…para as Forças Armadas Portuguesas!. (for the Portuguese Armed Forces)!.

…para as Forças Armadas Portuguesas!. (for the Portuguese Armed Forces)!.

…depois de 500 anos de domínio colonial, as dezenas de governos que tiveram nas suas mãos os destinos do país Portugal, situado na Europa, até ao final da década de 1950, não só não conseguiram produzir nenhum governador negro, director, inspetor de polícia ou professor, como também não conseguiram produzir um único comandante de patente superior nas suas forças armadas!. (After 500 years of colonial rule, the dozens of governments that had in their hands the destinies of the country Portugal, located in Europe, until the end of the 1950s, not only failed to produce any black governor, director, inspector police or teacher, as well as failed to produce a single senior commander in their armed forces)!.

…claro, os administradores coloniais portugueses, mandados para as suas colónias, foram vítimas do legado das suas próprias políticas discriminatórias e limitadas na educação, o que, em grande parte, barrou negros africanos indígenas de uma educação igual e adequada até bem depois do início da sua revolta, pegando em armas, lutando pela sua libertação!. (Of course, the Portuguese colonial administrators, sent to their colonies, were victims of the legacy of their own discriminatory and limited policies in education, which, in large part, barred indigenous black Africans from an equal and adequate education until much later from the beginning of his revolt, taking up arms, fighting for his liberation)!.

…infelizmente, até essa década de 1950, o território europeu ao sul da Europa continental, de onde nós somos oriundos, e claro, vivendo por lá esta época, era habitado por uma sociedade mais pobre e com uma taxa de analfabetismo muito maior do que a média das sociedades do resto da Europa, sendo governado por uma ditadura de direita autoritária e conservadora, conhecida como regime do “Estado Novo”!.(Unfortunately, until that decade of 1950, the European territory to the south of continental Europe, where we are from, and of course, living there this time, was inhabited by a poorer society and with a much higher illiteracy rate than the average of societies in the rest of Europe, being governed by an authoritarian and conservative right-wing dictatorship, known as the “Estado Novo” regime)!.

…nesta época, o tal regime do “Estado Novo”, apregoava, praticando uma propaganda de que governava tanto o continente português como os vários territórios ultramarinos centenários, como departamentos teoricamente co-iguais, o que na realidade não era, pois estivémos lá, sofremos no corpo e na alma o mêdo e a angústia da guerra de libertação deste povo algo subserviente, vendo a realidade das coisas!. (At that time, the “Estado Novo” regime, proclaimed, practicing propaganda that governed both the Portuguese continent and the various centuries-old overseas territories, as theoretically co-equal departments, which in reality was not, since we were there, we suffer in body and soul the fear and anguish of the war of liberation of this somewhat subservient people, seeing the reality of things)!.

…e, porque as então possessões ou províncias coloniais, depende de como lhe queiram chamar, de Angola, Cabo Verde, Macau, Moçambique, Guiné Portuguesa, Índia Portuguesa, Timor Português, São João Batista de Ajudá e São Tomé e Príncipe, em relação ao continente, lá na Europa, eram governadas como sendo umas colónias subservientes!. Porquê?. Porque mais tarde, critérios estritos de qualificação asseguraram que menos de um por cento do povo negro de então, se tornaram cidadãos portugueses completos!. (And, because the then colonial possessions or provinces, depends on what they want to call it, Angola, Cape Verde, Macau, Mozambique, Portuguese Guinea, Portuguese India, Portuguese Timor, São João Batista de Ajudá and São Tomé and Príncipe, in relation to the continent, there in Europe, they were governed as subservient colonies!. Because?. Because later on, strict qualification criteria ensured that less than one percent of the black people of that time, became full Portuguese citizens)!.

…a realidade, e que numa mobilização forçada, ainda jovens, pouco mais que crianças, nos levou a ir para lá, com a propaganda patriótica de “servir a nação”, “honrar a bandeira do meu país”, “defender a pátria mãe”, “ir para a guerra já e em força” era que, para o então regime governante português, o império ultramarino era uma questão de interesse nacional, a ser preservada a todo custo, desenvolvendo uma guerra de guerrilha mortífera, não lhe importando quem por lá ficava para sempre, embrulhado num camuflado sujo de sangue, perfurado pela rajada de uma qualquer metralhadora inimiga, enterrado na lama dos seus pântanos ou a secar ao sol nas tórridas savanas, esperando que o seu corpo morto, seja comido por algum animal sevagem!. (The reality, and that in a forced mobilization, still young, little more than children, led us to go there, with the patriotic propaganda of “serving the nation”, “honoring the flag of my country”, “defending the mother country”, “go to war now and in force” was that, for the then Portuguese ruling regime, the overseas empire was a matter of national interest, to be preserved at all costs, developing a deadly guerrilla war, no matter who stayed there forever, wrapped in a blood-soaked camouflage, pierced by the blast of some enemy machine gun, buried in the mud of their swamps or drying in the sun in the torrid savannas, waiting for their dead body to be eaten by someone animal sevage)!.

…depois deste breve resumo, ficaram mais ou menos a saber como lá fomos parar, ao interior da África ainda um pouco selvagem, onde infelizmente, os famintos, os doentes, os analfabetos e a miséria eram constantes, onde não se explicavam, injustiças, alguns actos de profunda repugnância e violência, onde resultaram, combates, mêdo, fúria e algumas mortes!. (After this brief summary, they more or less learned how we got there, in the interior of Africa still a little wild, where unfortunately, the hungry, the sick, the illiterate and the misery were constant, where they were not explained, injustices, some acts of profound disgust and violence, which resulted in fighting, fear, fury and some deaths)!.

…mêdo, furia e algumas mortes, ou seja, sofrimento e angústia, que por vezes eram abafados no tabaco ou no excesso de álcool, tal como quando comemorámos um ano desde o desembarque em África, num normal dia quente e abafado, quando um nosso companheiro nos lembrou!. Já nos considerávamos um veterano, já podíamos dar conselhos e opiniões aos mais novos, “a velhice era um posto”, tal como se dizia naquele cenário de guerra!. (Fear, fury and some deaths, that is, suffering and anguish, which were sometimes smothered in tobacco or in excess of alcohol, such as when we celebrated a year since landing in Africa, on a normal hot and sultry day, when one of our companions reminded us !. We already considered ourselves a veteran, we could already give advice and opinions to the youngest, “old age was a post”, as they said in that war scenario)!.

…pegámos no maço de cigarros “três vintes”, fomos à messe dos sargentos, buscar uma garrafa de Vat-69, o uísque que era importado para as forças armadas, com os dizeres no rótulo “para as Forças Armadas Portuguesas” e, os dois, seguimos em direcção à grande árvore que havia dentro do aquartelamento, em cuja base existiam as tais gaiolas dos macacos e periquitos, abrindo a garrafa, atirando com a rolha para longe, sinal de que não precisávamos mais dela!. (We took the cigarette pack “three vintes”, we went to the sergeants’ mess, to get a bottle of Vat-69, the whiskey that was imported to the armed forces, with the words on the label “for the Portuguese Armed Forces” and, the two of us, we headed towards the big tree inside the barracks, at the base of which there were such cages of monkeys and parakeets, opening the bottle, throwing the cork away, a sign that we no longer needed it)!.

…acordámos umas horas depois, com os macacos a olharem-nos, umas vezes com a cara de lado, outras vezes emitindo grunhidos de angústia, dando voltas na gaiola, tentando abri-la, talvez tentando acordar-nos, pois éramos nós que os tratávamos e lhe dávamos algum carinho!. (We woke up a few hours later, with the monkeys looking at us, sometimes with their faces to the side, other times emitting grunts of anguish, going around the cage, trying to open it, maybe trying to wake us up, because it was us that we treated them and gave them some affection)!.

…ao outro dia pela manhã, havia umas fortes dores na cabeça e, ao vestir os calções, desiquilibrámo-nos e rasgando-os um pouco mais!. Era normal, pois a roupa, já estava bastante coçada, as botas gastas, e no comando diziam que só tinha direito a roupa nova, quem a perdesse em combate, ou coisa parecida, e como nós não andávamos em combate, não tínhamos direito a roupa nova!. (The other day in the morning, there were severe pains in the head and, when wearing the shorts, we became unbalanced and tearing them up a little more !. It was normal, because the clothes were already very itchy, the boots were worn, and in the command they said that only new clothes were allowed, whoever lost them in combat, or something like that, and since we were not in combat, we were not entitled to new clothe)!.

…dentro de um pequeno circulo de combatentes, onde funcionava o típico tráfico de influências, os mais velhos, trocavam duas camisas, ou uma camisa e dez maços de cigarros, por uns calções, com os mais novos, pois camisa é coisa que poucos usavam!. Nessa ocasião, a mais importante pessoa, era o sargento da arrecadação, onde não existia arrecadação nenhuma!. (Inside a small circle of combatants, where the typical influence traffic worked, the older ones exchanged two shirts, or a shirt and ten packs of cigarettes, for shorts, with the younger ones, because a shirt is something that few used it!. At that time, the most important person was the collection sergeant, where there was no collection)!.

…falámos com ele, dizendo-lhe com cara de mau, que “os nossos calções estavam rotos e estávamos fartos de calções rotos desde criança”!. Ele, o sargento, com alguma paciência respondeu-nos que, “só se estiverem mesmo rotos, e já não se possam usar”!. (We spoke to him, telling him with a mean face, that “our shorts were broken and we had had enough of broken shorts since we were kids”!. He, the sergeant, with some patience replied that, “only if they are really broken, and they can no longer be used”)!.

…nesse preciso momento, tirámos os calções do corpo, rasgando-os ao meio, dizendo, “aqui está a prova”!. Claro, regressando nú ao local onde exercíamos as nossas tarefas, pois há muito, que não usávamos roupa interior!. (At that very moment, we took the shorts off the body, tearing them in half, saying, “here’s the proof”!. Of course, returning naked to the place where we performed our tasks, since we haven’t used underwear for a long time)!.

…o caso correu fama, andando de boca em boca, no aquartelamento!.  Passado uns dias, tínhamos dois pares de calções novos e, a partir desse momento, foi colocada uma folha no refeitório, para colocarem o nome, e que cada caso seria analizado!. (The case became famous, walking from mouth to mouth, in the barracks!. After a few days, we had two new pairs of shorts and, from that moment, a sheet was placed in the cafeteria, to put the name, and that each case would be analyzed)!.

…tudo isto, era o preço do sofrimento, da angústia, do mêdo e fúria numa zona de combate, do horror, do inferno que vivemos, a marca que nos acompanha para o resto da nossa vida, que na verdade nos sentimos loucos por dentro e, como veteranos de guerra, temos que ser francos e dizer, que pagamos um preço muito elevado para servir o nosso país e, as vítimas emocionais das guerras equivocadas são na verdade as mais difíceis de suportar, são as tais feridas profundas que sofremos, que podem ser infligidas sem deixar um simples arranhão!. (All this, was the price of suffering, anguish, fear and fury in a combat zone, horror, hell that we live in, the mark that accompanies us for the rest of our life, that in fact we feel crazy inside and, as war veterans, we have to be frank and say, that we pay a very high price to serve our country, and the emotional victims of the wrong wars are in fact the most difficult to endure, it is such deep wounds that we suffer, which can be inflicted without leaving a single scratch)!.

Tony Borie, Século XXI. (Tony Borie, 21st Century).

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s