…eight years, six months and four days!

…oito anos, seis meses e quatro dias!. (eight years, six months and four days)!.

…um sorriso ou um simples acenar de “olá”, não custa nada, mas dá muito!. No entanto, não pode ser comprado, pedido, emprestado ou roubado, pois é algo que não tem valor para ninguém, até ser doado, no entanto faz mais felizes aqueles que o recebem, sem tornar mais pobres aqueles que o dão e, leva apenas um momento para o fazer, mas a lembrança disso às vezes dura para sempre!. (A smile or a simple wave of “hello”, it costs nothing, but gives a lot!. However, it can not be bought, borrowed, borrowed or stolen, since it is something that has no value to anyone until donated, nevertheless it makes those who receive it happier, without making poorer those who give it, and it only takes a time to do it, but the memory of it sometimes lasts forever)!.

…na nossa já um pouco avançada idade, um sorriso cria a felicidade em casa e traz descanso ao cansado, alegria para o desanimado, sol para o triste, sendo talvez um dos melhores antídotos da natureza para aqueles problemas, que principalmente as pessoas já sem muitas ocupações, recordam o seu passado, vivem das recordações e vivências de quando eram jovens, já cansadas demais para sorrirem, mas precisam de um sorriso para os estimularem e, ninguém é tão rico ou poderoso que se possa dar bem sem ele, assim como também ninguém é tão pobre, que não se sinta enriquecido por o receber!. (In our already somewhat advanced age, a smile creates happiness at home and brings rest to the tired, joy to the discouraged, sun to the sad, being perhaps one of nature’s best antidotes to those problems, especially people already without many occupations, remember their past, live from the memories and experiences of when they were young, too tired to smile, but need a smile to stimulate them, and no one is so rich or powerful that it can get along without him, just as no one is so poor that he does not feel enriched by receiving it)!.

…hoje, vamos recordar alguns momentos de infância, ou seja a linha entre a infância e a idade adulta, que normalmente é atravessada quando passamos de dizer, “os meus pais diziam-me que devo fazer assim”, passando a dizer, “eu penso que devo de fazer assim”!. Passamos a ser responsáveis pelas nossas atitudes, a entender e aceitar o papel das nossas escolhas e nas coisas que nos acontecem, que na verdade são aqueles normais sinais cruciais de maturidade emocional e moral!. Em outras palavras, trazem-nos a tal responsabilidade pelos nossos actos e atitudes, que irão ser no futuro um dos principais pilares do bom ou mau caráter que iremos ter na nossa futura vida de pessoas habitantes deste planeta!. (Today, let’s recall a few moments of childhood, that is the line between childhood and adulthood, which is usually crossed when we say, “my parents told me that I should do so”, going on to say, “I think I should do so”!. We become responsible for our attitudes, understanding and accepting the role of our choices and the things that happen to us, which are actually those normal crucial signs of emotional and moral maturity!. In other words, bring us to such a responsibility for our acts and attitudes, which will in future be one of the main pillars of good or bad character that we will have in our future lives of people on this planet)!.

…vamos então começar a odisseia que dá o título a este episódio, onde se explicam os “oito anos, seis meses e quatro dias”!. (Let’s start the odyssey that gives the title to this episode, where the “eight years, six months and four days” are explained)!.

…na manhã do dia 27 de Junho do ano de 1963, ainda jovens, “arrancaram-nos” daquela aldeia, lá na vertente agreste da Montanha do Caramulo, onde a crosta terrestre, lentamente começava a ser plana, flutuando por perto as zonas ribeirinhas do Rio Águeda, onde pela noite, não havendo luz eléctrica, se a terra tremesse, nascendo dos céus uma pequena luz, que seria uma qualquer estrela, talvez uma estrela nova, daquelas que fazem oscilar um continente, ninguém dava por isso!. (On the morning of June 27, 1963, still young, they “plucked” us from that village, there on the rugged slope of Caramulo Mountain, where the earth’s crust slowly began to be flat, the riverside areas of the River Águeda, where at night there was no electric light, if the earth trembled, a small light rising from the skies, which would be any star, perhaps a new star, those that make a continent flutter, no one knew)!.

…tocámos com as nossas jovens mãos nos ramos daquela pequena árvore que existia no largo do terreiro da aldeia, a qual carinhosamente chamávamos a “árvore das alegrias e dos problemas”, pois era ali que brincávamos quando crianças, nos zangávamos e nos abraçávamos, naqueles problemas e alegrias de jovens em crescimento, despertando para um futuro, na esperança que fosse risonho!. (We touched with our young hands on the branches of that little tree that existed in the village yard, which we affectionately called the “tree of joys and troubles”, because it was there that we played as children, we got angry and we hugged, in those problems and joys of growing young people, awakening to a future, in the hope that it would be laughable)!.

…a mando de um Governo Colonial, no País onde nascemos, lá na Europa, naquele cantinho à beira mar plantado que, ainda hoje dá pelo nome de Portugal, fomos durante dez meses e 26 dias, violados nos nossos princípios mais elementares de uma educação de família, em que os nossos pais nos ensinaram o valor das palavras “paz e amor”!. (At the behest of a Colonial Government, in the country where we were born, in Europe, in that little corner by the sea planted that still today gives the name of Portugal, we went for ten months and 26 days, violated in our most elementary principles of a family education, in which our parents taught us the value of the words “peace and love”)!.

…este miserável Governo Colonial, ignorando todos estes princípios de educação, recrutou-nos e treinou-nos, para fazer parte de um exército num País, onde um primeiro ministro de então, com uma mente com pensamentos políticos e sinistros, pensava que estava pronto para combater numa Guerra Colonial em África e, numa manhã neblulosa do dia 23 de Maio do ano de 1964, embarcaram-nos rumo à África, no Cais de Alcântara, na capital Lisboa!. (This miserable Colonial Government, ignoring all these principles of education, recruited us and trained us to be part of an army in a country where a prime minister of that time, with a mind with political thoughts and sinister thoughts, thought was ready to fight in a Colonial War in Africa, and on a foggy morning on May 23, 1964, they embarked for Africa on the Cais de Alcântara in the capital Lisbon)!.

…tudo isto mais ou menos explicado é que, num Quartel Militar da província, recebemos uma instrução básica, que era concentrada em saber defender-se e, como saber matar!. Matar de diferentes maneiras, usando diferente partes do corpo, onde se pode produzir uma morte rápida, ou prolongada!. O militar que proporcionava a instrução, tinha regressado, há pouco tempo de uma comissão de serviço, numa província do ultramar, contava histórias de combate, exemplificava, em cada um de nós, o local do corpo, em que devíamos acertar com uma bala, ou com uma faca!. Fazia isso, com tal precisão, com os olhos vidrados de raiva, que até nos assustava!. (All this more or less explained is that, in a Military Barracks of the province, we received a basic instruction, that was concentrated in knowing to defend itself and, like knowing to kill!. Kill in different ways, using different parts of the body, where one can produce a rapid, or prolonged, death!. The military man who had been instructed had recently returned from a service commission in an overseas province, telling stories of combat, exemplifying in each of us the place of the body where we were to hit with a bullet, or with a knife!. He did it, with such precision, with eyes glazed with rage, that even frightened us)!.

…terminada a instrução básica, fomos transferidos para uma base nos arredores da capital Lisboa, recebendo um pequeno treino de especialização onde, na classe de mentalização, constantemente nos diziam que éramos filhos da Pátria, em qualquer momento devíamos dar a vida pela Pátria, seríamos a partir desse momento um militar fora do normal, não devíamos dormir ou conviver com os normais militares, pois em caso de insónias, podíamos revelar segredos do estado, fazer perder uma guerra, éramos os “Cifras”!. Em cada dia de treino, mais responsabilidade nos colocávam, ao ponto de no final, pensar-mos que carregávamos nos ombros, o peso de dez milhões de Portugueses, que era a população do então Portugal, onde infelizmente existia um regime colonialista! (After finishing our basic education, we were transferred to a base in the outskirts of the capital of Lisbon, receiving a small training of specialization where, in the mentalization class, we were constantly told that we were children of the Motherland, at any moment we should give our lives for the Motherland , we would be from that moment a military out of the ordinary, we should not sleep or live with normal military, because in case of insomnia, we could reveal secrets of the state, make lose a war, we were the “Ciphers”! On each day of training, more responsibility placed us, to the point of the end, to think that we carried on the shoulders, the weight of ten million Portuguese, who was the population of then Portugal, where unfortunately a colonialist regime existed)!.

…nós, nascendo e vivendo na nossa aldeia, com uma educação de família, em que ouvíamos e respeitávamos os mais velhos, não tínhamos a menor ideia de que estes governantes, com pensamentos estúpidos, baixos e miseráveis, sem qualquer senso, onde o primeiro ministro do então país Portugal, com a sua mente cheia de motivos políticos, vem um certo dia para a televisão, em hora de grande audiência, (onde a televisão e rádio eram controladas pelo governo), falar ao tal “seu povo”, para que visse e ouvisse, dizendo:

– VAMOS PARA A GUERRA, AGORA E EM FORÇA!.

(We, being born and living in our village, with a family education, in which we listened and respected our elders, we had no idea that these rulers, with stupid thoughts, low and miserable, without any sense, where the prime minister of the then country Portugal, with his mind full of political motives, comes a certain day for television, at a time of great audience (where the television and radio were controlled by the government), speak to such “his people”, that he should see and hear, saying:

– LET’S GO TO WAR, NOW AND FORCE)!.

…nem tempo tivémos para nos despedir da família!. Sem dar por nada, tínhamos umas botas novas calçadas, estávamos vestidos de amarelo, uma boina castanha na cabeça, com um saco às costas e uma mala de cartão, no Cais de Alcântara de Lisboa, chorando sem lágrimas, pensando que já éramos um homem!. O navio apitou três vezes, chamando todos para bordo!. O apito era rude e de aflição, não era um apito bonito, como era o do comboio das seis e meia, quando passava vale abaixo em direcção ao mar, na nossa aldeia do Vale do Ninho d’Águia, lá na encostra agreste da montanha do Caramulo!. (Not even time we had to say goodbye to the family!. We had new boots on the feets, we were dressed in yellow, a brown beret on the head, with a bag on his back and a cardboard bag, on the Alcântara Quay in Lisbon, crying without tears, thinking that we were already a man!. The ship whistled three times, calling everyone aboard!. The whistle was rude and distressed, not a beautiful whistle, as it was the six-thirty train, as it passed down the valley toward the sea, in our village in the Valley of the Eagle’s Nest, on the rugged mountaintop of Caramulo)!.

…”em comissão militar por imposição”, (assim está escrito na nossa caderneta militar), entrámos no navio de carga “Ana Mafalda”, fretado pelo governo de então, tal como de uma qualquer mercadoria se tratasse, navegando para sul no Oceano Atlântico, com a missão de participar na Guerra Colonial em África, desembarcando na então Província Colonial da Guiné Portuguesa, sete dias depois, onde nos diziam que o nosso País Portugal se envolvia naquela, para nós maldita guerra, para defender a sua bandeira, o seu orgulho Colonial, de uma história com mais de quinhentos anos!. (“In military commission by imposition”, (this is written in our military cadet), we entered the cargo ship “Ana Mafalda”, chartered by the then government, as any merchandise, sailing south in the Atlantic Ocean, with the mission to participate in the Colonial War in Africa, landing in the then Colonial Province of Portuguese Guinea, seven days later, where they told us that our country Portugal was involved in that, for us damn war, to defend its flag, its Colonial pride, a history of more than five hundred years)!.

…era um navio comercial e pequeno, viajávamos no porão, em camas de madeira, construídas de emergência, colocadas em espaços improvisados, não havia ventilação, o cheiro prestilento provocava náuseas, todos vagueavam pelo convés, procurando algum ar fresco!. No primeiro dia no alto mar era de surpresa e admiração!. Muita água, de um lado e do outro, não dáva para compreender, não havia terra à vista, de vez em quando, passava um barco, lá ao longe e, apitava!. Ao terceiro, ou quarto dia, vimos ao longe as ilhas do Arquipélago de Cabo Verde, onde alguns peixes voadores, saíam da onda, e voavam uns segundos, desaparecendo noutra onda, alguns iam de encontro ao barco!. (It was a small commercial ship, we traveled in the basement, in wooden beds, built in emergency, placed in improvised spaces, there was no ventilation, the prestige smell made nauseous, everyone wandered the deck, looking for some fresh air!. The first day on the high seas was of surprise and admiration!. Lots of water, on one side and the other, could not understand, there was no land in sight, from time to time, a boat passed, far away and whistled!. On the third or fourth day, we saw in the distance the islands of the Archipelago of Cape Verde, where some flying fish left the wave, and flew for a few seconds, disappearing in another wave, some went against the boat)!.

…o convívio com futuros colegas militares começa a fazer-se!. Alguns perguntavam:

– de onde és?. Como te chamas?.

…se o nome era difícil de pronunciar, passava imediatamente a chamar-se pelo nome da sua aldeia, vila ou cidade, ou então da região onde nasceu, ou mesmo por qualquer aspecto, movimento, palavra ou reacção momentânia fora do normal que tivésse!. Assim, aparece em cenário de guerra, o “Bolinhas”, o “Açoriano”, o “Lisboa”, o “Matateu”, o “Setúbal”, o “Corcunda”, ou o “Morteiro”!. A nós, colocáram-nos o nome de “o Cifra”, talvez por causa da especialidade!.

(The conviviality with future military colleagues begins to be made!. Some asked:

– Where are you from?. What is your name?.

If the name was difficult to pronounce, it would immediately be called by the name of its village, town or city, or of the region where it was born, or by any aspect, movement, word or momentary reaction outside the normal that had!. Thus, the “Bolinhas”, the “Azorean”, the “Lisbon”, the “Matateu”, the “Setúbal”, the “Hunchback”, or the “Morteiro”!. To us, they put us the name of “the Cipher”, perhaps because of the specialty)!.

…passado sete dias, chegámos ao porto de destino!. Era manhã cedo, um nevoeiro fraco, mas quente, muito quente e húmido, não corria nenhuma aragem, era abafado!. Lá ao longe, algumas casas, um intenso arvoredo, verde e de outras cores, rente à água, com árvores gigantes aqui e ali!. O cais de desembarque, via-se a umas tantas centenas de metros do barco, não se se podendo atracar, apesar de o barco ser pequeno!. Nós militares, iamos sendo desembarcados em lanchas, que nos transportavam, assim como todo o equipamento militar, até ao cais!. (After seven days, we reached the port of destination!. It was early morning, a faint fog, but hot, very hot and humid, there was no wind, it was stuffy!. There in the distance, some houses, an intense grove, green and other colors, close to the water, with giant trees here and there!. The landing dock, one could see a few hundred meters of the boat, not being able to dock, although the boat is small!. We military men were disembarked in boats, carrying us, as well as all military equipment, to the docks)!.

…a força militar, da qual fazíamos parte, chamava-se “Comando de Agrupamento N.º 16”, constituído no Regimento de Infantaria N.º 1, na agora cidade de Amadora, em Portugal, sob o comando do Tenente-Coronel de Infantaria, José Augusto Henriques Monteiro Torres Pinto Soares, adoptando a Divisa “Junto Venceremos”!. Assumiu a responsabilidade da Zona Oeste da então Província Colonial da Guiné, em Junho do ano de 1964, quando ainda se encontrava na capital Bissau, que abrangia os sectores dos Batalhões instalados nas aldeias de Buba, Farim e Mansoa, que dependiam do Comando Territotorial, assim como todos os Comandos de Batalhão!. (The military force, of which we were part, was called “Command of Grouping No. 16”, constituted in Infantry Regiment No. 1, in the now city of Amadora, Portugal, under the command of Lieutenant- Colonel of Infantry, José Augusto Henriques Monteiro Torres Pinto Soares, adopting the motto “Together we will Venceremos!”. He assumed responsibility for the West Zone of the then Colonial Province of Guinea in June 1964, while still in the capital Bissau, which covered the sectors of Battalions installed in the villages of Buba, Farim and Mansoa, which depended on the Territorial Command, as well as all Battalion Commands)!.

…em Julho do ano de 1964, instalámo-nos na aldeia de Mansoa, numas ruínas de um antigo convento de uma seita religiosa Francesa, sendo então criados na Zona Oeste, os sectores das aldeias de Mansabá e de Teixeira Pinto, em diferentes datas, com vista ao incremento operacional, pois a guerra desenvolvia-se rápidamente e, cuja actividade foi direccionada, especialmente para as regiões do Morés, Mansabá, Bissorã e Olossato!. Em outras palavras, pertencíamos a um comando sem armas, mas que infelizmente directa ou indirectamente dava ordens para matar!. (In July 1964, we settled in the village of Mansoa, in the ruins of a former convent of a French religious sect, and the sectors of the villages of Mansabá and Teixeira Pinto were dates, with a view to the operational increase, since the war was developing rapidly, and whose activity was directed, especially for the regions of Morés, Mansabá, Bissorã and Olossato!. In other words, we belonged to a command without weapons, but that unfortunately directly or indirectly gave orders to kill)!.

…estávamos num cenário de guerra, em África, onde a sorte nos podia contemplar com uma morte horrível, destruindo o nosso jovem corpo, crivado de balas ou destruído na explosão de uma granada de morteiro 90, numa qualquer emboscada, naqueles pântanos, rios, florestas ou savanas daquela África, onde lutávamos contra pessoas rurais, que nunca tínhamos visto antes, nunca tínhamos tido qualquer contacto e no nosso pensamento, não encontrávamos qualquer razão para os combatermos!. (We were in a war scenario in Africa, where luck could contemplate us with a horrible death, destroying our young body, riddled with bullets or destroyed in the explosion of a mortar grenade 90, in any ambush, in those marshes, rivers, forests, or savannas of Africa where we fought against rural people whom we had never seen before, we had never had any contact and in our thinking we could find no reason to fight them)!.

…andámos por savanas de terra vermelha, rios de lama e tarrafo, atravessámos pântanos de água fedorenta, coberta de mosquitos, sofremos emboscadas, ataques selvagens dos guerrilheiros, tivémos desastres, tanto aéreos como terrestres, fomos feridos em combate, vendo jovens companheiros feridos e mortos, alguns enterrados dentro do seu camuflado sujo do seu próprio sangue, sofremos humilhações, passámos fome, sede, mêdo, angústia, sofrimento, doenças, isolados, sem qualquer esperança de vida, sem medicamentos ou assistência médica, sem higiene, sobrevivendo num campo de desespero, onde em alguns momentos, a fé em algo que imaginávamos que existia, o álcool ou os cigarros feitos à mão, nos proporcionavam algum conforto, trazendo alguma paz à nossa alma!. (We walked through grassland savannas, rivers of mud and mud, we crossed marshes of stinking water, covered with mosquitoes, we suffered ambushes, wild attacks of the guerrillas, we had disasters, both aerial and terrestrial, we were wounded in combat, seeing young comrades wounded and dead, some buried inside their dirty camouflage of their own blood, we suffered humiliation, we went hungry, thirsty, afraid, distress, suffering, diseases, isolated, without any hope of life, without medicines or medical assistance, without hygiene, surviving in a field of despair, where at times the faith in something we imagined existed, alcohol or handmade cigarettes, gave us some comfort, bringing some peace to our soul)!.

…no princípio do segundo ano da nossa presença em África, as forças militares que faziam parte do nosso Comando de Agrupamento, pelo menos aquelas que estavam estacionadas na frente de combate, na zona Oeste, eram fustigadas com muita frequência, estavam cansadas, um período de dois anos numa zona de combate, com um clima húmido e quente, com uma época de chuvas teorrenciais que alagava algumas zonas, formando pântanos que imediatamente se cobriam de mosquitos, que mordendo infectavam o corpo!. (At the beginning of the second year of our presence in Africa, the military forces that were part of our Group Command, at least those that were stationed at the front in the West, were frequently beaten, tired, of two years in a combat zone, with a humid and hot climate, with a time of teorrencial rains that flooded some zones, forming swamps that immediately covered of mosquitoes, that biting infect the body)!.

…os helicópteros voavam para lá quase diáriamente, recolhendo doentes, feridos ou mortos, o nosso equipamento militar era inferior ao dos guerrilheiros, começavam a ver a guerra de guerrilha agressiva e violenta, com que os guerrilheiros que lutavam pela independência do seu território usavam, como uma séria ameaça!. Nós falávamos, havia um precentimento em muitos militares das nossas forças de combate, onde se considerava que era uma questão de tempo, pois a aquela guerra estava perdida!. (The helicopters flew there almost daily, picking up the sick, wounded or dead, our military equipment was inferior to that of the guerrillas, they began to see aggressive and violent guerrilla warfare, with which the guerrillas who fought for the independence of their territory they used, as a serious threat!. We were talking, there was a premonition in many of our combat troops, where it was considered a matter of time, for that war was lost)!.

…aliás, estava perdida mesmo antes de começar, pois além de eles, os guerrilheiros, conhecerem e se sentirem confortáveis naquele terreno de terra vermelha, onde naquela região de África, era plano, coberto de pântanos, com corredores entre densa floresta ou terras alagadas, (onde se calcava lama, ou uma água morna, parada e coberta de mosquitos, que exalava um mau cheiro muito intenso, que a nós Europeus, nos causava tonturas, desmoralização e mau estar, eles, os guerrilheiros, já tinham armas sotisficadas para a época, tinham planos de ataque, conheciam o terreno em que se movimentavam, atacavam os diversos aquartelamentos das tropas Portuguesas, que existiam em lugares considerados estratégicos!. (In fact, it was lost even before it began, for besides them the guerrillas knew and felt comfortable in that red earth terrain, where in that region of Africa, it was flat, covered with marshes, with corridors between dense forest or muddy ground, or a warm, still water covered with mosquitoes, which exuded a very intense odor, which to us Europeans caused us dizziness, demoralization and malaise, they, the guerrillas, already had weapons they had plans of attack, knew the terrain in which they moved, attacked the various barracks of the Portuguese troops, which existed in places considered strategic)!.

…colocavam minas e fornilhos nos corredores de ascesso às suas bases, que às vezes eram a única via que existia, por entre os pântanos, para qualquer ser humano se deslocar de uma aldeia para outra!. As tropas Portuguesas encontravam-se na pior posição, para avançar e identificar com precisão a sua localização no terreno, onde ou existia selva cerrada, pântanos ou canais, com água, lama e tarrafo e, eram frequentemente atacados, em certos pontos considerados estratégicos, quando atravessavam os rios ou canais, onde havia os “macaréus”, (grande vaga impetuosa que, em certos rios, se forma quando as águas desse mesmo rio se encontram com as água do mar), algumas vezes até animais perigosos, como por exemplo crocodilos, onde em algumas situações o inimigo, tirando alguma vantagem, surgia de todos os lados, atacando, disparando, sem dar qualquer oportunidade para que se recuperasse os nossos mortos ou feridos!. (They put mines and fodder in the corridors of ascession to their bases, which were sometimes the only way that existed, among the marshes, for any human being to move from one village to another!. The Portuguese troops were in the worst position to advance and accurately identify their location on the terrain, where there were either closed jungle, marshes or canals, with water, mud and tarrafo and were often attacked at certain points considered strategic, when they crossed the rivers or channels, where there were the “macaréus”, (great impetuous wave that, in certain rivers, is formed when the waters of the same river meet with the water of the sea), sometimes even dangerous animals, for example crocodiles, where in some situations the enemy, taking some advantage, appeared from all sides, attacking, firing, without giving any opportunity to recover our dead or wounded)!.

…os nossos companheiros mortos, ficavam sepultados neste horrível cenário para sempre, onde não existiam condições, para se tentar recuperar qualquer morto ou ferido, pois as vítimas, deviam ser puxados para algum tipo de posição onde houvesse alguma segurança, para serem tratados e, levar um homem ferido ou morto, requer até quatro homens como portadores, o que também enfraquecia uma unidade militar num momento crítico, portanto esses infelizes militares, quando eram atingidos, alguns deles, por lá ficavam para sempre!. (Our dead companions were buried in this horrible scenario forever, where there were no conditions, to try to recover any dead or injured, since the victims were to be pulled into some sort of position where there was some security, to be treated and carrying a wounded or dead man requires up to four men as carriers, which also weakens a military unit at a critical moment, so these unhappy soldiers, when they were hit, some of them, stayed there for ever)!.

…os guerrilheiros sabiam disto, estavam bem treinados, agressivos e equipados com uma preponderância de armas automáticas com muitas munições, e nós, “éramos quase uns soldados sem um país”, para ali mandados, para longe das aldeias, vilas ou cidades onde nascemos, para longe do nosso continente, treinados à pressa e mal, com equipamento de combate quase absoleto, mal alimentados ou sem assistência médica, desmoralizados, vendo morrer os nossos companheiros, que ficaram ali enterrados na lama dos pântanos para sempre!. Alguns comandantes diziam, “que as tropas em cenário de guerra, não deviam ficar tão preocupadas com as baixas, para que esqueçam o inimigo, pois podiam naquele momento crítico, sofrer mais baixas na tentativa de recuperar ou ajudar os seus feridos”!. Naquela época, “éramos quase uns soldados sem um país”!. (The guerrillas knew this, were well trained, aggressive and equipped with a preponderance of automatic weapons with lots of ammunition, and we, “we were almost soldiers without a country”, sent there, away from villages, towns or cities where we were born, away from our continent, trained in haste and evil, with combat equipment almost stale, ill fed or without medical assistance, demoralized, watching our companions die, who were buried there in the marsh mud forever!. Some commanders said, “that the troops in a war scenario should not be so preoccupied with casualties as to forget the enemy, for they could at that critical moment suffer more casualties in an attempt to recover or help their wounded”!. At that time, “we were almost soldiers without a country”)!.

…também naquela época, as aldeias do interior estavam quase desabitadas, cuja população era normalmente composta por crianças, raparigas, mulheres e idosos, porque os rapazes ou homens não viviam nas aldeias, eram os guerrilheiros, que nos atacavam nas emboscadas e nos ataques mortíferos ao aquartelamento, lutando pelo seu ideal, pela sua terra prometida, pelo seu imaginável, pelo seu fantástico sonho de correr de vez com as pessoas (que a história universal lhes ensinou), que entre outras coisas lhe tinham escravizado os seus avós!. (Also at that time, inland villages were almost uninhabited, whose population was usually composed of children, girls, women and the elderly, because the boys or men did not live in the villages, they were the guerrillas, who attacked us in ambushes and deadly attacks to the quartering, fighting for his ideal, for his promised land, for his imaginable, for his fantastic dream of running with people (universal history taught them), who among other things had enslaved his grandparents)!.

…na África daquele tempo, ainda um pouco selvagem, também tivémos alguns momentos de menos tristeza, que eram proporcionados pelo convívio com o seu povo rural, também sofredor, com mêdo da guerra, sem esperança, sem condições de uma vida normal, sem possibilidades de alimentar ou levar os seus filhos à escola, sem possibilidades de cultivar um chão fértil, que estava a ser contaminado pelas bombas de “napalma”, que eram largadas pelos aviões da força áerea Portuguesa, ou pelas minas e fornilhos dos guerrilheiros, que eram colocadas em alguns lugares estratégicos de passagem ou ascesso a lugares onde se podia procurar a base principal da sua sobrevivência, que eram a pesca nos rios ou o cultivo do arroz, nas “bolanhas” (pântanos)!. (In Africa of that time, still a little wild, we also had some moments of less sadness, which were provided by the conviviality with its rural people, also suffering, in fear of war, without hope, without conditions of a normal life, without the possibility of feeding or taking their children to school, without the possibility of cultivating a fertile ground, which was being contaminated by the “napalma” bombs, which were dropped by Portuguese air force planes, or by the mines and fires of the guerrillas, that were placed in some strategic places of passage or ascertainment to places where one could look for the main base of their survival, that was the fishing in the rivers or the cultivation of the rice, in the “bolanhas” (marshes)!.

…a nossa desmoralização aumentava, ao ver aquele povo rural e humilde, sofredor e carinhoso, que embora vivendo numa profunda miséria, tinham alguma alegria que repartiam connosco!. Da pouca comida que por vezes lhes levávamos, repartiam com os cães ou outros animais, que por ali andavam magros e cobertos de moscas!. As pessoas tinham bons sentimentos, eram sinceras e talvez derivado ao ambiente natural onde viviam, eram puras e, como já dissémos por diversas vezes, eram um pouco parecidas com as gazelas e outros animais selvagens, pois só depois de verem os sentimentos de outra pessoa estranha, cheirarem o seu corpo e sentirem o sabor da pele, é que se dedicavam, mas quando isso acontecia, não mais largavam essa pessoa, pois já a consideravam parte da sua família!. (Our demoralization increased as we saw those rural and humble people, suffering and caring, who, although living in deep misery, had some joy that they shared with us!. From the little food we sometimes took them, they shared with the dogs or other animals, who were walking around thin and covered with flies!. The people had good feelings, they were sincere and perhaps derived from the natural environment where they lived, they were pure and, as we have said several times, they were a little like gazelles and other wild animals, because only after seeing the feelings of another person strange, smell their body and taste the skin, they dedicated themselves, but when this happened, they would not leave that person anymore, because they considered it a part of their family)!.

…com o desenvolvimento da guerra, o movimento de militares Europeus aumentou, tanto em toda a zona Oeste, que era a área comandada pelo nosso Comando de Agrupamento, como no nosso próprio aquartelamento, que já era considerado um “posto avançado”, pois era a partir daqui, seguindo para o interior, que começava a verdadeira zona de combate!. (With the development of the war, the European military movement increased, both throughout the West, which was the area commanded by our Group Command, as in our own quarters, which was already considered an “outpost” since it was from here, heading inland, which began the real combat zone)!.

…bem ou mal treinados, frequentemente chegavam novos militares, a população quase que triplicou em alguns dias, eram centenas de militares em constante movimento, com as viaturas ocupando todos os espaços!. Era uma barafunda, já ninguém se conhecia, no dormitório colocaram mais do dobro das camas, naquele momento existem dois andares de camas, muito chegadas umas às outras, com roupa camuflada, alguma molhada, a secar, colocada em cima dos mosquiteiros e em outros locais, daqueles militares que iam chegando das diversas patrulhas e operações de combate, em que constantemente eram chamados a intervir!. (Well or badly trained, often new soldiers arrived, the population almost tripled in a few days, were hundreds of soldiers in constant movement, with the vehicles occupying all spaces!. It was a mess, no one knew each other, and in the dormitory they placed more than double the beds, at that moment there are two floors of beds, very close to each other, with clothes camouflaged, some wet, to dry, placed on the mosquito nets and in other local, of those soldiers who were coming from the various patrols and combat operations, where they were constantly called upon to intervene)!.

…com toda esta vivência, já nos considerávamos “outra pessoa”, com diferente “atitude”, um pouco mais frios, desconfiados, talvez um pouco calculistas, com mêdo de tudo e de todos, pelo menos enquanto não houvesse conhecimento do cenário em que nos encontrávamos naquele momento, não sorriamos frequentemente, no nosso corpo e talvez na nossa alma, já existiam algumas “marcas”, não éramos mais aquele jovem risonho e amável que saíu da nossa aldeia, lá encosta agreste da montanha do Caramulo, naquele Portugal da Europa distante!. (With all this experience, we already considered ourselves “another person”, with different “attitude”, a little colder, distrustful, perhaps a little calculating, with fear of everything and everyone, at least until there was knowledge of the scene in which we were at that moment, we did not smile often, in our body and perhaps in our soul, there were already some “marks”, we were no longer that smiling and kind young man who left our village, on the rugged slope of Caramulo Mountain, in that Portugal of distant Europe)!.

…continuando!. Já lá iam, um ano, onze meses e 14 dias de sobrevivência!. Andávamos desesperados em alguns dias!. Falava-se pouco, comia-se menos, bebiamos e fumávamos muito!. Já tínhamos feito e desfeito, pelo menos quatro vezes a mala de papelão e fibra nos cantos, amarrada com uma corda, que já conhecia o som de uma metralhadora disparando ou a explosão de uma granada, o sabor da chuva torrencial que inundava o aquartelamento ou o calor infernal daquela savana africana onde a terra era vermelha, nunca se lamentando pelos maus tratos a que sempre foi sujeita, já sem dobradiças ou a fechadura, que tinham sido comidas pela ferrugem!. (Continuing!. Already they were going, one year, eleven months and 14 days of survival!. We were desperate in a few days! We talked a little, we ate less, we drank and we smoked a lot!. At least four times we had made and unpacked the cardboard bag and fiber in the corners, tied with a rope, which already knew the sound of a firing machine gun or the explosion of a grenade, the taste of the torrential rain that inundated the barracks or the infernal heat of that African savannah where the earth was red, never lamenting for the ill-treatment to which it was always subjected, without hinges or the lock, which had been eaten by the rust)!.

…estávamos quase no fim da nossa “comissão militar no Ultramar por imposição” e, sempre havia falsas notícias de regresso!. Um dia, o comandante reúne todo o Comando, no centro do aquartelamento, que ajudámos a construir, pintado de algumas cores, onde incluímos a cor do sangue de alguns companheiros que por lá ficaram para sempre, enterrados dentro do seu próprio camuflado crivado de balas ou destruído por uma qualquer explosão de uma mina ou fornilho, e diz-nos entre outras coisas:

– Obrigado a todos pelo vosso sacrifício e dedicação em defesa da nossa Pátria!. Vamos regressar à Europa na próxima semana!. O comando que nos vem substituir, já saiu de Portugal e, regressaremos no mesmo barco!.

(We were almost at the end of our “overseas military commission by imposition” and there was always false news of return!. One day the commander gathers the whole Command, in the center of the barracks, which we helped to construct, painted in some colors, where we included the color of the blood of some companions who were forever buried inside their own camouflage, riddled with bullets or destroyed by any blast from a mine or fornillo, and tells us among other things:

– Thank you all for your sacrifice and dedication in defense of our Motherland!. Let’s go back to Europe next week!. The command that comes to replace us, has already left Portugal and we will return in the same boat)!.

…dois dias depois volta a reunir o comando e diz, ainda mais emocionado:

– Já não iremos para a semana que vem, pois o comando que vem a caminho foi destacado para outra zona, onde a guerra se está a desenvolver cada vez com mais intensidade, mas prometo-vos que iremos na próxima viagem que o navio “Uige” fizer!. Têm a minha palavra!.

(Two days later returns to gather the command and says, even more excited:

– We will not go to next week, because the command that is on the way has been posted to another zone, where the war is developing more and more intensely, but I promise you that we will go on the next trip that the ship “Uige” done!. You have my word)!.

…todos ficaram desolados, menos o companheiro “Curvas, alto e refilão”, que logo murmurou:

 – Aqui, estou na guerra, mas tenho a vossa companhia, são a família que nunca tive, mas agora que nos vamos separar, é que dou o valor ao que é uma família!. Lá em Portugal, sem vocês, vou ser um desgraçado, sem amigos nem ninguém!.

(All were desolate, except the companion “Curvas, high and complicative”, that soon murmured:

– Here, I am in the war, but I have your company, they are the family that I never had, but now that we are going to separate, I value what a family is! There in Portugal, without you, I will be a bastard, without friends or anyone)!.

…continuando, agora a mala de papelão e fibra nos cantos, estava feita, feita de vez!. Estava ao lado da cama, pois só usávamos o saco de lona!. Alí colocávamos o resto dos trapos, que era a nossa farda do dia-a-dia, uns calções com algumas “nódoas”, que não eram visíveis a olho nú, pois eram “nódoas de medo” que sentimos algumas vezes, quando éramos atacados durante a noite por granadas de morteiro e rajadas de metralhadora!. Junto com esses trapos, também guardávamos uma camisa e um par de meias rotas na frente, assim como as botas melhores, no fundo do saco, tudo para o tão desejado dia de regresso!. O resto da farda, demos a uma família amiga, que vivia numa aldeia próximo do aquartelamento!. (Continuing, now the cardboard bag and fiber in the corners, was done, done of time!. It was at the side of the bed, because we only used the canvas bag! There we put the rest of the rags, which were our day-to-day uniforms, some shorts with some “bruises” that were not visible to the naked eye, because they were “stains of fear” that we sometimes felt when we were attacked during the night by mortar grenades and machine gun bursts!. Along with these rags, we also kept a shirt and a pair of broken socks on the front, as well as the best boots, in the bottom of the bag, all for the much desired return day!. The rest of the uniform, we gave to a friendly family, that lived in a village near the quartering)!.

…nesse momento, tal como os nossos companheiros, só pensávamos no regresso à Europa, na nossa aldeia, em ver de novo a nossa família!. Andávamos um pouco exitados, no entanto todos sabíamos que era melhor não nos meter em zaragatas, não nos provocar mútuamente, pois se tal acontecesse, iria haver um desastre, pois a nossa mente já estava cansada do aquartelamento militar, do arroz com peixe da bolanha, dos tiros, dos rebentamentos, dos estilhaços, dos abrigos cheios de lama e água suja, da farda camuflada e rota, das ordens, da obediência, onde não podia haver um simples não!. (At that moment, like our companions, we only thought of returning to Europe, our village, to seeing our family again!. But we all knew that it was better not to bump into each other, not to provoke each other, for if this were to happen, there would be a disaster, for our mind was already tired of military barracks, rice and fish from the bolanha shots, shrapnel, shacks filled with mud and dirty water, camouflaged and broken uniform, orders, obedience, where there could not be a simple no)!.

…em caso de uma simples provocação, ninguém sabia como ia responder, pois ainda se vivia num cenário onde havia armas e granadas por tudo o que era lugar, que usadas, podiam matar pessoas!. Às vezes pensávamos só para nós que, estávamos com um fraco carácter, mesmo muito pior que o companheiro “Curvas, alto e refilão”!. (In the event of a simple provocation, no one knew how to respond, because it was still a scene where there were weapons and grenades for everything that was used, they could kill people!. Sometimes we thought only to ourselves that we were with a weak character, even worse than the companion “Curvas, high and complicative”)!.

…no entanto, passado dezoito mais dias, no meio de todo este desespero, o tão esperado e desejado dia chegou!. Fomos nós próprios que decifrámos a mensagem!. Não ficámos contentes nem tristes, uma onda de nostalgia percorreu-nos todo o corpo, fechámos os olhos, erguemos as mãos para cima e exclamámos emocionados, “OBRIGADO”!. (However, past eighteen more days, in the midst of all this despair, the long awaited and desired day has come!. We were the ones who deciphered the message! We were neither happy nor sad, a wave of nostalgia ran all over us, we closed our eyes, raised our hands up and exclaimed excited, “THANK YOU!”)!.

…no dia 11 de Maio do ano de 1966, por volta das dez horas da manhã, a coluna militar estava pronta a seguir para a capital Bissau!. Houve alguns abraços de despedida, demos algumas moedas a alguns africanos que foram nossos companheiros, demos também um último olhar pelo aquartelamento militar que ajudámos a construir, mas que nunca nos pareceu tão selvagem, todo cercado de arame farpado, tal qual um campo de concentração, como naquela hora de despedida!. (On May 11, 1966, around 10 o’clock in the morning, the military column was ready to go to the capital Bissau!. There were a few hugs of farewell, we gave some coins to some Africans who were our companions, we also took a last look at the military barracks that we helped to build, but that never seemed so wild, all surrounded by barbed wire, just like a concentration camp, like at that farewell hour)!.

…a coluna militar, percorreu os setenta quilómetros até à capital Bissau, largando o nosso Comando de Agrupamento no cais de embarque!. Aí permanecemos dois dias, tempo que durou o desembarque das tropas novas com o seu equipamento militar e, o embarque das tropas velhas, que era feito em lanchas pequenas do cais para o barco!. (The military column, traveled the seventy kilometers to the capital Bissau, dropping our Group Command at the boarding pier!. We stayed there for two days, a time that lasted the landing of the new troops with their military equipment, and the embarkation of the old troops, which was done in small boats from the quay to the boat)!.

…o nosso Comando de Agrupamento, não chegava a trinta militares, sendo mais de dois terços os militares graduados!. Enquanto esperámos pelo embarque, alguns dormimos na fortaleza de S. José da Amura, onde estava a polícia militar estacionada e onde o Governador da província se deslocou, com todo o seu aparato militar, para dar a todos umas insígnias com as cores da bandeira portuguesa, dizendo que representavam a medalha da campanha militar da Guiné, pois não havia medalhas para todos!. Ainda hoje guardamos essas insígnias como um “amuleto de boa sorte”!. (Our Group Command, did not reach thirty soldiers, with more than two-thirds military graduates!. While we waited for the embarkation, some of us slept in the fortress of S. José da Amura, where the military police were stationed, and where the Governor of the province went with all his military apparatus, to give all of them some insignia with the colors of the Portuguese flag, saying that they represented the medal of the military campaign of Guinea, because there were no medals for all!. Even today we keep these insignia as a “good luck charm”)!.

…reparem que naquela época, estávamos num cenário de combate, defendendo a Pátria e não havia medalhas para todos, no entanto hoje, no ano de 2018, o actual Presidente da República de Portugal, condecora atletas milionários, ou qualquer outra pessoa, por isto ou por aquilo, talvez até, simplesmente porque simpatiza com essas personagens, o importante é que o momento seja visto na televisão!. (To realize that at that time, we were in a battle scenario, defending the homeland and there were no medals for everyone, however today, in 2018, the current President of the Republic of Portugal, decorates millionaire athletes, or anyone else, for this or that, maybe even, simply because he sympathizes with these characters, the important thing is that the moment is seen on television)!.

…bem, vamos continuar!. Todos os haveres dos militares do nosso comando estavam num grande monte, quase à entrada do cais de embarque, sendo guardados por militares que faziam a sua guarda por turnos, pois iam regressando do interior outras unidades para embarcar, que faziam o mesmo e, deste modo, antes do embarque quase todo o cais estava ocupado por diversos montes de malas e sacos!. Era um pandemónio, mas era um pandemónio feliz, pois avistava-se o barco ao longe, que nos havia de levar de regresso à Europa!. (Well, let’s continue!. All the assets of the military of our command were on a large hill, almost at the entrance of the embarkation dock, and were guarded by military personnel who kept their guard in turns, since other units were returning from the interior to board, so, before boarding almost all the dock was occupied by several piles of suitcases and bags!. It was a pandemonium, but it was a happy pandemonium, because the boat was seen in the distance, that would take us back to Europe)!.

…chegou o grupo do “Furriel Miliciano”, a fumar um cigarro feito à mão, onde vinha o “Setúbal”, o “Curvas, alto e refilão”, o “Trinta e Seis”, o “Marafado”, o “Mister Hóstia” e outros, claro, a partir daí, o pandemónio passou a ser maior!. Estávamos vestidos e rodeados de equipamento militar, mas já nos sentíamos pessoas civis, andando pela cidade, bebendo, passeando, fazendo algumas compras, onde nós comprámos uma boina nova e uns sapatos à nossa medida!. O “Curvas, alto e refilão”, caminhando sempre na frente, procurando ser o chefe, dizia:

– É tudo muito lindo para vocês!. Mas eu vou perder a minha família, que são todos vocês!.

…e num momento em que devia de haver alguma alegria, ele chorava, fazendo-nos chorar, assim como os seus companheiros!.

(Arrived the group of “Furriel Miliciano”, smoking a handmade cigarette, where came the “Setúbal”, “Curvas, high and complicative”, “Thirty Six”, “Marafado”, ” Mister Hóstia “and others, of course, from there, the pandemonium happened to be greater!. We were dressed and surrounded by military equipment, but we were already civilians, walking around the city, drinking, walking, doing some shopping, where we bought a new beret and shoes to suit us!. The “Curvas, high and complicative”, walking always ahead, trying to be the boss, said:

– It’s all very beautiful for you!. But I’m going to lose my family, that’s all of you!.

And in a moment when there must be some joy, he cried, making us cry, as did his companions)!.

…já por diversas vezes falámos aqui do leal companheiro “Curvas, alto e refilão”!. Era um jovem, que apareceu em cenário de guerra, depois de ter passado pelas prisões da capital Lisboa por pequenos delitos de furto e, quando chegou a idade do serviço militar obrigatório, o então governo colonial de Portugal, lhe deu a escolher, ou continuava na prisão ou ia cumprir o serviço militar, e claro, como estávamos em guerra, era certo que depois de algum treino militar iria combater em África!. A nós, em alguns momentos menos felizes, chorava e desabafava connosco, contando-nos a sua vivência, pois em criança foi abandonado pela sua mãe que andava na “vida”, (prostituição), nunca teve ninguém que lhe limpasse o ranho do nariz ou lhe perguntasse se tinha fome!. (Several times we spoke here of the loyal companion “Curvas, high and complicative”!. He was a young man, who appeared in a war scene, after having passed through the prisons of the capital of Lisbon for small petty offenses, and when he reached the age of compulsory military service, the then colonial government of Portugal, gave him to choose, or continued in prison or were going to serve the military, and of course, as we were at war, it was certain that after some military training would fight in Africa!. To us, in some moments less happy, she cried and was talking to us, telling us about her life, since she was abandoned by her mother who was in “life” (prostitution), she never had anyone to clean her nose or asked if he was hungry)!.

…vivia entre outras coisas, usando uma caixa de engraxar sapatos alugada no sindicato, no turno da noite à porta de bares e casas de alterne, em redor de algum crime organizado que o explorava, assim como a outras crianças na mesma situação!. Foi condecorado com uma medalha de Cruz de Guerra, pela sua valentia em combate defendendo os seus companheiro, que o respeitavam e o adoravam pela sua simplicidade, frontalidade e linguagem rude e natural!. Nunca quiz fotografias e nós todos o respeitávamos, talvez recordando a sua infância, pois dizia-nos que as fotografias “matam”, e “compemetem-nos”!. Fazia parte do nosso pequeno grupo de amigos, era alto e curvado para a frente, daí o seu nome de guerra!. Depois de todo este tempo de convivência, consideráva-nos a sua família!. Esta pequena caricatura, é uma sincera homenagem!. (He lived among other things, using a shoe box shoe rented at the union, the night shift at the door of bars and alternative houses, around some organized crime that explored him, as well as other children in the same situation!. He was awarded a War Cross medal for his valor in combat defending his companions, who respected and adored him for his simplicity, frontality and rude and natural language!. He never asked for photos, and we all respected him, perhaps remembering his childhood, for he told us that the photographs “kill” and “please us”!. It was part of our small group of friends, was tall and bent forward, hence his name of war!. After all this time of coexistence, he considered us his family!. This little caricature is a sincere tribute)!.

…no dia 14 de Maio do ano de 1966, já lá iam, um ano, onze meses e vinte e seis dias, em continente africano, era manhã, a maré estava a encher, cheirava um pouco a maresia e os barcos baloiçavam no cais de embarque!. A ordem era todo o pessoal estar preparado, pois iam começar a embarcar, mas seguindo uma certa ordem e, como os do nosso Comando de Agrupamento eram poucos, fomos dos primeiros a embarcar!. Com o saco ao ombro e a malita nas mãos, passávamos por algumas unidades e, ao passar pela unidade onde estava o “Curvas, alto e refilão”, logo ouvimos este dizer, alto e bom som:

– Os malandros são sempre os primeiros, tinha que ser!. Qualquer dia mato um!.

(On May 14, 1966, a year, eleven months and twenty-six days later, on the African continent, it was morning, the tide was filling up, it smelled a little of the sea and the boats swam at the boarding pier!. The order was for all the personnel to be prepared, because they were going to start shipping, but following a certain order, and since our Group Command was few, we were the first to board!. With the bag on the shoulder and the cardbord bag in our hands, we would pass through some units and, as we passed the unit where the “Curvas, high and complicative” was, we soon heard this saying, loud and clear:

– The rogues are always the first, it had to be!. I’ll kill one any day)!.

…já dentro do navio “Uíge”, bebemos cerveja na companhia do “Setúbal”, dormindo a primeira noite no convés do navio, só nos lembramos de acordar e ver umas luzes ao longe, pois já nos encontrávamos a navegar em alto mar, rumo ao norte, à Europa, a Portugal!. Também nos lembramos de ver o “Trinta e Seis” a querer segurar o “Curvas, alto e refilão”, pois este agarrava pela camisa o empregado que estava encarregue do local onde vendiam cerveja e outros licores no barco, dizendo-lhe:

– Quero mais cerveja, filho da puta! Não vês esta medalha Cruz Guerra com que fui condecorado, por salvar os meus companheiros em combate? Vou enfiá-la onde tu sabes e vou atirar-te ao mar, lá isso vou!.

(Already inside the ship “Uíge”, we drank beer in the company of the “Setúbal”, sleeping the first night on the deck of the ship, we only remember to wake up and to see lights in the distance, since already we were sailing in the sea , heading north, to Europe, to Portugal!. We also remember seeing “Thirty-Six” wanting to hold the “Curvas, high and complicative”, as he grabbed the employee who was in charge of the place where they sold beer and other liquors on the boat, saying:

– I want more beer, you son of a bitch!. Do not you see this Cross War medal with which I was awarded for saving my comrades in combat?. I’m going to shove it where you know and I’m going to throw you into the sea, there it is)!.

…mais tarde, o “Trinta e Seis” contou-nos, rindo-se, um episódio que também fazia os outros rirem-se, que era o momento em que determinado coronel entregou as insígnias da campanha da Guiné ao “Curvas, alto e refilão” e, vendo-lhe a medalha Cruz de Guerra no peito, colocou-se na posição de sentido e fez-lhe a respectiva continência!.

…o Curvas, alto e refilão, dizia:

– Aqui até os coronéis me “batem a pala”, lá em Portugal, vou carregar a caixa de engraxar sapatos, cheio de fome, sem ter onde dormir, desprezado por todos, eu até podia continuar, sendo um militar ou um polícia, mas não sei receber ordens, está dentro de mim, é mais forte do que eu!.

(Later, the “Thirty-Six” told us, laughing, an episode that also made the others laugh, that it was the moment in which a colonel handed the insignia of the campaign of Guinea to the “Curvas, high and complicative” and, seeing the Cross-War medal on his chest, he placed himself in the position of meaning and made his continence!.

The “Curvas, high and complicative”, said:

– Here, even the colonels beat me up, in Portugal, I’m going to carry the shoeshine box, full of hunger, with nowhere to sleep, despised by all, I could even go on being a soldier or a policeman, but I do not know how to take orders, it’s inside me, it’s stronger than me)!.

…dormíamos no terceiro piso do porão do navio, com camas improvisadas em madeira, parecidas com as que se usavam no aquartelamento militar em Mansoa, de chão de terra vermelha e arame farpado!. Para usar o quarto de banho, subíamos as escadas quase até ao convés!. Muitos não o faziam e urinavam pelos cantos!. Passados uns dias de alto mar, com o calor, era impossível descer uma dúzia de degraus para o porão!. O cheiro pestilento era insuportável, por mais que lavassem e desinfectassem!. Quase todos os militares dormiam no convés, a céu aberto!. (We slept on the third floor of the ship’s basement, with makeshift wooden beds, similar to those used in the military barracks at Mansoa, with red earth soil and barbed wire!. To use the bathroom, we went up the stairs almost to the deck!. Many did not and urinated through the chants!. After a few days of high seas, with the heat, it was impossible to descend a dozen steps to the basement!. The stinking smell was unbearable, no matter how much they washed and disinfected!. Almost every military man slept on the deck in the open air)!.

…no último dia de viagem, despedimo-nos de todos os nossos amigos e companheiros, oferecendo o nosso endereço em Portugal àquele grupo de amigos mais íntimos, no qual se incluía o “Curvas, alto e refilão”, o “Setúbal”, o “Mister Hóstia”, o “Marafado”, o “Trinta e Seis” e o “Furriel Miliciano”, porque o “Pastilhas”, o “Arroz com Pão”, e o “Sargento da Messe”, regressaram a Portugal mais cedo, umas semanas, talvez um mês, não nos recordamos!. (On the last day of the trip, we said goodbye to all our friends and companions, offering our address in Portugal to that group of closest friends, which included “Curvas, high and complicative”, “Setúbal” , “Mister Hóstia”, “Marafado”, “Thirty Six” and “Furriel Miliciano”, because “Pastilhas”, “Rice with Bread” and “Sergeant of the Messe”, returned to Portugal more early, a few weeks, maybe a month, we do not remember)!.

…todos queriam levar o “Curvas, alto e refilão”, para junto de si, para as suas aldeias, mas ele não queria ir com ninguém, excepto com o “Trinta e Seis” e, disse abraçando-nos:

– Eu não tenho endereço em Portugal, para já vou com o “Trinta e Seis”, para a sua aldeia, que ele não me deixa ir para mais nenhum lado e, como sabes só recebo ordens dele!. Veremos o que ele me arranja, depois, andarei por aí, tal como fazia antes, qualquer dia bato-te à porta!.

(Everyone wanted to take the “Curvas, high and complicative” to his own village, but he did not want to go with anyone except “Thirty Six” and said hugging us:

– I do not have an address in Portugal, I’ll go with “Thirty Six” to your village, he will not let me go anywhere else, and as you know I only get orders from him!. We’ll see what he gets me, then I’ll walk around like I used to, I’ll knock on the door any day)!.

…no dia 23 de Maio do ano de 1966, pela manhã, com quase todos os militares no convés do navio, começámos a ver umas nuvens ao longe, passado um tempo, já não eram nuvens, mas sim terra!. Era Portugal!. (On May 23, 1966, in the morning, with almost all the soldiers on the deck of the ship, we began to see clouds in the distance, after a while, they were no longer clouds, but land!. It was Portugal)!.

…o navio navegou pelo rio Tejo, vimos de perto o Forte do Bugio, Cascais, Estoril, a ponte sobre o rio já em fase de acabamento, começando a atracar no cais da Alfândega da cidade de Lisboa!. Todos gritavam, faziam sinais, mostravam cartazes, tais como, “estou aqui, mãe”, “sou eu, o Zé”, “olá Évora, o Manel chegou”, “Isabel, anda pró meu colo”, “Pai, já cheguei”, e um que nos recordamos, porque era um pouco provocativo para a época, dizendo “P’ras Caldas, vamos já, e em força”!. (The ship sailed by the river Tagus, we saw from close up the Fort Bugio, Cascais, Estoril, the bridge over the river already in the process of finishing, beginning to dock in the dock of the Customs of the city of Lisbon!. They all shouted, made signs, showed signs, such as, “I’m here, mother”, “it’s me, Zé”, “Hello Évora, Manel arrived”, “Isabel, walk on my lap”, “Father, I already arrived”, and one we remember, because it was a bit provocative for the time, saying” P’ras Caldas, let’s go, and in force)”!.

…todos procuravam um lugar na borda do navio!. Nós, empoleirados numa escada de corda e madeira, vimos os primos de Lisboa, lá ao fundo, ela de lenço preto, amarrado à cabeça e ele com uns grandes óculos escuros e de bigode!. Sim eram eles!. Acenámos, gesticulámos com os braços, chamámos por eles com toda a força dos nossos pulmões, tudo fizémos mas nada, não nos viam!. Só em terra, já com o saco do exército às costas e a mala de papelão e fibra nos cantos, amarrada com uma corda, é que corremos para os primos de Lisboa, que estavam lá, banhados em lágrimas, pensando que não tínhamos regressado a Portugal. (Everyone was looking for a place on the ship’s edge!. We, perched on a rope and wood ladder, saw Lisbon’s cousins, in the background, her black handkerchief, tied to her head, and him with big mustache and dark glasses!. Yes they were!. We waved, we gestured with our arms, we called for them with all the force of our lungs, we did everything but nothing, they did not see us!. Only on land, with the sack of the army at back and the cardboard bag and fiber in the corners, tied with a rope, we ran to the cousins of Lisbon, who were there, bathed in tears, thinking that we had not returned to Portugal)!.

…ainda no cais da Alfândega, o nosso comandante veio cumprimentar-nos, despedindo-se de todos os militares que faziam parte do nosso Comando de Agrupamento militar e, parou na nossa frente, olhou-onos nos olhos e disse:

 – És um bom homem, gostava de continuar a ter-te sobre o meu comando, desejo-te as maiores felicidades pela tua vida fora!. Enquanto for vivo e necessitares de mim para alguma coisa, que entendas que posso ser útil, por favor contacta-me. Adeus, oh “Cifra”!.

…ao ouvir estas palavras, abraçámo-lo de novo, não podendo conter uma lágrima!.

(At the Alfândega Quay, our commander came to greet us, bid farewell to all the military men who were part of our Military Combat Command, and stopped in front of us, looked us in the eyes and said:

– You are a good man, I would like to continue to have you on my command, I wish you the best of your life!. As long as you live and need me for something, you understand that I can be of service, please contact me!. Goodbye, oh “Cipher”!.

On hearing these words, we embraced him again, unable to contain a tear)!.

…nesse mesmo dia 23 de Maio do ano de 1966, seguimos para o Regimento de Infantaria N.º 1, na agora cidade de Amadora, que era a unidade militar a que o nosso Comando de Agrupamento pertencia!. Havia alguma azáfama, chegavam diferentes companhias ou grupos que tinham combatido no então Ultramar Português e, não havendo espaço nem instalações apropriadas para trocar a roupa, fizémo-lo numa área ajardinada, assim como outros companheiros, já dentro do Quartel!. (On the same day, May 23, 1966, we went to Infantry Regiment No. 1, in the now city of Amadora, which was the military unit to which our Group Command belonged!. There was some bustle, different companies or groups arrived that had fought in the then Portuguese Overseas and, not having space or suitable facilities to change the clothes, we did it in a garden area, like other companions, already inside the Barracks)!.

…entregámos o resto dos trapos que trazíamos e pertenciam ao Exército Português!. Na secção de tesouraria do Quartel, pagámos vinte sete escudos e cinquenta centavos por alguns trapos que faltavam, como por exemplo, o camuflado, botas de pano, camisas e meias!. Nessa ocasião, o sargento, ao receber o dinheiro, disse-nos:

– prenche este papel, com o teu nome e morada aqui em Portugal, para te mandar-mos a caderneta militar, o que, dada a tua especialidade militar, só deves receber esse documento daqui a cinco anos!.

(We delivered the rest of the rags that we brought and belonged to the Portuguese Army!. In the treasury section of the Militar Barracks, we paid twenty-seven escudos and fifty cents for some missing rags, such as the camouflaged, cloth boots, shirts and socks!. On this occasion, the sergeant, upon receiving the money, told us:

– Fill out this paper, with your name and address here in Portugal, to send you the military passbook, which, given your military specialty, you should only receive this document five years from now)!.

…no momento em que abrimos a mala de papelão e fibra nos cantos, amarrada com uma corda, vestindo umas calças, uma camisa de manga curta e calçando os sapatos novos à nossa medida, comprados na então capital da Província, Bissau, enquanto esperávamos o embarque!.

…depois de tudo terminadao, ao sair da unidade militar, gritámos em plenos pulmões:

 – Não sou mais o “Cifra”, agora sou de novo o “Tó d’Agar”!.

(The moment we opened the cardboard and fiber bag in the corners, tied with a rope, wearing a pair of trousers, a short-sleeved shirt and new shoes for us, purchased in the then capital of the Province, Bissau, while we were waiting for the shipment!.

After all, when we left the military unit, we shouted at the top of our lungs:

– I am no longer the “Cipher”, now I am again the “Tó d’Agar”)!.

…na estação dos combóios, em Santa Apolónia, na cidade de Lisboa, apanhámos o comboio da linha do norte, que nos levou até à cidade de Aveiro, onde mudámos para o “nosso combóio” do então Ramal de Aveiro que, com a locomotiva a vapôr, mil cento e trinta e seis, a tal que tinha força de gigante, que abanava o cabanal, onde estava o curral das ovelhas, que nós quando crianças, conhecíamos pelo apito, que fazia um ruído ensurdedor, sempre que passava no vale, rumo ao norte, a caminho da montanha a todo o vapôr!. Sim, foi essa locomotiva, que trazendo atrás de si, o comboio das dez e meia, nos fez regressar de novo para junto da nossa família, na aldeia do Vale do Ninho d’Aguia!. (At the train station, in Santa Apolónia, in the city of Lisbon, we took the train from the northern line, which took us to the city of Aveiro, where we moved to the “our train” of the then Aveiro branch, which, with the locomotive, a thousand and one hundred and thirty-six, the one with the strength of a giant, which shook the cabal, where the herd was, which we, as children, knew by the whistle, which made a deafening noise, whenever it passed in the valley, heading north, on the way to the mountain at all vapour!. Yes, it was this locomotive, which, bringing the train at half past ten, brought us back to our family in the village of Vale do Ninho d’Aguia (valley of the Eagle’s Nest)!.

…regressámos à nossa aldeia, tocámos de novo nos ramos da tal “árvore das alegrias e dos problemas”, que existia no largo do terreiro da nossa aldeia, já era uns anos depois, éramos veteranos de guerra, veteranos de combate, tendo passado por algumas experiências de vida mais traumáticas que se possam imaginar!. A família e os vizinhos que nos receberam, sabiam, notavam imediatamente, que alguma coisa estáva mal connosco, pela nossa linguagem, maneira de se comportar, que estávamos diferentes, talvez um pouco loucos e algo agressivos!. (We returned to our village, touched again on the branches of such a “tree of joys and troubles”, which existed on the outskirts of our village yard, a few years later, we were veterans of combat veterans, having past some more traumatic life experiences you can imagine!. The family and the neighbors who received us, knew, noticed immediately, that something was wrong with us, by our language, way of behaving, that we were different, maybe a little crazy and something aggressive)!.

…era o preço do sofrimento, da angústia, do mêdo e da fúria em combate, do horror, do inferno que vivemos, a marca que nos acompanha para o resto das nossas vidas, que na verdade nos sentimos loucos por dentro e, como veteranos de guerra, temos que ser francos e dizer, que pagamos um preço muito elevado para servir o nosso país!. As vítimas emocionais das guerras equivocadas são na verdade as mais difíceis de suportar, são as tais feridas profundas que sofremos, que podem ser infligidas sem deixar um simples arranhão!. (Was the price of suffering, anguish, fear and fury in combat, the horror, the hell we live, the mark that accompanies us for the rest of our lives, we actually feel crazy inside and, as war veterans, we have to be blunt and say, that we paid a very high price to serve our country!. The emotional victims of misguided wars are actually the most difficult to bear; it is such deep wounds that we suffer that can be inflicted without leaving a mere scratch)!.

…nessa noite, houve festa na aldeia do Vale do Ninho d’Águia, com foguetes e tudo!. Nós, sendo de novo o “To d’Agar”, nome tal como os vizinhos nos conheciam, levámos abraços e beijos de pessoas a chorar de alegria!. A nossa cara estava cheia de baba e ranho, que limpávamos às costas da mão!. A mãe Ilda chorava, os irmãos pulavam e cantavam, o pai Tónio, com um copo de “jurepiga” na mão, fazia vivas a toda a gente, os vizinhos faziam uma roda à nossa volta perguntando se na Guiné havia macacos e leões, algumas raparigas nossas amigas de infância, davam-nos palmadas, agarrando-nos, beijavando-nos por muits vezes, os garotitos, alguns que tinham nascido depois de ir-mos para o serviço militar, olhavam-nos, depois vinham tocar-nos, como se fôssemos alguém estranho na aldeia, alguns cães ladravam e havia um “gira discos” com música!. (That night, there was a party in the village of Valley of the Eagle’s Nest, with rockets and everything!. We, being again the “To d’Agar”, name with the neighbors knew us, we took hugs and kisses of people to cry of joy!. Our face was full of drool and snot, which we wiped on the back of the hand!. Mother Ilda cried, her brothers jumped and sang, her father Tonio, with a glass of “jurepiga” in his hand, made everybody alive, the neighbors made a circle around us asking if there were monkeys and lions in Guinea, some girls who were our childhood friends, slapped us, grabbing us, kissing us on many occasions, little boys, some who had been born after we went to the military, looked at us, then came to touch us, like if we were a stranger in the village, some dogs would bark and there was a “turntables” with music)!.

…uma garotita, toda suja, igual àquela que uma vez vimos na capital da província da Guiné, que nos pediu “patacão” (dinheiro) para comprar “bianda” (comida), só com um bibe a cobrir-lhe o corpo, com o dedo na boca, comendo baba e ranho, aproximou-se, tocou-nos, pedindo se podia levar um bocado de pão trigo da mesa onde havia comida!. Fizémos um gesto dizendo que sim, ela tirou três bocados de pão, um foi na boca, outro na mão e outro dentro do bibe e, o senhor Jaime Barbeiro fez um discurso!. (A little girl, all dirty, like the one we once saw in the capital of the province of Guinea, who asked us “patacão” (money) to buy “bianda” (food), only with a dress to cover his body , with his finger in his mouth, eating snot and snot, approached, touched us, asking if he could take a piece of wheat bread from the table where there was food!. We made a gesture saying yes, she took three pieces of bread, one in her mouth, another in her hand and another in the dress, and Mr. Jaime Barber made a speech)!.

…a um canto, com uma mão na cinta e outra caída ao longo do corpo, com uma permanente, que lhe fazia alguns caracóis longos, nos seus cabelos já “grizalhos”, com um vestido que lhe cobria a parte de trás do corpo, e lhe deixava ver um pouco do peito e as pernas um pouco abaixo do joelho, estava a desenvergonhada da menina Teresa, que ao encarar-nos com os seus olhos, percorreu todo o nosso corpo, correndo para nós, abraçou-nos com uma força tal, que não conseguimos “tirar este peso, que era a desenvergonhada da menina Teresa, de cima de nós”!. (In one corner, with one hand on the strap and another on the side of the body, with a permanent, which made him some long curls, in his already “grizalhos” hair, with a dress that covered the back of him body, and let him see a little of the chest and legs a little below the knee, was the disembodied girl Teresa, who when facing us with his eyes, ran all over our body, running for us, hugged us with a force such that we could not “take this weight, which was the disgrace of the little girl Teresa, from above us”)!.

…a menina Teresa, era uma senhora com uma idade, já perto dos cinquenta anos, abandonada pelo seu apaixonado Alberto, com quem namorou toda a sua vida, acabando por emigrar para o Brasil na procura de fortuna, ficando por lá nos braços de uma jovem “baiana”, como ela sempre dizia e, por saber ler e escrever, entre outras coisas, era a conselheira da família!. Era ela que escrevia as cartas e os aerogramas que recebíamos em cenário de guerra, que a mãe Ilda notava e nos enviava!. (The girl Teresa, was a lady of an age, already close to fifty, abandoned by his passionate Alberto, with whom he dated all his life, eventually emigrating to Brazil in search of fortune, staying there in arms of a young “baiana”, as she always said, and because she was able to read and write, among other things, she was the family counselor!. She was the one who wrote the letters and the aerograms we received in a war scenario that Ilda and sent us)!.

…numa certa carta que a mãe Ilda nos enviou, ela, a desenvergonhada da menina Teresa, explicava, “vê se é possível trazer da Guiné, um “Falo”, ou seja um “Phallus”, ou mais propriamente um “Pénis” em madeira de ébano preto, que no seu entender, era para lhe dar sorte na sua vida!. Mais à frente, explicava o tamanho e tudo, com alguns pormenores que não queremos explicar, pois então sim, vão pensar coisas que talvez não fossem, mas até eram, dizendo depois que se não o encontrasse, se o podia mandar fazer em qualquer artesão africano, pois quando foi à cabeleireira fazer a sua permanente, o tinha visto numa revista francesa e, que os faziam lá na África!. Também mandava uma nota de vinte escudos do Banco de Portugal, para as despesas”!. (In a certain letter that Mother Ilda sent us, she, the disembodied girl Teresa, explained, “see if it is possible to bring a ” Phallus” from Guinea, or rather a “Penis”, in black ebony wood, which in his view, was to give you luck in your life!. Later, he explained the size and everything, with some details that we do not want to explain, because then yes, they will think things that maybe were not, but even were, saying later that if he did not find it, if he could have it done in any craftsman African, because when she went to the hairdresser to make her permanent, she had seen him in a French magazine and they made them there in Africa!. He also sent a note of twenty escudos from the Banco de Portugal, for expenses)!.

…ela, aquela desenvergonhada, não nos perguntou, se tínhamos feito boa viajem, ou se estávamos bem, as suas únicas palavras, foram:

 – Aaaiii…, trazes “aquilo” que eu te pedi, é mesmo grandote, tenho tantos desejos de vê-lo!. Tu, estás tão grande, tão crescido, pareces um homem, vem ver-me amanhã, logo bem cedo!.

(She, that unashamed one, did not ask us if we had made a good journey, or if we were well, her only words were:

– Aaaiii … you bring “what” I asked of you, it’s really big, I have so many desires to see it!. You, you are so big, so grown up, you look like a man, come and see me tomorrow, very early)!.

…a vida é curta, aproveitem-na!. A velhice virá e não será gentil!. O céu azul claro, o sol brilhando logo acima do horizonte, o ar fresco da manhã, o rio limpo ou a água selvagem do oceano para nadar, o carreiro na montanha verdejante para caminhar, a música para ouvir, um livro para ler, mesmo num dia cinzento, é importante lembrarmos que o sol está a brilhar em algum lugar e, brilhará em nós, no seu próprio tempo, pois a chave de tudo o que acabámos de mencionar é, procurar as melhores oportunidades disponíveis que andam por aí, pois elas às vezes estão na nossa frente e, tirar o máximo proveito delas!. (Life is short, enjoy it!. Old age will come and it will not be kind!. The clear blue sky, the sun shining just above the horizon, the fresh morning air, the clean river or the wild ocean water for swimming, the green mountain path to walk, music to listen to, a book to read, even on a gray day, it is important to remember that the sun is shining somewhere and will shine on us in its own time, for the key to all that we have just mentioned is to look for the best available opportunities that go around, for they are sometimes ahead of us and get the most out of them)!.

…e hoje, no ano de 2018, mais de cinquenta anos depois, o país que para lá nos mandou, para aquela maldita guerra de guerrilha, tirando-nos, ainda jovens da nossa aldeia, oferecendo-nos naquele tempo um bilhete de lotaria, onde podíamos ser contemplados com uma morte violenta, num cenário de combate, onde a qualquer momento o nosso jovem corpo podia ser destruído por balas ou estillaços de uma qualquer granada, mina ou fornilho, que com alguma sorte seria recolhido, embrulhado no seu camuflado sujo com o seu próprio sangue, para não ser abandonado naqueles pântanos cobertos de água suja de lama, como aconteceu a muitos companheiros, ou os traumas daquela maldita guerra, que nos têm acompanhado durante a nossa já longa existência e, como dizíamos, esse nosso país, continua a ignorar-nos, contemplando-nos com uma ‘fortuna’, equivalente a 41 centavos por dia!. (And today, in the year 2018, more than fifty years later, the country that sent us there, for that damn guerrilla war, taking us, still young people from our village, offering us at the time a ticket of where we could be contemplated with a violent death, in a scene of combat, where at any moment our young body could be destroyed by bullets or stings of any grenade, mine or fornillo, that with some luck would be collected, wrapped in his not to be abandoned in those marshes covered with muddy water, as it has been to many companions, or the traumas of that damned war, which have accompanied us during our long existence, and, as we said, this our country, continues to ignore us, contemplating us with a “fortune”, equivalent to 41 cents a day)!.

…aquele sargento, lá no Quartel de Infantaria N.º 1, na agora cidade de Amadora, tinha toda a razão, pois o Governo Colonial do então País Portugal, teve em seu poder a nossa caderneta militar até ao dia 31 de Dezembro do ano de 1971, como tal, nós, ficámos prisioneiros no País até àquela data, pois sem este documento não poderíamos tratar de qualquer documentação para emigrar para outro país!. (That sergeant, there at No. 1 Infantry Headquarters, in the now Amadora, was quite right, since the Colonial Government of the then Portugal Country had in our possession our military passbook until 31 December of the year 1971, as such, we were prisoners in the Country until that date, because without this document we could not handle any documentation to emigrate to another country)!.

…assim passaram “Oito anos, seis meses e quatro dias”!. (Thus passed “Eight years, six months and four days”)!.

Tony Borie, October 2018.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s