…other times!


…outros tempos!. (other times)!.

…hoje, nesta idade um pouco avançada, quando comemos uma refeição leve, com bastante salada, olhando os vegetais, logo nos vem à ideia o difícil trabalho da agricultura!. (Today, at this slightly advanced age, when we eat a light meal, with plenty of salad, looking at the vegetables, we soon come to the idea of the difficult work of agriculture)!.

…lembramo-nos da aldeia do Vale do Ninho d’Águia, lá naquela encosta agreste da montanha do Caramulo, naquele Portugal da Europa, onde nascemos e crescemos, vivendo numa área onde algumas famílias, talvez num círculo de alguns quiilómetros quadrados, cultivaram e casaram, constituindo família, onde todos se conheciam, sendo uma comunidade estável por séculos, ao longo daquele vale!. (We remember the village of the Valley of the Eagle’s Nest, on that rugged mountain slope of the Caramulo mountain, that Portugal of Europe, where we were born and grew up, living in an area where some families, perhaps in a circle of a few square kilometers, cultivated and married, constituting family, where everyone knew each other, being a stable community for centuries, along that valley)!.

…o dia começava, quando o combóio das seis e meia, passava vale abaixo a toda a velocidade em direcção ao oceano Atlântico e, terminava no seu regresso, por volta das dez e meia da noite, fazendo um ruído ensurdedor, vale acima, em direcção à montanha, com a locomotiva a todo o vapor, abanando o curral das ovelhas, que berravam assustadas!. (The day began, when the six-thirty train passed downhill at full speed toward the Atlantic Ocean, and ended on his return at around ten-thirty at night, making a deafening sound, up to the mountain, with the locomotive at full steam, shaking the corral of the sheep, who screamed scared)!.

…crescemos numa fazenda pequena, que os nossos pais chamavam quinta, onde havia uma vaca leiteira, ovelhas, cabras, um porco, algumas galinhas, coelhos e um cão, que era o nossa companhia preferida!. Cultivávamos milho, centeio, algum trigo, feno, batatas e vegetais, como nabos, couves, alfaces ou beterrava, que eram o sustento da família, onde também havia algumas árvores de fruto, nascidas por acaso, como larangeiras, macieiras ou nespreiras, além de algumas videiras, que estavam lá ao sabor do tempo, se chovia eram regadas, se havia muito sol, secavam alguns ramos!. (We grew up on a small farm, which our parents called a farm, where there were a milk cow, sheep, goats, a pig, a few chickens, rabbits and a dog, which was our favorite company! We grew maize, rye, some wheat, hay, potatoes and vegetables, such as turnips, cabbages, lettuces or beets, which were the family’s livelihood, where there were also some fruit trees, born randomly, such as orange trees, apple trees or loquat trees, of some vines, which were there in the flavor of time, if it rained were watered, if there was too much sun, dried some branches)!.

…na nossa casa, não havia electricidade nem encanamento de água interior, o quarto banho era uma barraca cá fora, mas havia toda a liberdade para vaguear por toda a quinta, incluindo a parte mais alta que era o pinhal, onde existiam algumas árvores de pinheiro e eucalipetos, mas poucos, no entanto era o nosso paraíso, onde caçávamos coelhos, perdizes e pombas selvagens!. (In our house, there was no electricity or internal water pipes, the fourth bathroom was a tent outside, but there was all the freedom to roam all over the farm, including the highest part of the pine forest, where there were some pine trees and eucalyptus, but few, yet it was our paradise, where we hunted wild rabbits, partridges and pigeons)!.

…aprendemos a fazer as nossas próprias ferramentas e armas de caça, a reparar e improvisar, recolhíamos a resina dos pinheiros, com que alimentávamos a luz da candeia à noite, a fazer a nossa própria faca, a pequena quinta obrigáva-nos a trabalhar quase o tempo todo, tudo era feito com a força dos braços, o cheiro a estrume era o nosso perfume e, naquele tempo não nos lembramos de ninguém que não gostasse de trabalhar!. (We learned to make our own tools and hunting guns, to repair and improvise, to collect the resin from the pines, with which we fed the light from the lamp at night, to make our own knife, the small farm obliged us to work almost all the time, everything was done with the strength of the arms, the smell of manure was our perfume and, at that time we did not remember anyone who did not like to work)!.

…a palha do centeio e trigo era usada nos colchões!. O único fertilizante era o estrume dos animais!. A repreza no ribeiro que passava ao fundo do vale, era a nossa praia fluvial!. Quando se fazia algo que não estava de acordo com as leis dos adultos, o pai António usava uma “chivata” e quando batia nos irmãos mais velhos, nós, esperando a nossa vez, já chorávamos!. No Vale do Ninho d’Águia, havia sempre ventos, com chuvas de tempestade, com raios, alguns caíam nas árvores, rachando-as, no entanto passado algum tempo floriam de novo!. O nosso jardim, era a vegetação selvagem que crescia em volta do ribeiro que passava ao fundo vale, lindíssimo, com papoilas, cardos selvagens com flor, rosas, girassóis, nenúfares em flor, tudo selvagem, pois ninguém plantava lá nada!. Ali, também era a nossa zona de pesca, com maneiras de pescar artesanais, onde pescávamos robacos e enguias!. (The rye and wheat straw were used in the mattresses! The only fertilizer was the animal manure!. The reprehension in the brook that passed to the bottom of the valley, was our fluvial beach!. When something was done that did not conform to the laws of adults, Father Antonio used a “chivata” and when he beat the older brothers, we, waiting for our turn, were already crying!. In the Valley of the Eagle’s Nest, there were always winds, with storm rains, lightning, some falling on the trees, cracking them, however after a while they bloomed again! Our garden was the wild vegetation that grew around the stream that passed in the valley, beautiful, with poppies, wild thistles with flower, roses, sunflowers, water lilies in bloom, all wild, because nobody planted anything there! There, it was also our fishing zone, with ways of fishing artisanal, where we fished robacos and eels)!.

…talvez uma das razões porque chegámos à idade que hoje temos, fosse porque naquele tempo fazia parte da nossa dieta, galinhas, coelhos, perdizes, pombos e outras aves selvagens, assim como castanhas, alhos, cebolas, cereja selvagem, morangos silvestres, figos, hortelã e cenouras selvagens, amoras, que era o fruto das silvas, ervas e outras especiarias também selvagens, que era só apanhar da terra e comer, nem sequer se lavavam!. (Perhaps one of the reasons we have reached the age we have today, whether it was because of our diet, chickens, rabbits, partridges, pigeons and other wild birds, such as nuts, garlic, onions, wild cherries, wild strawberries, mint, figs and wild carrots, blackberries, which was the fruit of the silvas, herbs and other spices also wild, which was just to pick up from the earth and eat, not even washed)!.

…quando nascemos, a nossa mãe, que trabalhava na quinta, ao lado do nosso pai, para que não chorássemos, dáva-nos pão ensopado em vinho, para dormirmos numa canastra, que nos transportava para todo o lado!. Aos cinco anos, já ajudávamos nas lides de lavoura mais leves, aos sete, depois da escola primária, trabalhávamos ao lado deles, aos dez, já tínhamos o nosso trabalho destinado como se fôssemos um adulto, aos quinze, éramos uma personagem equiparada a um utensílio da quinta, tal como um animal doméstico ou uma parcela de terreno, pois tínhamos quase o mesmo tratamento se por algum caso ficássemos doentes, como tinha o porco ou as ovelhas, talvez até menos!. (When we were born, our mother, who worked on the farm next to our father, so that we would not cry, gave us bread soaked in wine, to sleep in a basket, which carried us everywhere! By the age of five, we were already helping with the lighter tillage, at seven, after elementary school, we worked alongside them, at ten, we already had our work as if we were an adult, at fifteen, we were a character assimilated to a like a domestic animal or a parcel of land, for we had almost the same treatment, if by any chance we were sick, like the pig or the sheep, perhaps even less)!.

…o pai António e a mãe Ilda, eram pessoas que nunca frequentaram uma escola, não sabiam ler, eram analfabetos, assinavam de cruz, receberam a educação dos seus pais, que a tinham recebido dos seus avós, que por sua vez a receberam dos seus visavós e, transmitiram-nos os princípios de família, que era sobrevivermos com o fruto do nosso honrado trabalho, não devíamos cobiçar as coisas que não nos pertenciam, não roubar ou tirar a vida a ninguém, ouvir os conselhos e respeitar os mais idosos, não maltratar os outros para que não nos maltratem a nós e, criar uma família, transmitindo-lhe a continuação destes princípios!. (The father Antonio and his mother Ilda, were people who never attended a school, could not read, were illiterate, signed a cross, received the education of their parents, who had received it from their grandparents, who in turn received from their masters, and transmitted to us the principles of family, which was to survive the fruit of our honorable work, we should not covet things that did not belong to us, steal or take the life of anyone, listen to the advice and respect the older people, do not mistreat others so that they do not mistreat us and create a family, conveying to you the continuation of these principles)!.

…a aldeia do Vale do Ninho d’Águia, era uma aldeia perdida no tempo, não havia dinheiro, os vizinhos ajudavam-se uns aos outros, mas dinheiro corrente não existia, estava longe, mesmo muito longe, do então país Portugal, onde existia um regime de protecção, onde só alguns, que eram os beneficiados pelo regime, os tais ricos invejosos, viviam com todos as regalias possíveis, escravizando, com receio de alguma pessoa pobre, fosse verificar o seu caixote do lixo e, alimentar-se com os restos, ou seja comer aquilo que essas pessoas invejosas, protegidas pelo governo de então, já fartos de todos os prazeres que a falsa vida lhes dava, deitavam fora, mas mesmo assim, com receio, não vá algum pobre sobrevier e ficar ao seu nível, isso nunca!. (The village of Valley of the Eagle’s Nest, it was a village lost in time, there was no money, the neighbors helped each other, but cash did not exist, was far, even far away, from the then country Portugal, where there was a regime of protection, where only a few, who were the beneficiaries of the regime, the envious riches, lived with all possible perks, enslaving, for fear of some poor person, to check their bin and food with the remains, that is to eat what those envious people, protected by the government of then, already fed up with all the pleasures that the false life gave them, they threw away, but even so, with fear, do not go some poor man over there and stay at your level, that never)!.

…damos o exemplo em que num ano em que o tempo não foi favorável para a agricultura, morreram alguns animais, a nós e aos vizinhos, as terras do pinhal não deram trigo ou centeio, a mãe Ilda, com alguma angústia, pois queria dar de comer aos filhos e não tinha, foi pedir dinheiro emprestado, para comprar um porco bebé, na “feira dos vinte e quatro”, que haveria de engordar e matar por altura do Natal, que seria o nosso governo para todo o ano!. A pessoa importante da vila que lhe emprestou alguns trocados, depois da mãe Ilda lhe bater à porta por duas vezes, pois da primeira estava sentado debaixo de uma frondosa árvore, em frente da sua casa de luxo, descansando, no fim talvez de um lauto almoço, mandou dizer pela empregada que lá trabalhava, que já era filha de uma antiga empregada, ninguém sabia desde quando, trabalhando pelo comer e vestir, mas continuava a ser uma fiel servidora, dizendo à mãe Ilda:

– o Senhor não pode ser incomodado agora, venha para a semana, Ilda!. Quer um bocado de broa?. Se quiser, eu vou buscar sem o senhor saber!. Ande, leve para os garotos, que devem de andar com fome!. Principalmente o mais novo, que gosta tanto da broa que eu às vezes lhe dou!. Quem me dera ter um filho assim!.

(We give the example that in a year when the weather was not favorable for agriculture, some animals died, to us and to the neighbors, the lands of the pine forest did not give wheat or rye, the mother Ilda, with some anguish, because wanted to feed his children and he did not, he went to borrow money, to buy a baby pig, in the “twenty-four fair”, which would fatten and kill by Christmas time, which would be our government for the whole year!. The important person in the village who lent him some change, after his mother Ilda knocked on the door twice, for the first one the Lord was sitting under a leafy tree in front of his luxurious house, resting, perhaps at the end of a long lunch, he told the maid who worked there, who was the daughter of a former maid, no one had known since, working for eating and dressing, but she remained a faithful servant, telling her mother Ilda:

– The Lord can not be troubled now, come in for the week, Ilda!. Want a piece of bread?. If you want, I’ll get it without the boss knowing! Go on, take to the boys, they must be hungry! Especially the youngest, who likes the bread so much that I sometimes give him!. I wish I had a son like that)!.

…a mãe Ilda, apareceu lá na semana seguinte, lastimando a sua sorte, o dito Senhor, além de uns grandes suspensórios, também usava um grande cinto segurando-lhe o estômago!. Depois de ouvir a mãe Ilda, quase suplicando, põe a sua mão no bolso da samarra com pele de raposa na gola, tira uma carteira recheada de notas, (para a mãe Ilda saber onde se encontrava o poder), dizendo-lhe:

– quanto precisas, rapariga?. Vocês não têm maneira de controlar a boca dos vossos filhos!.

…a mãe Ilda, a medo, disse-lhe quanto precisava, ao que ele respondeu:

– é só isso?. Espera que vou lá dentro, pois aqui não tenho trocado!.

…regressa com o dinheiro e um papel escrito que lhe estendeu, dizendo:

– assina de cruz aqui!. Ninguém sabe o dia de amanhã, com estas doenças novas, há morrer e viver!. Vocês, os pobres, andam sempre mal alimentados e, no caso de morte alguém há-de pagar!.

…a mãe Ilda, como não sabia ler, assinou de cruz um papel onde hipotecava todas as suas terras!. Pagou assim que foi possível, tendo que ir a casa do já referido Senhor três vezes, para por fim, reaver o papel que tinha assinado, pois a desculpe era que estava no banco da vila!. Era assim o sistema!. Pagava-se a dívida, mas ficáva-se devedor para o resto da vida, obrigando o pobre a andar de chapéu na mão, curvando-se, dando lugar na rua ao Senhor, que ambicionava que o tratassem por Vossa Excelência!.

(The mother Ilda, appeared there the following week, hurting her luck, the Lord, in addition to great braces, also wore a large belt holding her stomach!. After hearing her mother Ilda, almost pleading, put her hand in the pocket of the fur coat with fox fur on her collar, take out a wallet full of notes, (for her mother Ilda know where the power was), saying:

– How much do you need, girl?. You have no way to control the mouths of your children!.

Mother Ilda, in fear, told her how much she needed, to which he replied:

– That’s it?. Wait, I’m going inside, because I have not changed here!.

Returns with the money and a written paper that extended to him, saying:

– Sign the cross here! No one knows tomorrow, with these new diseases, there is dying and living! You, the poor, are always poorly fed and in the event of death someone will pay!.

Mother Ilda, as she did not know how to read, signed a cross on paper where she mortgaged all her lands! He paid as soon as possible, having to go to the house of the aforementioned Lord three times, in order to finally retrieve the paper that he had signed, for the excuse was that he was on the bank of the village!. That was the system!. The debt was paid, but he remained the debtor for the rest of his life, forcing the poor man to walk with his hat in his hand, bowing, giving place in the street to the Lord, who desired to be treated by Your Excellency)!.

…naqueles anos, quanto mais miséria no país Portugal, principalmente nas aldeias, mais força tinham esses Senhores, protegidos pelo sistema, governando e passando por cima de quem entendiam!. Em outras palavras, quanto mais miserávelmente vivessem as populações, melhor na vida se encontravam esses Senhores, controlando os bons empregos, a quem só a família e amigos tinham ascesso, beneficiando de toda a protecção e regalias que o governo de então lhes proporcionava!.

…outros tempos!.

(In those years, the more misery in the country Portugal, especially in the villages, the more powerful they were, protected by the system, ruling and passing over who they understood! In other words, the more miserably people lived, the better off in life were these Lords, controlling the good jobs, to which only family and friends had ascertained, benefiting from all the protection and perks that the then government gave them!

Other times)!.

Tony Borie, April 2018.

One thought on “…other times!

  1. Borie,

    Ate hoje, li tudo que escreveu. Fartei-me de rir quando li que quando o Borie era bebe sua mae lhe dava pao molhado em vinho para que o bebe dormi-se e ela podesse trabalhar. Gosto imenso de ler e muitas coisas eu posso relacionar com o que escreve, pois somos quase da mesma idade.

    Saude, Tess

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