…és pessoal do Lisboa!. …(you’re Lisbon people)!.

…és pessoal do Lisboa!.  …(you’re Lisbon people)!.

…ainda hoje, e já lá vão mais de cinquenta anos, quase sessenta, conservamos um pequeno livro, a que chamamos “Diário de Guerra”, que na época uma também “Madrinha de Guerra” nos ofereceu, com uma legenda que dizia mais ou menos, “liberta-te, vai escrevendo”!. (Even today, and for more than fifty years, almost sixty years, we keep a small book, which we call “War Diary”, which at the time also a “Godmother of War” offered us, with a caption that said more or less, “break free, keep writing”)!.

…ainda é o que vamos fazendo, o sono é pouco, altas horas da madrugada já estamos acordados, vigilantes, acabando sempre, entre dois goles de chá, bebidos da nossa chávena preferida, aquela que já não tem asa e está nicada nas bordas, a que temos que agarrar com as duas mãos e nos vai “libertando”, e entre outras, nos vai aquecendo por dentro!. (It is still what we are doing, there is little sleep, late in the morning we are already awake, vigilant, always ending between two sips of tea, drunk from our favorite cup, the one that no longer has a wing and is nicely edges, which we have to grasp with both hands and will “liberating” us, and among others, will keep us warm inside.

…dizendo “libertando”, para não dizer outras palavras que normalmente se juntam ao substantivo para o qualificar, que pode ser o adjectivo qualificativo de outras palavras, como por exemplo, “lembrar um passado de combatente, que defendeu a bandeira de um Portugal Europeu, então colonial, dando o corpo às balas num campo de batalha em África”, que também podem ser consideradas palavras de um verbo pronominal!. (Saying “liberating”, not to say other words that normally join the noun to qualify it, which can be the qualifying adjective of other words, such as “remember a combatant’s past, who defended the flag of a European Portugal, then colonial, giving body to bullets on a battlefield in Africa”, which can also be considered words of a pronominal verb)!.

…claro, já por diversas vezes o mencionámos que, “a maldição de um veterano é que nunca esquece”, mas vamos em frente!. Hoje vamos recordar coisas menos tristes, vamos falar das tais “lufadas de ar fresco”, que por vezes por lá também aconteciam!. (Of course, we have already mentioned it several times that, “the curse of a veteran is that he never forgets”, but let’s move on!. Today we are going to remember less sad things, we are going to talk about the “breaths of fresh air”, which sometimes happened there too)!.

…abrindo o tal livro, numa qualquer página lê-se que nesse dia, que era 4 de Novembro e devia de ser do ano de 1964, fomos a casa de um companheiro militar, que tinha vindo da Europa, como fazendo parte de uma Companhia de Engenharia, responsável pela construção do novo aquartelamento, a que chamávamos “posto avançado”, e que vivia com a esposa nuns casebres improvisados, junto ao acampamento dos militares!. (Opening the book, on any page one reads that on that day, which was the 4th of November and must have been 1964, we went to the home of a military companion, who had come from Europe, as part of an Engineering Company, responsible for the construction of the new quarter, which we called “outpost”, and that lived with his wife in some improvised huts, next to the military camp)!.

…este militar, tinha formação superior, cremos que de militar não tinha mesmo nada, era o responsável por tudo o que dizia respeito a cimento que se usava nas obras do novo aquartelamento e, diziam as “más línguas”, que o camião de três rodados que transportava os sacos de cimento do porto da capital Bissau, não era lá muito seguro, pois deixava “cair” alguns, antes de chegar ao nosso acampamento, pois o já referido camião, quase sempre chegava pouco mais que meio!. (This military man, had a higher education, we believe that he had no military skills at all, he was responsible for everything related to cement that was used in the works of the new barracks and, said the “bad languages”, that the truck of three rounds that carried the bags of cement from the port of the capital Bissau, it wasn’t very safe, as it dropped some, before arriving at our camp, as the aforementioned truck, almost always arrived little more than half)!.

…nós até sabíamos, mas as nossas tarefas eram cifar e decifrar mensagens, portanto não éramos polícias!. Diz lá na página do nosso diário, em letras que parecem rabiscos, que foi um grande convívio, havia uma gazela assada no forno do acampamento, com batatas cozidas e muito vinho!. Deviam ter sido também batatas e vinho roubados no acampamento, não explicando porque nos convidaram, mas falando no forno do acampamento, devia ter metido o “Arroz com Pão”, que era o militar responsável pela comida e o “Tótó”, que era o padeiro e responsável pela distribuição do vinho, que eram nossos amigos, não fazendo nenhuma “patuscada” sem nos avisarem!. (We even knew, but our tasks were to encrypt and decipher messages, so we were not policemen!. It says on the page of our diary, in letters that look like scribbles, that it was a great conviviality, there was a gazelle roasted in the camp’s oven, with boiled potatoes and a lot of wine!. Potatoes and wine should also have been stolen in the camp, not explaining why they invited us, but speaking in the camp oven, I should have put the “Arroz com Pão”, which was the military man responsible for the food and the “Tótó”, which was the baker and responsible for the distribution of the wine, who were our friends, making no “patuscada” without telling us)!.

…noutra página, mais à frente, vem a dizer, numa linguagem um pouco primitiva, que por certo vão desculpar, que viémos à capital Bissau, no “carro dos doentes”, na companhia de outro militar amigo, que andava sempre a fumar um “cigarro feito à mão”, todavia, não tínhamos doença nenhuma, estávamos única e simplesmente de folga das nossas tarefas!. (On another page, later, it comes to say, in a somewhat primitive language, that they will certainly excuse, that we came to the capital Bissau, in the “sick car”, in the company of another military friend, who was always walking smoking a “hand-made cigarette”, however, we didn’t have any disease, we were just and simply off our tasks)!.

…viajámos sem qualquer licença, portanto “desenfiados”, andando a visitar os pontos de referência que normalmente os militares visitavam quando vinham do “mato” à capital, metendo-nos “copos” e não regressando no já mencionado “carro dos doentes”, dormindo nós num local, que diz no diário que era “piolhoso”, próximo do quartel general, onde havia uma grande aldeia com muitas “moranças” e raparigas africanas, que não falavam crioulo, nem usavam sómente um pano em volta da cinta, não tinham “mama firme” e argolas no pescoço ou nas pernas, a servir de enfeite!. (We traveled without any license, therefore “unkempt”, walking to visit the landmarks that the military usually visited when they came from the “bush” to the capital, putting us in “glasses” and not returning in the aforementioned “sick car”, While we were sleeping in a place that says in the diary that it was “lousy”, close to the headquarters, where there was a large village with many “morecas” and African girls, who did not speak Creole, nor did they only use a cloth around the belt, had no “firm breast” and rings on the neck or legs, to serve as an ornament)!.

..não andavam descalças e vestiam roupas com uma cor “berrante”, justas ao corpo, principalmente a segurarem a mama, que já não era “firme”, lábios com alguma pintura, um perfume barato a cheirar a álcool e com gestos sensuais e provocatórios!. Quando se aproximavam, já falavam aquelas palavras obscenas em português, que todos os antigos combatentes conheciam, e diziam mesmo, “És pessoal do Lisboa?. Queres água ou licor do Lisboa?. Olha aqui, “mama firme”, anda dá “patacão”!. (Not walking barefoot and wearing clothes with a “gaudy” color, close to the body, especially holding the breast, which was no longer “firm”, lips with some paint, a cheap perfume that smelled of alcohol and with sensual gestures and provocative!. When they approached, they already spoke those obscene words in Portuguese, which all the former combatants knew, and even said, “Are you guys from Lisboa?. Do you want water or liquor from Lisbon?. Look here, “firm mama”, come on “patacão”)!.

…e, na já referida página do diário continua lá escrito que, ao outro dia acordámos não sabendo onde, mas sem perdermos a calma e com uma certa compostura, retirámos algumas garrafas já vazias de bebida em nosso redor, sem nenhum “patacão” nos bolsos, que não sabemos se fomos roubados ou simplesmente gastámos todo o dinheiro!. (And, on the aforementioned page of the diary, it is still written that, the other day we woke up not knowing where, but without losing our cool and with a certain composure, we removed some already empty bottles of drink around us, without any “padding” ”In our pockets, that we don’t know if we were robbed or just spent all the money)!.

…todavia, sentindo algum orgulho no que tínhamos feito, com o braço no ombro um do outro, pois mal nos continhamos em pé, apresentámo-nos no aeroporto militar de Bissalanca, pregando uma grande mentira, que tínhamos sido “agredidos e roubados”, mas que agora estávamos bem, mas tínhamos que regressar já ao acampamento!. (However, feeling some pride in what we had done, with the arm on each other’s shoulders, as we barely contained ourselves, we presented ourselves at the military airport in Bissalanca, preaching a big lie, which we had been “beaten and stolen”, But that we were fine now, but we had to return to the camp now)!.

…o furriel Honório, o “Pardal”, pois era assim que era conhecido no acampamento em Mansoa, que tinha correio e medicamentos para ao acampamento de Mansabá, trouxe-nos na avioneta!. Quando a secção de combate foi prestar segurança e recolher os sacos do correio, onde não havia correio nenhum, deparando em nós, ambos com um aspecto de pessoas abandonadas, logo disseram, “Sópodiam ser vocês, o comandante vai dar-vos uma “porrada”, que estão fodidos!.(The furriel Honório, the “Pardal”, because that was how he was known at the camp in Mansoa, who had mail and medicines for the Mansabá camp, brought us on the plane!. When the combat section went to provide security and collect the mail bags, where there was no mail, finding us, both with the appearance of abandoned people, they immediately said, “It could only be you, the commander will give you a “beat”, who are fucked)!.

…nunca soubemos porquê, mas nada nos aconteceu!. Que “porrada” maior podíamos levar, se tínhamos sido “agredidos e roubados”, e mesmo assim, obedientes, voltámos ao local de tortura?. (We never knew why, but nothing happened to us!. What bigger “beating” could we take, if we had been “beaten and stolen”, and yet, obediently, we returned to the place of torture)?.

…naquela época, “éramos quase uns soldados sem país” e, talvez por tudo isto, agora, com mais frequência, vamos morrendo, vamos desaparecendo, vamos “libertando-nos” deste mundo onde muitas injustiças ainda existem!. (At that time, “we were almost soldiers without a country” and, perhaps for all this, now, more and more, we are dying, we are disappearing, we are “freeing ourselves” from this world where many injustices still exist)!.

…e nós combatentes da Guerra Colonial Portuguesa, já somos poucos, cada vez menos, talvez para “alívio” de alguns políticos governantes que, vivendo com conforto em cidades, recebendo mensalmente ordenados e mordomias relevantes, vêm em nós pessoas que, embora defendendo a bandeira do então Portugal Europeu e colonial, dando o corpo às balas e, como acima já referimos, agora os “atrapalham”, para não dizer outra palavra que normalmente se junta ao substantivo para o qualificar, que pode ser o adjectivo qualificativo “envergonham”, que também pode ser considerado um verbo pronominal!. (And we fighters of the Portuguese Colonial War, we are already few, less and less, perhaps to the “relief” of some governing politicians who, living in comfort in cities, receiving monthly wages and relevant perks, come to us people who, although defending the flag of the then European and colonial Portugal, giving the body to the bullets and, as already mentioned, now “hinder” them, not to say another word that normally joins the noun to qualify it, which can be the qualifying adjective “ashamed”, which can also be considered a pronominal verb)!.

Tony Borie, March 2020.

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