…attack on the barracks!.

…ataque ao aquartelamento! (attack on the barracks)!.

…o corpo e a mente de um veterano de guerra, reage automáticamente aos disparos da memória, sentindo de novo, em certos momentos, as feridas, o medo e o horror que por si passaram, enquanto presente num cenário de combate!. A maldição de um veterano de guerra, é que nunca esquece!. Contudo, já o dissémos em algumas vezes, o mêdo ou talvez coragem, que nos ajudou a sobreviver num campo de batalha, não funciona muito bem agora, nesta avançada idade, mas ainda vai sendo possível assumir o control dessa horrível vivência e, vamos continuando a expulsar alguma energia positiva que nos resta, daquela que nos foi roubada, pelo desastre da Guerra Colonial Portuguesa, em África!. (the body and mind of a war veteran, reacts automatically to the shots of the memory, feeling again, at certain moments, the wounds, the fear and the horror that they passed, while present in a scene of combat!. The curse of a war veteran is that he never forgets!. However, we have said it sometimes, the fear or perhaps courage, that has helped us survive on a battlefield, does not work very well now, at this advanced age, but it is still possible to take control of this horrible experience and, to expel some of our remaining positive energy from the one that was stolen from us by the disaster of the Portuguese Colonial War in Africa)!.

…vamos escrevendo, com a intenção de que a nossa dor, sirva de exemplo, sobretudo para os jovens, para que nunca se envolvam em nenhum conflito armado!. Longe do nosso pensamento, recordar aquele ditado que diz, “É frustante quando você conhece quase todas as respostas, mas ninguém se preocupa em fazer as perguntas”!. Não, não é essa a nossa intenção, temos alguma experiência de vida, já por nós passaram muitas primaveras floridas, muitas temperaturas tórridas de verão, chuvas torrenciais de outono e muitos frios glaciares de inverno, contudo, a força que nos faz mover os dedos, ao passar pelo computador, é o reflexo de momentos de horror, mêdo e angústia, de um veterano de guerra, que deu os melhores anos da sua jovem vida em defesa do seu País, numa guerra sangrenta em África, a milhares de quilómetros da aldeia onde nasceu, combatendo pessoas, que nenhum mal lhe tinham feito antes e, que nem sequer conhecia!. (we are writing, with the intention that our pain, serve as an example, especially for young people, so that they never get involved in any armed conflict! Far from our thinking, remember that saying that says, “It’s frustrating when you know almost all the answers, but no one cares to ask the questions!”. No, this is not our intention, we have some experience of life, we have already passed many flower springs, many torrid summer temperatures, torrential autumn rains and many cold winter glaciers, but the force that makes us move our fingers, is a reflection of moments of horror, fear and anguish, of a war veteran, who gave the best years of his young life in defense of his Country, in a bloody war in Africa, thousands of kilometers from village where he was born, fighting people, whom no evil had done to him before, and whom he did not even know)!.

…uma das razões porque hoje mostramos ao mundo, todas estas memórias, daquele conflito armado em África, que envolvem algumas cenas de horror, mêdo e angústia, foi uma nossa “Madrinha de Guerra”, de nacionalidade espanhola, com a qual nos correspondíamos e, que nos incentivou, enviando-nos um livro com folhas em branco, dizendo para ir-mos escrevendo lá, as cenas que mais nos marcavam!. Devia de ser uma pessoa com alguma experiência de vida e formação escolar, pois as suas cartas davam alguma moral, para quem estava num cenário de guerra, rodeado de arame farpado!. (one of the reasons why today we show the world, all these memories, that armed conflict in Africa, which involve some scenes of horror, fear and anguish, was our “Godmother of War”, Spanish nationality, with which we we corresponded and encouraged us by sending us a book with blank sheets, telling us to go and write the scenes that marked us most! He must have been a person with some experience of school life and education, for his letters gave some moral to those who were in a war scenario surrounded by barbed wire)!.

…este livro, não era diário nenhum, era um amontoado de folhas, pois hoje abrindo-o, vejam lá que até lá estão uns pedacinhos de ferro, dentro de um plástico, que deviam ser aqueles plásticos que vinham a embrulhar uma qualquer escova dos dentes, que possívelmente apanhámos em um qualquer lugar, pois não nos lembramos de alguma vez ter usado uma escova dos dentes durante a nossa permanência naquele conflito!. (this book was not a journal, it was a heap of leaves, because today opening it, you see that there are some pieces of iron, inside a plastic, that should be those plastics that would come to wrap any toothbrush, which we possibly picked up somewhere, as we do not remember ever having used a toothbrush during our stay in that conflict)!.

…mas voltando aos pedacitos de ferro, são os estilhaços de uma granada de morteiro 90, lançado pelos guerrilheiros, que durante um ataque ao nosso aquartelamento, explodiu junto a nós, ferindo-nos na perna direita, onde ainda hoje lá está a cicatriz, que mais tarde, viémos no carro dos doentes ao hospital da capital da província, onde uma equipa médica nos extraiu os estilhaços e, que guardámos como memórias de guerra!. Foi nessa altura que convivemos com os combatentes “Zargo” e o “Zé Pesca”, no aquartelamento da Companhia de Páraquedistas!. (but returning to the pieces of iron, are the splinters of a mortar grenade 90, launched by the guerrillas, who during an attack on our barracks, exploded next to us, injuring us on the right leg, where still today there is the scar, which later we saw in the car of the sick to the hospital of the capital of the province, where a medical team has extracted the shrapnel and what we have stored as memories of war!. It was at that time that we lived with the fighters “Zargo” and “Zé Pesca”, in the barracks of the Company of Parachutists)!.

…vamos ler algumas páginas, que são o relato dos companheiros do Pelotão de Morteiros e não só, que no regresso das constantes, quase diárias patrulhas e operações de combate para destruição das bases dos guerrilheiros que lutavam pela independência do seu território, nos relatavam!. O mais detalhado nos pormenores, era o “Trinta e Seis”, pois tinha fama de “não fala mentira”, era responsável demais para a sua idade, às vezes ficávamos embarçados, não sabendo se falávamos para um companheiro, para um irmão mais velho ou para um pai!. (let us read a few pages, which are the accounts of the companions of the Mortal Squad, and not only, that in the return of the constant, almost daily patrols and combat operations for the destruction of the bases of the guerrillas who fought for the independence of their territory, in the reported!. More detailed in detail, it was the “Thirty-Six” because he had a reputation for “no lies”, was too responsible for his age, sometimes we were embarrassed, not knowing if we were talking to a companion, an older brother or for a parent)!.

…relatava as emboscadas, as aflições, os momentos de pânico, com alguns pormenores, que nos fazia vir algumas lágrimas aos olhos, mas, mas vamos avançar, pois nestas páginas o diário diz assim:

“no dia 26 de Outubro, que devia de ser de 1964 – Pela manhã, houve uma festa de despedida no aquartelamento de duas Companhias que estavam estacionadas na zona operacional do Oio e, actuavam sobre ordens do Comando do Agrupamento a que o “Cifra” pertencia, estando parte dos militares dessas Companhias estacionadas no aquartelamento da vila de Mansoa. Pararam as obras no aquartelamento, houve rancho melhorado, cada um teve direito, em vez de um, a dois ou três púcaros, (que também serviam o café pela manhã, e que se tiravam da bacia de alumínio, que estava no meio da mesa, cheia de vinho, que afinal era a mesma bacia, que às vezes servia o arroz com peixe da “bolanha”, leia-se pântano), de vinho!. Houve “batuque”,  fizeram-se discursos, houve sorrisos e algumas lágrimas, seguindo as referidas Companhias em veículos militares para o cais de embarque, na capital da província”!.

(He reported the ambushes, the afflictions, the moments of panic, with some details that made some tears come to our eyes, but, let us move forward, for in these pages the diary says thus:

(“On 26 October, which was to be 1964 – in the morning, there was a farewell party at the barracks of two companies that were parked in the operational area of Oio, and acted on Grouping Command orders that the “Cipher” belonged, with the military these companies stationed in the barracks the village of Mansoa!. They stopped the work on barracks, there was improved ranch, each was entitled, instead of one, two or three cups, (who also served coffee in the morning, and it took the aluminum basin, which was in the middle of the table full of wine, which after all was the same basin, which sometimes served rice with fish of bolanha, read swamp), wine!. There was “drumming”, were made speeches, there were smiles and a few tears, following these Companies in military vehicles to the ferry pier, in the provincial capital”).

…continuando:

“À noite, por volta das 23,30 horas, desenrolou-se um forte ataque ao aquartelamento, que principiou com três ou quatro tiros isolados, seguidos de rajadas de metralhadora. Começaram a cair sobre o aquartelamento granadas de morteiro 90, ainda não havia abrigos com eficiência, ainda estavam a começar a construir-se, gerando-se algum pânico!. Ficaram feridos cinco militares, uma granada caiu, muito perto de nós, ferindo-nos numa perna, no momento em que corríamos, tentando refugiarmo-nos, no “abrigo do Olossato”, que era como nós, e alguns companheiros, lhe chamavam, por ser parecido com os que eram construídos na aldeia remota do Olossato, que foram construídos na parte sul do aquartelamento, junto do dormitório e, com alguma segurança!. Nesse momento, estávamos com muito mêdo, sangrando numa perna, mas sempre com o rosto de fora, vimos o clarão da explosão, andando com a cara vermelha e queimada, os olhos também vermelhos, vendo e ouvindo mal, com muita dificuldade durante algum tempo”!.

Continuing:

(“At night, around 23.30 hours, a strong attack on the barracks unfolded, which began with three or four isolated shots, followed by machine-gun bursts. They began to fall on the quartering mortar grenades 90, there were still no shelters efficiently, they were still starting to build up, generating some panic!. Five soldiers were wounded, a grenade fell, very close to us, wounding us in one leg, as we ran, trying to take refuge in the “Olossato shelter”, which was just like us and some companions called it, to be similar to those that were built in the remote village of Olossato, which were built in the southern part of the quarter, next to the dormitory and with some security!. At that moment, we were very scared, bleeding on one leg, but always with the face outside, we saw the flash of the explosion, walking with red and burned face, eyes also red, seeing and hearing badly, with great difficulty for some time”)!.

…continuando:

“Os militares saíram a bater a zona, por sorte não foram para a estrada que seguia para a vila de Mansabá, pois ao outro dia vieram avisar o aquartelamento de que estava um fornilho montado com oito quilos de explosivos na referida estrada, tendo vindo um grupo de militares especiais da capital da província para o desmantelar!. Houve depois informações, que alguns dos africanos, que andaram no “batuque”, pela manhã, eram guerrilheiros disfarçados e, sabiam que os militares não tinham muita segurança, pois estavam desfalcados da presença de parte dos militares que estavam estacionados na vila de Mansoa, pertencentes às duas Companhias que regressaram à capital da província”!.

Continuing:

(“The military came out to hit the area, luckily were not for the road bound for the village of Mansaba, because the next day came warn the barracks that was one bowl fitted with eight kilograms of explosives on that road, having come a group of special military from the provincial capital to dismantle. Then there was information that some of the Africans, who walked the “drumming” in the morning, were disguised as guerrillas, and knew that the military did not have much security as they were with neither the presence of the military who were stationed in the village of Mansoa, belonging to two companies who have returned to the provincial capital”)!..

…lembramo-nos que, as explosões das granadas destruíram parte das obras do aquartelamento e, quando o “Pastilhas”, que era o enfermeiro, colocava uma pomada branca em nossa cara, em atitude de brincadeira, dizia-nos:

– anda, vai para a “Tabanca”, com esta pintura pareces um “Balanta”, numa cerimónia de “Choro”!.

…a palavra “Tabanca”, referia-se a uma aldeia, a palavra “Balanta”, referia-se ao africano oriundo daquela área e, cremos que a palavra “Choro”, era a designação para uma cerimónia de funeral!.

(we remember that the explosions of the grenades destroyed part of the barracks, and when the “Pastilhas”, who was the nurse, put a white ointment on our face, in a joke, he told us:

– Go, go to “Tabanca”, with this painting you look like a “Balanta”, in a ceremony of “Choro”!.

The word “Tabanca”, referring to a village, the word “Balanta”, was referring to the African from that area and, we believe that the word “Choro”, was the designation for a funeral ceremony)!.

…vamos fechar o diário, já chega de guerra!. (Let’s close the diary, enough of war)!.

Tony Borie, March 2018.

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