…o nosso combóio, é hora de magia!. (…our train, it’s time for magic)!.

…nascemos lá, o nosso pensamento por vezes continua lá!. 

(…we were born there, our thinking sometimes remains there)!.

…quase oito décadas depois e em outro continente, continuamos a viver um pouco a vida que levámos na nossa aldeia quase mediaval do século passado, no Vale do Ninho D’Águia, lá na Europa, naquela encosta agreste da montanha do Caramulo, onde a terra começava a ser plana e ia deslizamdo até ao mar, onde a natureza era tão simples, onde se nascia sem trazer nada, morrendo sem levar nada e no meio ninguém brigava por algo, porque sabiam que também não levavam nada!.

(…almost eight decades later and on another continent, we continue to live a little of the life we ​​led in our almost medieval village of the last century, in the Valley of the Eagle’s Nest, in Europe, on that rugged slope of the Caramulo mountain, where the land began to be flat and would slide down to the sea, where nature was so simple, where you were born without bringing anything, dying without taking anything and in the middle no one fought for anything, because they knew they didn’t take anything either)!.

…na história de hoje concentramo-nos recordando mais uma vez, talvez quase sonhando, uma daquelas viajens mágicas e maravilhosas no “nosso combóio” que todos os anos na época de verão fazíamos entre a então vila de Águeda e a cidade de Aveiro, que era o trajecto que a nossa saudosa avó materna Agar às vezes usava, quando em criança nos levava para a praia do oceano Atlântico, na aldeia da Costa Nova!. Cá vai!.

(…in today’s story we focus on remembering once again, perhaps almost dreaming, one of those magical and wonderful journeys on “our train” that every year in the summer we used to take between the then town of Águeda and the city of Aveiro, which it was the path that our dear maternal grandmother Agar sometimes used, when she was a child, took us to the beach of the Atlantic Ocean, in the village of Costa Nova!. Here it goes)!.

…era uma manhã de princípio de verão do ano de 1947!. Olhamos o relógio da estação, a nossa avó Agar diz-nos que são 9h15 e estava quase na hora do combóio chegar!. O ambiente é encantador, repleto de movimento!. Pelo cais da estação avistam-se caixotes e outras mercadorias, assim como algumas pessoas que andam atarefadas, trazendo sacas pela mão!.

(…it was an early summer morning in the year 1947!. We look at the station clock, our grandmother Agar tells us that it is 9:15 am and it was almost time for the train to arrive!. The atmosphere is charming, full of movement!. Along the station’s quay, crates and other goods can be seen, as well as some people who are busy, carrying sacks by hand)!.

…dois homens conversam, um traz o guarda chuva pendurado no pescoço, entre a samarra e o seu corpo, uma senhora traz um garoto pela mão que procura largar a mão e fugir, quer ir brincar para a área um pouco ao norte, onde há carvão espalhado pelo chão, diversas rimas de traves de madeira, alguns carris, tanto novos como usados e, um pouco ao lado, no desvio da linha, sobre os carris estão umas tantas carruagens, típicas do Vale do Vouga, ainda com varandins, mistas de primeira e terceira classe!. 

(…two men are talking, one has an umbrella hanging around his neck, between the samarra and his body, a lady brings a boy by the hand who tries to let go of his hand and run away, wants to go play to the area a little to the north, where there is charcoal scattered on the floor, several rhymes of wooden beams, some rails, both new and used and, a little to the side, on the line’s diversion, on the rails there are several carriages, typical of Vale do Vouga, still with balconies, mixed first and third class)!.

…por aqui, vê-se muita gente, algumas mulheres, talvez vindas da montanha, trajam chinelas nos pés, saias pretas de pano cardado de burel, compridas, usando uma cinta de cor vermelha bem apertada, blusa branca com bordados, por baixo de um colete verde escuro, bem justo ao corpo, apertado com botões reluzentes de prata e na cabeça um chapéu largo, de cor preta, com algumas penas de pavão servindo de enfeite!. Os homens trajam normalmente, mas alguns, usam umas calças de pano cardado, também de burel castanho e nos pés usam tamancos ou botas de cabedal com a cor natural e, na cabeça um chapéu com duas bolas caídas atrás, seguras por uma fita de pano!.

(… around here, you see a lot of people, some women, perhaps from the mountains, wear slippers on their feet, long black skirts of carded burel cloth, wearing a tight red color belt, white blouse with embroidery, for under a dark green waistcoat, tight to the body, fastened with glittering silver buttons and on his head a wide black hat, with some peacock feathers as an ornament! Men dress normally, but some wear carded cloth pants, also in brown burel, and on their feet they wear leather clogs or boots in the natural color and, on their heads, a hat with two balls falling at the back, held by a cloth ribbon)!.

…chega o combóio!. Aqui em Águeda, é uma estação intermédia com uma certa relevância, pois tem três linhas, duas delas com agulhas talonáveis e o combóio entra na mais à direita fazendo algum barulho ao travar junto ao depósito do reservatório de água, ajustando-se debaixo do enorme cano, que vem do depósito!. 

(…the train arrives!. Here in Águeda, it is an intermediate station with a certain relevance, as it has three lines, two of them with drawbars and the train enters the one on the far right, making some noise as it brakes next to the water reservoir tank, adjusting under the huge pipe, which comes from the warehouse)!.

…o maquinista, sujo de carvão na cara, puxa de um grande lenço tabaqueiro, que trazia no bolso de trás, limpa a cara e assoa o nariz, sai do seu posto, desce para o chão, com um grande martelo na mão, rodeia a locomotiva, inspeciona as rodas, sobe de novo para o seu interior, verifica o sistema, nomeadamento o nível de água, está um pouco baixo, encolhendo os ombros, resolve meter água, como tal, sai de novo e faz funcionar o sistema de abastecimento enchendo o reservatório!.

(…the machinist, smeared with coal on his face, pulls out a large tobacco handkerchief, which he had in his back pocket, wipes his face and blows his nose, leaves his station, goes down to the ground, with a large hammer in his hand, goes around the locomotive inspects the wheels, climbs back inside, checks the system, namely the water level, it’s a little low, shrugging, decides to put in water, as such, gets out again and makes the system work. supply filling the reservoir)!.

…apreciando todo este cenário, vereficamos que este maravilhoso combóio é composto por um vagão tipo Vale do Vouga, dos abertos de dois eixos, dois vagões também do mesmo tipo, mas cobertos, mais dois semelhantes ao primeiro, três carruagens de varandins de terceira classe e furgão e, na rectaguarda outra Vale do Vouga, mas mais bonita, com uma cor diferente, cremos que é verde azeitona com umas letras desenhadas a ouro, parece que é daquelas transformadas, que podem ser de primeira ou terceira classe, todavia, com o fumo que por ali havia em seu redor, não conseguimos ver bem qual o tipo ou número da locomotiva, mas estamos em crer que era uma CP E96 ou 97!.

(…appreciating all this scenario, we see that this wonderful train is composed of a wagon type Vale do Vouga, two-axle open wagons, two wagons also of the same type, but covered, plus two similar to the first, three carriages with third-class verandas and a van and, in the rear, another Vale do Vouga, but more beautiful, in a different color, we believe it is olive green with some letters drawn in gold, it seems that it is one of those transformed, which can be first or third class, however, with the smoke that was around there, we couldn’t quite see what type or number the locomotive was, but we believe it was a CP E96 or 97)!.

…com a chegada do combóio, em toda a área existe cheiro a carvão queimado, e nós, juntamente com outras pessoas, entrámos pela mão da nossa avó Agar, enquanto os homens de serviço na estação carregam alguma mercadoria!. 

(…with the arrival of the train, there is a smell of burning coal in the whole area, and we, along with other people, entered by the hand of our grandmother Agar, while the men on duty at the station were carrying some goods)!.

…entretanto, o chefe da estação, fardado rigorosamente com um boné branco ao lado de dois “carregadores”, também fardados, cigarro ao canto da boca, junto de um carro de duas rodas, com um casaco de cutim azul, também com um boné já um pouco coçado na cabeça, dá autorização de partida ao combóio, que tinha saído da estação de Sernada do Vouga, pela manhã!.

(…however, the stationmaster, in strict uniform with a white cap beside two “porters”, also in uniform, cigarette in the corner of his mouth, next to a two-wheeled car, wearing a blue cutin coat, also with a cap already a little scratched in the head, he gave the train departure authorization, which had left the Sernada do Vouga station in the morning)!

…o combóio põe-se em movimento, talvez transportando as suas mais de 100 toneladas, o maquinista acelera um pouco, sai muito vapor de ambos os lados da locomotiva, o que faz com que o chefe da estação, com a bandeira numa mão e a outra coçando a testa, gritar algumas palavras obscenas, e nós, apreciámos tudo isto porque o combóio fez uma paragem de mais ou menos 15 minutos, talvez por causa de encher o tanque com água!.

(…the train sets in motion, perhaps carrying its more than 100 tons, the driver accelerates a little, a lot of steam comes out on both sides of the locomotive, which makes the stationmaster, with the flag in his hand, and the other one scratching her forehead, screaming some obscene words, and we enjoyed all this because the train stopped for about 15 minutes, maybe because of filling the tank with water)!.

…segue a uma velocidade normal, mas cremos que às vezes aumenta a velocidade e vai resistindo a algumas curvas mais apertadas!. No interior, com bancos de madeira quase todos ocupados e algumas sacas pelo chão, vamos contentes ao sabor do vento que entra pelas janelas!. Vamos numa carruagem de terceira, mas a avó Agar diz-nos que é de segunda!. 

(…follows at a normal speed, but we believe that sometimes it increases speed and resists some tighter turns!. Inside, with wooden benches almost all occupied and some sacks on the floor, we go happy with the taste of the wind coming through the windows!. We are going in a third-party carriage, but Grandma Agar tells us it’s second-rate)!.

…olhando pela janela, após uma dessas curvas, surge uma ponte metálica, que transpõe o rio Águeda, afluente do Vouga, que passa a poucos metros dali!. Olhando para a esquerda, vemos a planície de campos, alguns alagadiços e para a direita uma montanha de pedra vermelha, tudo antes de entrar num túnel, que é talhado num impressionante esporão de uma falésia vermelha!. 

(…looking out of the window, after one of these curves, a metal bridge appears, which crosses the river Águeda, a tributary of the Vouga, which passes a few meters away!. Looking to the left, we see the plain of fields, some marshes and to the right a mountain of red stone, all before entering a tunnel, which is carved into an impressive spur of a red cliff)!.

…chegámos à estação de Eirol que tem duas vias para cruzamento, também com agulhas talonáveis, entrámos na da direita, enquanto esperámos pelo combóio que vinha da cidade de Aveiro, que se havia de cruzar com “o nosso combóio” nesta estação!. O maquinista aproveita para verificar o estado da locomotiva, nomeadamente a lubrificação do sistema que faz andar as rodas!.

(…we arrived at the Eirol station, which has two lanes for crossing, also with drawbars, we entered the one on the right, while we waited for the train coming from the city of Aveiro, which would cross with “our train” at this station!. The driver takes the opportunity to check the condition of the locomotive, namely the lubrication of the system that makes the wheels run)!.

…seguimos!. A estrada nacional de Águeda para Aveiro, acompanha-nos do lado direito, um pouco à frente, surge-nos o apeadeiro de São João de Loure e, a linha continua a ladear a estrada nacional pela esquerda!. O estuário do rio Vouga, pode-se admirar se olhar-mos para o lado direito e  existe muita água em alguns lugares cobre o campo!. Surge outra passagem de nível, onde uma guarda faz sinal que o combóio podia seguir, onde pouco depois entrámos na estação da povoação rural de Eixo, com duas linhas de agulhas talonáveis!.

(…follow on!. The national road from Águeda to Aveiro, follows us on the right side, a little ahead, the stop of São João de Loure appears and the line continues to flank the national road on the left!. The Vouga river estuary can be admired if you look to the right side and there is a lot of water in some places covers the countryside!. Another level crossing appears, where a guard signals that the train could follow, where shortly after we enter the station in the rural village of Eixo, with two lines of liftable needles)!.

…num espaço de pouco tempo, surge o apeadeiro de Azurva, com a plataforma à esquerda e, contendo apenas uma placa com o seu nome, mais à frente, após curvas e contra-curvas, aparece o apeadeiro de Esgueira, mais uma passagem de nível na estrada nacional Águeda – Aveiro, e finalmente, depois duma recta extensa, a locomotiva CP E96 ou 97, trazendo atrás de si o “nosso combóio” termina todo o seu percurso!.

(…in a short space of time, the Azurva halter appears, with the platform on the left and, containing only a plaque with his name, further on, after curves and counter-curves, the Esgueira halter appears, yet another level crossing on the Águeda – Aveiro national road, and finally, after a long straight, the CP E96 or 97 locomotive, bringing “our train” behind it, completes its entire route)!.

…depois!. Depois saímos pela mão da nossa avó Agar, ajudando a carregar os sacos com lenha, carqueija, alguns utensílios de cozinha, roupa, carne salgada de porco, farinha, entre outras coisas, atravessando a área leste da estação de Aveiro, incluindo, a passagem da linha larga do norte, entrando no edifício principal da estação, para sair  para a cidade, também pela porta principal, enquanto a locomotiva a vapor, possívelmente foi desengatada e dirigida para o depósito das locomotivas, onde iam limpar a fornalha e atestar o depósito de carvão!. 

(…later!. Then we left by the hand of our grandmother Agar, helping to carry the bags with firewood, carqueija, some kitchen utensils, clothing, salted pork meat, flour, among other things, crossing the area east of the Aveiro station, including the passageway. from the northern broad line, entering the main station building, to leave for the city, also through the main door, while the steam locomotive was possibly disengaged and directed to the locomotive depot, where they would clean the furnace and fill the depot of coal)!.

…de seguida entrámos na camionete, de cores amarela e verde, com assentos de cabedal que, depois do homem dos bilhetes, subindo por umas acrobáticas escadas, ter arrumado todos os sacos da nossa bagagem na parte superior do bonito veículo, seguindo em direcção às praias do oceno Atlântico, passando ao lado das salinas, cuja extracção manual do sal era executada pelos “marnotos” (trabalhadores das salinas), transportando à cabeça largas canastras cheias de sal, que estratégicamente iam construindo pequenas montanhas brancas ao lado da rudimentar estrada!. 

(…then we got into the van, in yellow and green, with leather seats that, after the ticket man, climbing some acrobatic stairs, had stowed all our luggage bags on top of the beautiful vehicle, heading towards the beaches on the Atlantic Ocean, passing alongside the salt pans, whose manual salt extraction was carried out by the “marnotos” (salt pan workers), carrying on their heads large canastras full of salt, which strategically built small white mountains next to the rudimentary road)!.

…continuando, travessámos algumas pontes de madeira sobre a maravilhosa Ria de Aveiro, vislumbrando lá ao fundo o Farol da Barra, que depois de percorrer uma parte ao lado da Ria que era recta e plana, chegámos ao fim do nosso destino, que era uma zona com algumas palmeiras, junto à Ria, onde se viam muitos barcos moliceiros, a que chamavam “a paragem das camionetas” na Costa Nova!.

(…continuing, we crossed some wooden bridges over the wonderful Ria de Aveiro, catching a glimpse at the far end of Farol da Barra, which after crossing a part of the Ria that was straight and flat, reached the end of our destination, which it was an area with some palm trees, next to the Ria, where you could see many moliceiro boats, which they called “the bus stop” in Costa Nova)!.

…ficando “a banhos” vivendo por aqui umas tantas semanas nos “palheiros” na aldeia dos pescadores!. Entretanto, infelizmente acordámos deste maravilhoso sonho, para voltar à realidade da presente vida!. 

(…staying “bathing” around here for a few weeks in the “palheiros” in the fishermen’s village!. However, unfortunately we woke up from this wonderful dream, to return to the reality of the present life)!.

Tony Borie, Século XXI. (Tony Borie, 21st Century).

One thought on “…o nosso combóio, é hora de magia!. (…our train, it’s time for magic)!.

  1. Como é bom recordarmos coisas do passado! É sinal de lucidez e que a nossa alma ainda respira! Linda história vivida na companhia da Avó Agar! Grande abraço, e muita saúde para continuar a recordar, sonhar, e a viver, coisas de outros tempos! Fernando

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