alívio, quanto me sentia sózinho ou assustado!. (Mother Ilda was going to be cloudy on a sunny day!. When she was sick and kissed the place where she ached for her smile told me that she would be fine, and always there for me day or night, his soft voice, he took away my fear, his hand erased my tears, his affection, so pure and honest, he kept my whole life, a safe man, she was, the guardian angel, who guided me and he supported me, in my first steps, his eyes told me, how much he cared for me and gave me relief when I felt alone or frightened)!

…a Mãe Ilda, não sabia ler nem escrever, nem sequer desenhar o seu nome, mas sabia amar, sabia o bem e o mal, sabia os princípios de família, era uma senhora que nasceu e cresceu numa aldeia, na vertente oeste da montanha do Caramulo, sem conhecimento deste mundo, que às vezes é ingrato, mas para mim, seu filho António, tinha o maior e mais bom coração, que eu, caminheiro do mundo, já conheci!. (Mother Ilda, could not read or write or even draw her name, but she knew how to love, knew good and evil, knew the principles of family, was a woman born and raised in a village on the western slope of the mountain Caramulo, without knowledge of this world, who is sometimes ungrateful, but for me, his son Antonio, had the highest and the fairest heart, that I, a world-healer, I have known)!.

…a Mãe Ilda, tinha uma força como um gigante, pois podiam dizer-me um milhão de palavras, que um simples sim, ou não, da sua boca, derrotava todas as palavras que me tinham dito!. (Mother Ilda, had a giant strength, because she could tell me a million words, that a simple yes or no, from her mouth, defeated all the words they had told me)!.

… a Mãe Ilda, chorou comigo, quando fui para a guerra em África e, as suas lágrimas, eram lágrimas do coração, pois nessa altura da minha vida, já pensava que era um homem, fui para outro continente, fui para uma guerra, que muitos anos depois, verificámos que era injusta, como são todas as guerras, todavia, todas as agruras que vivi nesse conflito armado, não eram nada comparado com a sua ausência, faltava-me a sua companhia, o seu carinho, não era lá muito “piegas”, mas faltava-me a Mãe Ilda!. As suas notícias, contando-me, as novidades dos vizinhos da minha aldeia, da minha rua, eram como um alento tão grande, que me tornava um “super homem”!. Regressei, continuando a pensar que já era um homem, criei a minha própria família, e ela sempre vigilante, não me deixava “ir por maus caminhos”, fiz dela uma “avó babada”, como sempre me dizia, quando me continuava a perguntar se estava bem e se tinha fome, ou se queria aquela comida que eu gostava muito, quando era o seu filho pequeno, e eu na verdade, na sua companhia sentia-me pequeno, como fosse um “garotito”, necessitava da sua protecção, e ela compreendia-me, conhecia todos os meus gestos, e eu, talvez sem reparar, continuava a beber toda a sua informação!. (Mother Ilda, cried with me, when I went to war in Africa, and her tears were tears of the heart, for at this point in my life I thought I was a man, I went to another continent, I went to war, many years later, we realized that it was unfair, as all wars are, yet all the hardships I experienced in this armed conflict were nothing compared to their absence, I lacked their company, their affection, it was not much “corny”, Ilda mother was missing !. His news, telling me, the news of the neighbors of my village, of my street, was such a breath that I became a “super man”! I returned, continuing to think that I was already a man, I created my own family, and she was always vgilante, did not let me “go by bad ways”, made her a “grandmother drool”, as she always told me, when I kept asking myself if he was well and hungry, or if he wanted the food that I liked very much when he was his youngest son, and I actually felt small in his company, like a “little boy”, he needed his protection, and she understood me, knew all my gestures, and I, perhaps unmindful, continued to drink all her information)!.

…a Mãe Ilda, já “avó babada”, continuava a aconselhar os meus filhos, e eu às vezes sentia ciúmes, de ela ensinar, o que eu lhes tinha ensinado, que era precisamente a mesma coisa, que ela me tinha ensinado por um milhão de vezes, mas ela explicava de maneira diferente na voz, no olhar, no amor de avó, e eles, ouviam a “avó babada”, e às vezes respondiam-me: Mas a avó diz que é assim!. (Mother Ilda, already a “grandmother,” continued to advise my children, and I was sometimes jealous of her teaching, what I had taught them, that it was precisely the same thing she had taught me for a million sometimes, but she explained differently, in the voice, in the look, in the love of a grandmother, and they, listened to the “grandmother ruffle”, and sometimes they would answer me: But the grandmother says it is so)!.

…já muitos anos depois, um pouco frágil, quase como quando digo no princípio, que não sei se me lembra, pois era pequeno, mesmo muito pequeno, era um bébé, ela, a minha minha Mãe Ilda, às vezes também precisava que lhe dessem o comer na boca, e um simples lamento, era um sinal de que precisava de alguma coisa, tal como eu fazia, quando chorava, e ela conhecia o meu choro, e para andar, também precisava de ir agarrada a alguma coisa, tal como eu fazia, que andava agarrado às suas saias, era uma cópia do que eu fui, mas eu compreendia com amor tudo isso, só não compreendi e sofri, foi quando ela, a minha Mãe Ilda, mudou de lugar, foi para junto de Deus, se é que ele existe e… ABANDONOU-ME! (many years later, a little fragile, almost like when I say at the beginning, I do not know if you remember, because it was small, even very small, it was a baby, she, my Mother Ilda, sometimes also needed to be given the eating in her mouth, and a simple lament, was a sign that she needed something, just like I did, when I cried, and she knew my crying, and to walk, I also needed to be clinging to something, just like I was doing, when I was clinging to her skirts, it was a copy of what I was, but I understood with love all this, I just did not understand and I suffered, it was when she, my Mother Ilda, moved, went to God , if it exists and … ABANDONED ME)!.

Tony Borie, October 2017.