…we woke up at five!.

…acordámos às cinco!. (we woke up at five)!.

…acordámos às cinco da madrugada!. Fizémos um chá, que bebemos bem quente, na nossa caneca preferida, que está quebrada na asa, portanto é segurada entre as mãos, que nos aqueceu, sobretudo o corpo e, talvez a alma, se é que ela existe!. (We woke up at five in the morning!. We made tea, which we drank very hot, in our favorite mug, which is broken in the wing, so it is held between our hands, which has warmed us, especially the body and, perhaps the soul, if it exists)!.

…não podemos resmungar sobre a nossa saúde, pelo contrário, alegramo-nos por ainda estar vivos e, também não nos vamos sentir tristes por o dinheiro não chegar até ao final do mês, pelo contrário, ficamos felizes por ainda termos memória para controlar as nossas finanças, encorajando-nos a planear as nossas compras com sabedoria, para nos guiarem para longe da catástrofe que era, não haver dinheiro para a medicina de manutenção, ou o fogão lá na cozinha, não trabalhar mais, por falta de arroz, massa, vegetais ou outros géneros alimentícios!. (We can not grumble about our health, on the contrary, we rejoice that we are still alive and we will not feel sad because the money does not arrive until the end of the month, on the contrary, we are happy that we still have memory for control our finances by encouraging us to plan our purchases wisely, to guide us away from the catastrophe that was, to have no money for maintenance medicine, or the stove in the kitchen, not to work anymore, for lack of rice, pasta, vegetables or other foodstuffs)!.

…saímos de casa, ainda é noite que tenta clarear, vamos lá fora ao pequeno jardim, tocamos numa rosa que tenta florescer, picamo-nos, não ficamos tristes porque aquela flor tem espinhos, pelo contrário, ficamos contentes porque aquela pequena árvore com muitos espinhos, é onde nascem aquelas bonitas rosas!. (We leave the house, it is still night that tries to clear, we go outside to the small garden, we touch a rose that tries to flourish, we sting, we are not sad because that flower has thorns, on the contrary, we are happy because that small tree with many thorns, is where those beautiful roses are born)!.

…entrámos em casa de novo, procuramos qualquer livro para ler, porque, pela manhã, aqueles noticiários da TV, é só desgraças!. Se for uma boa notícia, não transmitem, não tem interesse, não faz audiências, não entusiasma as pessoas, não as faz ficarem “excitadas”, portanto, quanto maior for a catástrofe, mais audiências existem e, para a competição entre as diversas estações de TV, isso é muito importante!. (We went home again, we look for any book to read, because, in the morning, those TV news, it’s only misfortunes!. If this is good news, they do not transmit, have no interest, do not audiences, do not enthuse people, do not make them “excited”, therefore, the greater the catastrophe, the more audiences there are, and, for competition between the various TV stations, this is very important)!.

…continuando, abrimos o nosso diário de guerra, sentamo-nos numa cadeira na parte de trás da nossa casa, onde sentimos alguma paz e onde algumas aves pela manhã sobrevoam, visitando-nos na procura de alguma água e comida!. Naquele diário, que continuamos a guardar quase religiosamente, vem lá escrito, não importa a página que abrimos, aqueles ataques ao aquartelamento, emboscadas, fornilhos que rebentaram, mortos, feridos e, todo aquele, blá, blá, blá, que os queridos leitores já conhecem, principalmente os antigos combatentes, onde alguns, infelizmente ainda sentem no seu próprio corpo!. (Continuing, we open our war diary, sit in a chair in the back of our house, where we feel some peace and where some birds fly in the morning, visiting us in search of some water and food!. In that diary, which we continue to keep almost religiously, it comes written, no matter the page we open, those attacks on the barracks, ambushes, fodder that burst, dead, wounded and, everyone, blah, blah, blah, that dear readers already know, especially the former combatants, where some unfortunately still feel in their own body)!.

…em determinada página, está escrito um texto, embora seja um pouco difícil de explicar, pois muitas palavras são ilegíveis e não encaixam, talvez fosse o desespero naquele dia menos feliz, tentámos colocar algumas palavras no seu verdadeiro lugar, assim como algumas vírgulas e pontos finais, cá vai:

“Hoje, dia 29 de Abril de 1965 – Estou triste, não vou escrever nada, mesmo nada, acordei com o mosquiteiro e a cama toda molhada!. Quando é que esta “porcaria” vai secar, estou triste e angustiado, estou aqui, junto destes jovens, é a mesma coisa que estivesse preso, pois estou rodeado de arame farpado e, para cúmulo, aquele janelo ainda não está acabado!. A chuva entra cá dentro, a culpa é do “Marafado”, (companheiro, militar de combate), que costuma lá pôr o casaco do camuflado, cheio de lama a secar e, esta noite não o fez, não sei porquê”!.

(On a certain page, a text is written, although it is a little difficult to explain, since many words are illegible and do not fit, perhaps it was despair on that less happy day, we tried to put some words in their true place, as some commas and endpoints, here goes:

“Today, April 29, 1965 – I’m sad, I’m not going to write anything, nothing at all, I woke up with the mosquito net and the bed all wet!. When this “crap” is going to dry up, I’m sad and distressed, I’m here, with these young people, it’s the same thing that was stuck, because I’m surrounded by barbed wire, still to the point, that window is not finished yet!. Rain enters inside, the fault is of the “Marafado”, (companion, combat military), who usually puts there the coat of the camouflaged, full of mud to dry and, tonight did not do it, do not know why”)!.

“Olha a minha sorte, sem o querer já estou a escrever, mas para quê, só vai sair “porcaria”, pois estou muito triste, passei a noite a sonhar que estava na minha aldeia, no Vale do Ninho d’Águia, naquela encosta agreste da montanha do Caramulo, onde próximo passava a estrada de Lisboa ao Porto”!. (“Look at my luck, without wanting to write, but for what, it’s going to be “crap”, because I’m very sad, I spent the night dreaming that I was in my village, in the Valley of the Eagle’s Nest, on that slope rugged mountain of Caramulo, where near passed the road from Lisbon to Porto”)!.

“A estrada estava renovada, o senhor Francisco, que era o cantoneiro, que os visinhos diziam que pela manhã colocava o carro de mão, a pá e a enxada, na beira da estrada, com a placa uns metros à frente, a dizer “obras”, só para marcar presença, indo de seguida cultivar umas leiras de terra seca, que também diziam que não eram dele, era da “JAE”, ou seja, da Junta Autómona das Estradas, que lhe pagava o ordenado, onde ele plantava, quase sempre fora do tempo, umas favas e às vezes tremoço, que os coelhos e as lebres selvagens comiam tudo, mesmo antes de nascer”!. (“The road was renewed, Mr. Francisco, who was the “cantoneiro” (person repairing the road), that the neighbors said that in the morning he would put the hand cart, the shovel and the hoe on the side of the road, with the sign a few meters ahead, say “man works”, just to make a presence, and then to cultivate some dry land, which also said that they were not his, was the “JAE”, that is, of the Autonomous Board of Roads, which paid him the wages, where he planted, almost always out of season, some fava beans and sometimes lupine, which rabbits and wild hares ate everything even before they were born”)!.

“No meu sonho, via o senhor Francisco, a tapar os buracos da estrada com areia e alcatrão, a que ele chamava “pixe”, depois começou a marcar a estrada, com tinta branca ou amarela, pois assim podia evitar acidentes, quando o carro dos bois do senhor Manuel Lagareiro, passasse pela camionete da carreira, que era mais larga, afrouxando naquela curva, onde havia uma árvore, que estava sempre com o tronco pintado de branco, mas onde o “pessoal do contra” (pessoas que não concordavam com o regime de governação colonial), lá iam colocar panfletos, às vezes até pinturas, com letras a dizer coisas que o senhor Francisco, que também todos diziam que era “Bufo”, palavra que na linguagem do povo, designava os informadores da polícia do estado e, às vezes alterado, dizia:

– Se sei, ou agarro o filho da puta, que escreve estas coisas, vou denunciá-lo à polícia e, não vê mais a luz do sol, vai para o “Tarrafal” (estabelecimento prisional de políticos, nas ilhas de Cabo Verde, em pleno Oceano Atlântico), com toda a certeza”!.

(“In my dream, I saw Mr. Francisco, covering the holes in the road with sand and tar, which he called “pixe”, then started marking the road with white or yellow paint, so that he could avoid accidents when the car of the oxen of Mr. Manuel Lagareiro, passed by the bus of the career, which was wider, loosening in that curve, where there was a tree, that always was with the trunk painted white, but where the “personnel of the against” (people who did not agree with the regime of colonial rule), there would be pamphlets, sometimes even paintings, with letters to say things that Mr. Francisco, who also all said was “Bufo”, a word that in the language of the people, designated police informers of the state and, sometimes altered, said:

– If I know, or I catch the son of a bitch who writes these things, I’m going to report him to the police and he does not see the sun, he goes to the “Tarrafal” (prison establishment of politicians, in the islands of Cape Verde, in the middle of the Atlantic Ocean), with all certainty”)!.

“Neste meu sonho, o pai António, lá ia pela estrada abaixo, descalço, levantava o braço a dizer “olá”, a toda a gente por quem passava, às vezes até tirava o chapéu roto e encurrilhado!. De repente, vem um carro preto e parou, dois homens grandes e feios, levaram-no à força, pois o pai António, apesar de analfabeto, também tinha fama de ser do “contra”!. Foi preso para uma prisão onde estavam muitos companheiros, cercada de arame farpado, onde a água da chuva entrava por um janelo roto e aberto, que naquela altura, não estava encoberto por um farrapo, que um companheiro lá punha todas as noites”!. (“In this dream of mine, my father, Antonio, was walking down the road, barefoot, raising his arm to say hello to everyone he passed by, sometimes he even took off his broken and curled hat!. Suddenly, a black car came and stopped, two big and ugly men, took him by force, because the father Antonio, although illiterate, was also reputed to be the “against”!. He was arrested for a prison where many companions were surrounded by barbed wire, where rainwater entered through a broken and open window, which at that time was not covered by a rag, which a companion put there every night”)!.

“Quando acordei, estava todo molhado, e era EU!. Felizmente não era o pai António, que tinha fama de ser do “contra”!. (When I woke up, it was all wet, and it was ME!. Luckily it was not the father Antonio, who was reputed to be the “against”)!

…hoje, lendo tudo isto, não ficamos tristes porque o pai António e a mãe Ilda, não nos deram mais quando estávamos crescendo, pelo contrário, sentimo-nos gratos, por terem permitido que viéssemos a este mundo!. (Today, reading all this, we were not sad because father António and his mother Ilda did not give us more when we were growing up, on the contrary, we felt grateful for allowing us to come to this world)!.

…neste momento, levantamos a cabeça, olhamos o céu, o que o dia de hoje será, depende só de nós!. Nós é escolhemos o tipo de dia que vamos ter e, a menos que existam outros planos, lembramo-nos sempre que, um “sorriso” fará com que os dias melhorem, nesta já avançada idade, no entanto, não ficamos nunca tristes porque temos que fazer alguns trabalhos domésticos, pelo contrário, compreendemos e ficamos felizes, por termos um lugar, a que ainda podemos chamar de “lar”!. (At this moment, we lift our heads, look at the sky, what today will be, it’s up to us! We are choosing the type of day we are going to have, and unless there are other plans, we always remember that a “smile” will make the days improve in this already advanced age, however, we are never sad because we have to do some housework, on the contrary, we understand and are happy, because we have a place, which we can still call home)!.

…tenham um óptimo dia, queridos leitores!. (Have a great day, dear readers)!.

Tony Borie, August 2018.

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