…o seu nome é (FMF), para nós, simplesmente Freitas!. (Your name is (FMF)l, for us simpy Freitas)!.

…a manhã não estava muito quente, regressávamos de tomar banho nos três furos de água que havia a sul do aquartelamento, de onde vinha uma água quente, mesmo muito quente, a cheirar a enxofre ou coisa parecida!. Tanto nós como o Freitas, já trazíamos o cigarro “três vintes” na boca e, um outro companheiro, militar de combate, dizia-nos: “vocês não sabem o que é guerra, calem-se!. Vocês são “tropa fandanga, tropa manhosa, tropa de secretária”!. Gostava de vos ver atravessar uma zona de lama, lodo e tarrafo, sempre com o coração nas mãos, à espera de uma emboscada”!. (The morning was not very hot, we returned from bathing in the three water holes that were to the south of the quarter, from which came a hot water, even very hot, smelling of sulfur or something!. Both we and Freitas already had the “three twenties” cigarette in their mouths, and another fellow, military combat, said to us: “you don’t know what war is, shut up!. You are “troop fandanga, sly troop, secretary troop”!. I would like to see you crossing an area of mud, mud and tarpon, always with your heart in your hands, waiting for an ambush)!.

…nós ouvíamos e nada dizíamos, pois sabíamos que era verdade!. No entretanto, outro militar de combate, que seguia no nosso grupo, acrescentava: “tenho mais medo de caminhar na lama e no lodo do que, às vezes, enfrentar uma emboscada!. Tens que caminhar direito e sempre com todos os sentidos de alerta e equilíbrio, pois se cais e, não vai mais do que um companheiro a teu lado, é um grande problema para saíres, quanto mais força fazes, mais te enterras e, o companheiro que vem até a ti para te ajudar, se também se enterra, então é um desastre, tem que ser alguém a estender-te algo a que te possas agarrar para que aos poucos te vás safando”!. (We listened and said nothing, because we knew it was true!. In the meantime, another combat officer in our group added: “I’m more afraid of walking in the mud and mud than sometimes ambushing!. You have to walk straight and always with all the senses of alertness and balance, because if you fall and, no more than a companion by your side, is a big problem to leave, the more strength you do, the more you bury yourself and, the companion who comes to you to help you, if you also bury yourself, then it is a disaster, it has to be someone extending something you can hold onto so that you will gradually get away with it!”)!.

…nós continuávamos a ouvir, e compreendíamos que aquilo era verdade mas, o primeiro militar de combate que falou, tirando o cigarro da boca, continuava: “e não vos quero dizer nada do que sucederia se ficassem enterrados na lama e a maré começasse a encher, depois logo a seguir à lama vem o maldito tarrafo, que é toda aquela vegetação, seca por baixo e verdejante por cima, que quando a maré está cheia, vista de longe é muito linda, mas quando não há água, até mete medo!. Vem logo a seguir à lama, e temos que ter força para o atravessarmos, sempre arredando para o lado aquela vegetação tinhosa, cheia de mosquitos e, dizem que é lá que se metem os crocodilos”!.(We were still listening, and we understood that this was true, but the first combat military man who spoke, taking his cigarette out of his mouth, continued: “and I want to tell you nothing of what would happen if you were buried in the mud and the tide it started to fill up, then right after the mud comes the damn tarpon, which is all that vegetation, dry below and verdant above, that when the tide is full, seen from afar is very beautiful, but when there is no water, even get scared!. It comes right after the mud, and we have to have the strength to cross it, always pushing aside that thick vegetation, full of mosquitoes, and they say that’s where crocodiles get in”)!.

…nós continuávamos a ouvir, e a dizer que era verdade mas, esse militar de combate, logo nos dizia: “calem-se!. Vocês e todo esse pessoal do comando, só sabem é “cagar ordens”!. Essas mãos e essas unhas nunca sentiram uma espingarda G-3 com o cano em brasa e vocês desesperados para darem mais fogo, pois os guerrilheiros continuam a atacar e nós, desesperadamente não temos mais balas!. Portanto vocês são “tropa rafeira, tropa fandanga, tropa manhosa”!. (We kept listening and saying it was true, but this combat military man would soon tell us: “shut up!. You and all these command people, all you know is shit orders!. Those hands and nails have never felt a G-3 shotgun with a red-hot barrel and you are desperate for more fire as the guerrillas continue to attack and we desperately have no more bullets!. So you are “raifa troop, fandanga troop, sly troop”)!.

…entretanto chegámos à área das barracas dormitórias!. (In the meantime we have reached the sleeping tents area)!.

…isto são lembranças da guerra lá vivida em África, onde já passaram mais de cinco décadas, quase seis, mas, o corpo e a mente de um veterano de guerra, quanto mais a sua idade avança, infelizmente, mais frequentemente reage aos disparos da memória, dando lugar ao sentimento que pode ser representado nestas simples palavras: “a maldição de um veterano é que nunca esquece”!.(These are reminiscent of the war there in Africa, where it has been more than five decades, almost six, but the body and mind of a war veteran, the more his age progresses, unfortunately, the more often he reacts to memory shots, giving way to the feeling that can be represented in these simple words: “the curse of a veteran is that he never forgets”)!.

…quando a encontramos de novo, a tal lembrança, às vezes em momentos sombrios e silenciosos, tentamos repudiá-la, mandá-la para longe, como o som da explosão de uma granada quando de um ataque dos guerrilheiros ao nosso posto avançado, que era a localização estratégica do nosso aquartelamento, ou o som do bater das lâminas de um helicóptero que chegava para recolher o corpo de um companheiro morto em combate, ou talvez o que restava do seu corpo, que levavam embrulhado num camuflado sujo com o seu próprio sangue!. Não importa quantas vezes essas lembranças nos visitam, pois terminam sempre da mesma maneira, que é uma “catástrofe total”!. (When we meet her again at such a memory, sometimes in dark and silent moments, we try to repudiate her, to send her away, like the sound of a grenade exploding as the guerrillas attack our outpost, which was the strategic location of our barracks, or the sound of a helicopter’s blades coming in to pick up the body of a dead combatant, or perhaps what was left of its body, which they carried wrapped in a filthy camouflage, your own blood!. No matter how many times these memories visit us, because they always end in the same way, which is a “total catastrophe”)!.

…não mais esquecemos a jornada de ter sido combatentes na Guerra Colonial Portuguesa em África, na então província colonial da Guiné Portuguesa, cuja guerra, principalmente nesta região, foi denominada “o Vietname de Portugal”, que foi uma mortífera guerra de guerrilha, combatendo ao serviço de um país que nos USOU e quase nos ESQUECEU, desde a nossa mobilização forçada na época de uma pré-guerra, passando pela miserável experiência no campo de batalha, até a um difícil retorno de pós-guerra, sempre quase nos IGNORANDO!. (We no longer forget the journey of being combatants in the Portuguese Colonial War in Africa, in the then colonial province of Portuguese Guinea, whose war, especially in this region, was called “Vietnam of Portugal”, which was a deadly guerrilla war, fighting in the service of a country that has USED us and almost forgotten us, from our forced mobilization at the time of a pre-war, to miserable battlefield experience, to a difficult postwar return, almost always IGNORING)!.

…hoje vamos dedicar este texto ao nosso companheiro combatente, Freitas que, tal como nós, viveu num cenário de violência, como era aquele onde permanecemos por um período de dois longos anos, onde a segurança nunca existiu e, além de todas as monstruosidades que poderíamos ver e sentir, uma das partes mais trágicas, (para alguns talvez esperançosa), era a cara da necessidade humana!. Era o doente abandonado, a família faminta, a criança que não sabia ler, eram homens e mulheres, alguns sem abrigo, com a roupa em farrapos, lutando pela sobrevivência, numa terra com um mar muito rico e com um solo muito fértil!. (Today we will dedicate this text to our fellow combatant, Freitas, who, like us, lived in a scenario of violence, as it was where we stayed for a period of two long years, where security never existed and, beyond all the monstrosities we could see and feel, one of the most tragic parts, (for some perhaps hopeful), was the face of human need!. It was the abandoned patient, the starving family, the child who could not read, were men and women, some homeless, in rags, struggling for survival, in a land with a rich sea and very fertile soil)!.

…era a necessidade humana de um povo, que lutava e morria pela sua liberdade, não tinha acesso a alimentos suficientes, a água limpa, a remédios ou, como acima mencionámos, a um abrigo necessário para sobreviver, onde as crianças não podiam aspirar a uma educação decente ou à esperança de um homem ou de uma mulher terem um emprego ou outro qualquer suporte, que sustentasse uma família, pois a ausência dessa mesma esperança, agora transformada num cenário de guerra, estava a destruir aquela sociedade, a partir de dentro, o que era muito importante!. (It was the human need of a people who fought for and died for their freedom, did not have access to sufficient food, clean water, medicine or, as we mentioned above, a shelter needed to survive where children could not aspire to a decent education or the hope that a man or a woman would have a job or other support to support a family, for the absence of that hope, now transformed into a war scenario, was destroying that society from from the inside, which was very important)!.

…e nós Europeus, fomos forçados a lutar contra estas pessoas, que nunca antes tínhamos visto e nada tínhamos em contra, mas que um governo colonial de então, nos arrancou das nossas cidades, vilas e aldeias, treinou apressadamente e, enviou no porão de um qualquer navio de carga, tal como uma qualquer mercadoria, navegando em direcção ao sul pelo oceano Atlântico, desembarcando-nos num cenário horroroso de guerra, lá naquela África ainda um pouco selvagem, onde era muito fácil morrer, bastava andar por ali!. (And we Europeans were forced to fight against these people, whom we had never seen before and had nothing against, but whom a colonial government of that time took us out of our cities, towns and villages, hurriedly trained and sent in the hold of any cargo ship, like any commodity, sailing south across the Atlantic Ocean, landing us in a horrific war scenario, there in that still a little wild Africa, where it was very easy to die, just walk around)!.

…nós e o Freitas, viajámos no mesmo barco, tanto na ida como no regresso à Europa e, quando da chegada ao porto de Bissau, fomos juntos deslocados para uma área de lama, tarrafo e mosquitos, onde se via a tal vegetação verde e de outras cores, rente à água, com árvores gigantes, aqui e ali, onde começou um desastre de organização, dentro de uma grande desorganização, que se tornou constante, cada vez mais perigosa, durante a nossa estadia forçada de dois longos anos em cenário de guerra, onde este companheiro Freitas, tinha as mesmas tarefas que nós, pois também era “cifra” de um comando de forças militares mas, ao que diáriamente observávamos, o seu sofrimento e angústia foi muito superior ao nosso, porque nesta sua passagem forçada por este cenário de combate, já tinha família constituída, que deixou na Europa!. (We and Freitas traveled on the same boat both to and from Europe, and upon arrival at the port of Bissau we were moved together to an area of mud, tarpon and mosquitoes, where we could see to such green and other vegetation, waterfront, with giant trees, here and there, where a disaster of organization began, within a great disorganization, which became constant, increasingly dangerous, during our forced stay of two long years in a war scenario, where this fellow Freitas, had the same tasks as us, because he was also a “cipher” of a command of military forces but, as we observed daily, his suffering and anguish was much greater than ours, because in his forced passage through this combat scenario, he already had a constituted family, which he left in Europe)!.

…nós, embora “tropa de secretária”, andávamos por ali, seguindo um rumo de quase abandono, não tendo o mínimo de facilidades para se ter uma higiene primária, mal alimentados e equipados, tanto em material de protecção e combate como em assistência médica, já falando mal português, as unhas grandes e sujas, a roupa às vezes rota, pelo menos no local dos bolsos, talvez derivado ao isqueiro e ao maço de cigarros e sem alguns botões, usávamos a camisa comunitária que existia no local das nossas tarefas, quando se ia entregar alguma mensagem ao comandante, o cabelo comprido, talvez com piolhos e um grande bigode, que nos encobria os dentes escuros e sujos e um pouco amarelados do fumo do tabaco, os dedos com uma marca amarela do cigarro, bebendo álcool em excesso, só a barba é que se cortava de três em três dias, às vezes de dois em dois dias, pois tínha-mos algum contacto com o comandante e, não queríamos, num dia de mau humor, ele, o comandante, nos mandasse rapar o cabelo e o bigode, então aí sim, iríamos sofrer muito mais!. (We, although a “secret troop”, were walking around, following a path of almost abandonment, not having the minimum facilities to have a primary hygiene, poorly fed and equipped, both in protective and combat material as in medical assistance, already speaking bad Portuguese, the big dirty nails, the clothes sometimes rotated, at least in the pockets, perhaps derived from the lighter and the pack of cigarettes and without some buttons, we wore the community shirt that existed in the place of the pockets our tasks, when we were going to deliver a message to the commander, the long hair, perhaps with lice and a big mustache, that covered our dark and dirty, slightly yellowed teeth from tobacco smoke, the fingers with a yellow mark of the cigarette, drinking too much alcohol, only the beard was cut every three days, sometimes every two days, because we had some contact with the commander and, we did not want, on a bad day, he, the commander, send us If you shave your hair and mustache, then yes, we would suffer much more)!.

…mas o Freitas não!. Neste miserável ambiente, “tinha atitude”, tentava andar sempre limpo, camisa e calções lavados, cabelo e barba cortados, lavava os dentes, bebia pouco e moderado, tentava falar correcto, o maço dos seus cigarros estava sempre em boas condições desde o primeiro ao último cigarro, pensava antes de tomar qualquer decisão e, entre outras atitudes positivas, trazia a fotografia da família consigo, que colocava na mesa do Centro Cripto, quando entrava ao serviço e, dizia com uma simplicidade e voz agradável, que era assim que a sua esposa queria que ele procedesse!. (But not Freitas!. In this miserable environment, “he had attitude”, he tried to walk always clean, his shirt and shorts washed, his hair and beard shaved, his teeth washed, he drank little and moderately, he tried to speak correctly, the pack of his cigarettes was always in good condition from the first to the first last cigarette, he thought before making any decisions and, among other positive attitudes, brought the family photograph with him, which he put on the table at the Centro Crypto, when he came into service, and said with simplicity and a pleasant voice, that this is how the his wife wanted him to proceed)!.

…nós, algumas vezes, com o cigarro “três vintes” na boca, sentados numa cadeira feita de um barril de vinho vazio, lendo pela centésima vez algumas folhas de uma antiga revista do “Século Ilustrado”, que trazia fotografias de umas “gajas em biquíni”, que tínhamos roubado na messe dos sargentos, observáva-mos o Freitas, um pouco distante, debaixo de uma qualquer árvore que por ali havia, em profunda meditação, com a foto da família em suas mãos, falando baixinho quase chorando e, logo nós entendíamos que lhe devíamos dar todo o espaço, respeito e silêncio, não deixando que ninguém se aproximasse!. (We sometimes with the “Three Twenty” cigarette in our mouths, sitting in a chair made of an empty wine barrel, reading for the hundredth time some pages of an old “Illustrated Century” magazine, which featured photographs of some “Ladies in bikinis”, which we had stolen from the sergeants’ mess, we watched Freitas, a little way away, under a tree that was there, in deep meditation, with the family photo in his hands, talking quietly almost crying and soon we understood that we should give him all the space, respect and silence, not letting anyone come near)!.

…era o companheiro ideal, tal como quando crianças, havia o tal rapaz nosso vizinho, da casa ao lado, na nossa rua, aquele com quem compartíamos as nossas brincadeiras!. Com ele convivemos por um período de dois longos anos, dormindo na mesma barraca, comendo juntos, falando, às vezes alterados mas sempre amigos!. Fugíamos para o mesmo abrigo quando dos ataques dos guerrilheiros ao aquartelamento que ajudámos a construir e, tentando colocar uma pequena “lufada de ar fresco” na nossa miserável vida, às vezes fazíamos juntos viagens clandestinas (sem autorização), à capital Bissau, porque ele, o Freitas, tinha amigos que eram tripulantes do navio “Ana Mafalda”, que atracava períodicamente no porto de Bissau, para descarregar militares e equipamento de guerra, onde normalmente visitávamos a cozinha deste barco!. (Was the ideal companion, as when we were children, there was this boy our neighbor, next door, in our street, the one with whom we shared our games!. With him we lived for a long period of two years, sleeping in the same tent, eating together, talking, sometimes altered but always friends!. We fled to the same shelter when the guerrilla attacks on the barracks we helped build and, trying to put a little “breath of fresh air” into our miserable life, sometimes made illegal (unauthorized) trips together to the capital Bissau because he, the Freitas, had friends who were crew members of the ship “Ana Mafalda”, which docked periodically in the port of Bissau, to unload military and war equipment, where we would normally visit the kitchen of this boat)!.

…e, nessas nossas fugidas à capital Bissau, normalmente dávamos uma volta pelo mercado, onde cheirava a tabaco seco, carne fresca e coca, mangos e papaia, fruta de caju, amendoim verde, a que chamavam mancarra, bananas, batata doce, peixe seco, mandioca, balaios de arroz, aguardente de palma vendida ao púcaro, macacos, periquitos e outras aves exóticas, pano de diferentes cores vendido à peça, colares e bujigangas, figuras em madeira representando animais, e claro, alguns gatos empoleirados no muro do mercado, assim com alguns cães que circulavam por ali, com o rabo entre as pernas, e outros deitados próximo das bancas onde se vendia carne fresca, cães estes, que de vez em quando davam ao rabo sacudindo as moscas e outros insectos, moscas e insectos esses, que saltavam dos cães para cima da carne fresca e, mais um amalganhado de coisas sem fim, de onde saíamos meio tontos!. (And on our escapades to the capital Bissau, we usually walked around the market, where we smelled like dried tobacco, fresh meat and coca, mangos and papaya, cashew nuts, green peanuts, which they called mancarra, bananas, sweet potatoes, dried fish, manioc, rice paddies, palm brandy sold to the pig, monkeys, parakeets and other exotic birds, cloth of different colors sold by the piece, necklaces and bujigangas, wooden figures representing animals, and of course, some cats perched on the the wall of the market, as well as some dogs that circulated there, with the tail between the legs, and others lying near the stalls selling fresh meat, these dogs, that occasionally gave the tail wagging the flies and other insects, flies and insects that jumped from the dogs onto the fresh meat and yet another mishmash of endless things from which we were half dizzy)!.

…em outra ocasião, a caminho do cais do porto, vendo nós na montra da “Casa Gouveia”, que era o centro de compras visitado pelos militares que iam do interior da província, uma máquina de fotografar que nos agradou, mas não tendo dinheiro suficiente para a comprar, o Freitas, vendo a nossa desilusão, logo nos disse: “se é essa a tua vontade, se queres a máquina, juntamos o nosso dinheiro e compra-a”!. (On another occasion, on the way to the harbor pier, seeing us in the window of the “Casa Gouveia”, which was the shopping center visited by the military from the interior of the province, a camera that pleased us, but not having enough money to buy it, Freitas, seeing our disillusionment, then told us: “If that’s your wish, if you want the machine, we’ll collect our money and buy it”)!.

…de outra vez, andando nós quase junto ao cais do porto, passaram duas raparigas africanas, com um vestido às flores, que lhe cobria quase o corpo todo, não parecia um vestido, parecia mais uma peça de pano inteira em que iam enroladas, mas muito justa ao corpo, com outra tira de pano cor de rosa, amarrado à cinta, na cabeça também levavam um pano amarrado, da mesma cor da cinta, duas argolas de um metal com algum brilho caiam das suas orelhas, os braços iam descobertos, tendo algumas pulseiras feitas de missangas com diversas cores, ao pescoço também levavam uns colares de missanga que lhe faziam sobressair o rosto, que tinha uma cor preta com a tonalidade do chocolate, mas muito brilhante, onde sobressaiam uns olhos que denunciavam qualquer coisa como um mistério e, nos pés levavam umas sandálias rasas, de plástico, brancas!. Caminhavam, bamboleando o corpo, talvez sabendo que eram observadas, que ao passarem junto a nós, olharam de lado, com um olhar algo comprometedor!. (Again, as we were walking almost to the harbor quay, two African girls passed by, wearing a flowered dress that covered almost their whole body, it did not look like a dress, it was more like a piece of cloth in which they were going. rolled up, but very tight to the body, with another strip of pink cloth, tied to the strap, on the head also carried a tied cloth, the same color as the strap, two metal rings with some shine fell from his ears, his arms they were discovered, having some bracelets made of beads of various colors, and also neck bead necklaces that made her face stand out, which was a black color with the color of chocolate, but very bright, where there were eyes that denounced any something like a mystery, and on their feet they wore shallow, plastic, white sandals !. They walked, wobbling their bodies, perhaps knowing they were being watched, as they passed beside us, looking sideways with a somewhat compromising look!.

…nós assobiamos, um assobio um pouco provocativo!. Elas voltaram-se e sorriram, provocativas também!. O Freitas, segurou-nos por um braço, quando tentávamos avançar para as raparigas, dizendo-nos, como se fosse uma ordem: “tem juízo homem, lembra-te que andas na guerra”!. (We whistle, a little provocative whistle!. They turned and smiled, provocative too!. Freitas, holding us by the arm, when we tried to advance to the girls, telling us, as if it were an order: “have man sense, remember that you are at war”)!.

…o tempo ia passando, no aquartelamento que ajudámos a construir numa aldeia do interior chamada Mansôa, que considerávamos um posto avançado de fronteira, pois a partir dali já se podia considerar zona de combate, quando se começou a colocação do arame farpado, a verdade estava a vir ao de cima, estávamos a começar a demarcar fronteiras, para lá do arame farpado era território proibido, talvez dos guerrilheiros e, o Freitas dizia-nos: “a realidade está a vir ao de cima, estamos a demarcar fronteiras, para lá do arame farpado é território proibido”!. (Time passed in the quarter we helped build in an inland village called Mansôa, which we considered to be a frontier outpost, because from that point on it could be considered a combat zone when the barbed wire began to be laid, the truth was coming up, we were starting to demarcate borders, beyond barbed wire it was forbidden territory, maybe from the guerrillas, and Freitas told us: “reality is coming up, we are demarcating borders , beyond barbed wire is forbidden territory”)!.

…com o Freitas, às vezes quando se passava por um qualquer período mais difícil, com alguns pensamentos arrepiantes, caminhávamos até à ponte velha do rio Mansoa, que passava a leste do aquartelamento, olhávamos a água, principalmente na maré cheia, parecendo ouvir uma voz a chamar-nos, a convidar-nos a mergulhar nessa mesma água, turva e cheia de lama, mas nesse momento, estava ao nosso lado o Freitas e a sua voz, e nós, tirando o cigarro da boca, atiravámo-lo para a água, vendo-o desaparecer, num turbilhão sujo, com espuma e alguns pedaços de ervas secas, que iam com destino ao mar do oceano Atlântico, talvez indicando-nos o caminho da Europa!. (With Freitas, sometimes when it was going through some more difficult period, with some chilling thoughts, we would walk to the old bridge of the river Mansoa, which passed east of the quarter, we would look at the water, especially at high tide, seeming to hear a voice calling us, inviting us to dive into that same muddy, muddy water, but at that moment, Freitas and his voice were beside us, and we, taking our cigarettes out of our mouths, threw ourselves it into the water, watching it disappear, in a dirty whirlwind, with foam and a few bits of dried herb, that were bound for the sea of the Atlantic Ocean, perhaps pointing the way to Europe)!.

…nós, juntos, caminhávamos algumas vezes pelas aldeias em redor do aquartelamento, respirando aquele cheiro, que já tinha magia, aquela terra vermelha, o pó, as casas cobertas de colmo, debaixo de enormes árvores de mango, aquela folhagem muito mal tratada em volta, o cão faminto, cheio de insectos, coçando-se nas nossas pernas quando parávamos, procurando algum carinho, aquele “puto”, com o ranho no nariz, vindo junto de nós, metendo logo a mão no nosso bolso, procurando os rebuçados que compráva-mos no loja do Libanês!. (Together we would sometimes walk through the villages around the barracks, breathing in that magic-scented smell, that red earth, the dust, the thatched houses, under the huge mango trees, the very bad foliage, treated around, the hungry, insect-laden dog scratching at our legs as we stopped, looking for some affection, that “little kid” with the snot in his nose coming up beside us, reaching into our pocket, searching the sweets we bought at the Lebanese shop)!.

…andando por ali na sua companhia, sempre respeitámos a dignidade e o forte carácter dos naturais, que nos respeitavam, alguns até pensavam que éramos irmãos e, sempre seguimos as leis, as ordens e os ensinamentos dos “homens grandes” que, com toda a sua sabedoria, e com muitas “chuvas” no corpo, que deviam de ser anos, apontando com uma espécie de bengalim, com que afugentavam algumas moscas, e batiam nos cães, que famintos se aproximavam das “moranças”, que eram as suas casas cobertas de colmo!. (Walking around in his company, we have always respected the dignity and strong character of the natural people, who respected us, some even thought we were brothers, and always followed the laws, orders and teachings of the “great men” who, with all their wisdom, and with many “showers” on the body, which must have been years old, pointing with a kind of bengalim, with which they chased away some flies, and beat on the dogs, which hungry approached the “moranças”, which were your thatched houses)!.

…e, que entre outras palavras, sempre que nos viam, pronunciavam num português acrioulado, que nós compreendíamos perfeitamente, e diziam-nos: olh’a qu’la alí… cabaçú ká t’m… and’a pr’a qui… baju’da ale’m… ma’m’a firmi’… depo’s d’… tém mangá di sábi sábi… précisa d’… está altúra d’… conversa gir’o… o irmãu é qui… ficá nu Guiné… cá bai nu Portugal… e quando nos despedíamos, agarravam-nos na mão e diziam, “ca bai”, e davam-nos “mantenhas”, e às vezes até ficavam, t’chora!. (isto são palavras difíceis de traduzir, mas qualquer combatente que por lá passou, sabe um pouco o seu significado)!. (And who, among other words, whenever they saw us, they pronounced in a sharp Portuguese, which we understood perfectly, and said to us: look at that … cabaçú ká t’m … and ‘ the pr’a qui … baju’da ale’m … ma’m’a firmi ‘… depo’s d’ … has manga di wise sage … need d … … is high up ‘… cute talk … the big brother is … get naked Guinea … here bai nu Portugal … and when we said goodbye, they grabbed our hands and said,’ ca bai ‘, and they gave us “mantenhas”, and sometimes they even stayed, t’chora!. (These are words that are difficult to translate, but any combatant who has been there knows their meaning a little)!.

…estas cenas, eram, como acima mencionámos, uma pequena “lufada de ar fresco”, que fazia parte do preço do sofrimento, da angústia, do mêdo e fúria viver num cenário de combate, do horror, do inferno que por lá vivemos, a marca que nos acompanha para o resto das nossas vidas, que na verdade nos sentimos loucos por dentro e, como veteranos de guerra, temos que ser francos e dizer, que pagamos um preço muito elevado para servir o nosso país e, as vítimas emocionais das guerras equivocadas são na verdade as mais difíceis de suportar, são as tais feridas profundas que sofremos, que podem ser infligidas sem deixar um simples arranhão!. (These scenes were, as we mentioned above, a small “breath of fresh air”, which was part of the price of suffering, anguish, fear and fury living in a scenario of combat, horror, hell that there we live, the brand that goes with us for the rest of our lives, that we actually feel crazy inside and, as war veterans, we have to be frank and say that we pay a very high price to serve our country and Emotional victims of misguided wars are actually the hardest to bear, they are the deep wounds we suffer, which can be inflicted without leaving a scratch)!.

…o Freitas era e, felizmente ainda é, oriundo do arquipélago dos Açores, mais propriamente da ilha das Flores e ainda hoje, pelo menos aqui onde presentemente vivemos, existe uma grande comunidade de pessoas oriundas daquele arquipélago e nós, frequentemente dizemos que o nosso maior e dedicado amigo é oriundo daquelas ilhas, referindo-nos ao Freitas!. (Freitas was and, fortunately still is, from the Azores archipelago, more specifically from Flores Island and even today, at least here where we currently live, there is a large community of people from that archipelago and we often say that our greatest and most devoted friend comes from those islands, referring to Freitas)!.

…o companheiro combatente Freitas sabe o que sofreu na alma e no corpo e, quando regressámos à Europa, uns anos depois, como veteranos de guerra, passando por algumas experiências de vida mais traumáticas que se possam imaginar, a família que nos recebeu, sabia, notava imediatamente, que alguma coisa estáva mal connosco, pela nossa linguagem, maneira de se comportar, que estávamos diferentes, talvez um pouco loucos e algo agressivos!. (Fellow combatant Freitas knows what he suffered in his soul and body, and when we returned to Europe a few years later as war veterans, going through some of the most traumatic life experiences imaginable, the family that welcomed us, knew, noticed immediately, that something was wrong with us, by our language, the way we behaved, that we were different, maybe a little crazy and something aggressive)!.

…infelizmente, os famintos, os doentes, os analfabetos e a miséria que naquele tempo eram constantes, continuaram, mesmo depois, quando parecia que já havia paz, fazendo-nos lembrar que defacto saímos de África físicamente, mas possívelmente não trouxémos as armas, as bombas e as balas, deixando lá apenas, como seria nossa inteira obrigação, todas as maravilhosas armas da paz do século XX!. (Unfortunately, the hungry, the sick, the illiterate and the misery that were constant at that time continued, even later, when it seemed that there was already peace, reminding us that indeed we left Africa physically, but possibly we did not bring the weapons, bombs and bullets, leaving only, as our entire obligation would be, all the wonderful weapons of peace of the twentieth century)!.

…depois do regresso à Europa, ainda juntámos as nossas famílias algumas vezes, pelo menos nos momentos em que o Freitas ia com a sua família ao norte ver jogar o seu clube de futebol, que é o Sporting de Portugal!. (After returning to Europe, we still got our families together a few times, at least when Freitas went with his family to the north to see his football club, Sporting de Portugal)!.

…Freitas, continua com alegria em viver companheiro e, não percas essa “postura de atitude”, pois ainda por cá andamos e ainda vamos sendo úteis, pelo menos para a nossa família e os nossos amigos, com algum destaque para aqueles que foram combatentes, que muito respeitamos!.
(Freitas, continue with joy in living companion and do not lose this “attitude of attitude”, because we still walk around and we are still being useful, at least for our family and our friends, with some emphasis to those who they were combatants, which we respect a lot)!.

Tony Borie, March 2020.

One thought on “

  1. Tony, parabens pelo belo texto que acabei de ler. Continua com essa escrita que será sempre benvinda. O Freitas mereçe ser assim mencionado, pois é um moço 5 estrelas, natural dos Açores mas casado com a Carlota, cá do meu sitio, Cascais, e que eu conheço desde nova. Um grande braço ca´do Roger

    Tony Borie – Pieces of my life escreveu no dia quarta, 18/03/2020 à(s) 08:52:

    > tonisaborie posted: ” …o seu nome é (FMF), para nós, simplesmente > Freitas!. (Your name is (FMF)l, for us simpy Freitas)!. …a manhã não > estava muito quente, regressávamos de tomar banho nos três furos de água > que havia a sul do aquartelamento, de onde vinha uma água ” >

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