…our village!

…a nossa aldeia! (our village)!

…ela, trazia nos pés umas chinelas que tinham sido sapatos no Brazil!. Todavia ela, a avó Agar, assim como o que restava de uma árvore caída no chão, onde por norma se sentava, onde alguns vizinhos diziam que, talvez juntas, deviam de andar próximas das duas centenas de anos, são neste momento as lembranças de amor, ternura e carinho, da nossa aldeia do Vale do Ninho d’Águia!. (she had on her feet slippers that had been shoes in Brazil!. Yet her grandmother Agar, like what was left of a fallen tree on the ground, where she usually sat, where some neighbors said that perhaps together they should be about two hundred years old, are at the moment the memories of love, tenderness and affection, of our village of the Valley of the Eagle’s Nest, (Vale do Ninho d’Águia)!.

…a aldeia, lá na vertente agreste da Montanha do Caramulo, onde a crosta terrestre, lentamente começava a ser plana, flutuando por perto as zonas ribeirinhas do Rio Águeda, onde pela noite, não havendo luz eléctrica, se a terra tremesse, nascendo dos céus uma pequena luz, que seria uma qualquer estrela, talvez uma estrela nova, daquelas que fazem oscilar um continente, ninguém dava por isso!. (the village, there on the rugged slope of Mount Caramulo, where the earth’s crust slowly began to be flat, floating along the riverine areas of the Águeda River, where at night there was no electric light, if the earth trembled, rising from the skies a little light, that would be any star, perhaps a new star, those that make a continent oscillate, no one gave it)!.

…talvez na reunião da capela, na missa do próximo domingo, o senhor padre, com ar muito responsável, vestindo um traje preto, nos dissesse que aquela estrela nova, era um sinal do “Nosso Deus”, lá nas alturas, avisando-nos que não gostava do nosso procedimento, estava zangado e teríamos que rezar, fazer mais sacrifícios, contribuir com mais donativos, baixar a cabeça, render homenagem aos senhores da Vila, que eram os “bons”, os “melhores”, que só tinham intenção de nos fazer bem, pois nós, os “aldeões”, feliz ou infelizmente, não sabíamos que o resto do mundo existia!. (perhaps at the chapel meeting, next Sunday Mass, the priest, with a very responsible air, wearing a black suit, told us that this new star was a sign of “Our God”, up there, warning we would have to pray, make more sacrifices, contribute more donations, lower our heads, pay homage to the lords of the village, who were the “good”, the “best”, who only had intended to do us good, because we, the “villagers”, happily or unfortunately, did not know that the rest of the world existed)!.

…voltando à árvore caída no chão, todos nós a olhávamos com carinho, todavia ninguém se lembrava de quando caíu, ninguém por lá estava naquele momento para ver ou ouvir o ruído da sua queda, mas o carinho dispensado por todos, no nosso olhar, era porque era nossa, nasceu, cresceu e morreu na nossa aldeia, onde todos nos conhecíamos, onde também nascemos, crescemos, alguns casaram, constituindo família e, outros por lá ficaram para sempre!. (returning to the fallen tree on the ground, we all looked at her with affection, yet no one remembered when she fell, no one there was at that moment to see or hear the noise of her fall, but the affection dispensed by all, in our look, it was because it was ours, it was born, it grew and it died in our village, where we all knew each other, where we were also born, grew up, some married, constituting family, and others stayed there forever)!.

…mas, voltando também à avó Agar, lá sentada, embrulhada num xaile preto, com um lenço da mesma cor amarrado na cabeça, que lhe cobria o seu cabelo já branco, usando uma saia de burel preto, onde pendia uma pequena bolsa, bordada com um desenho imitando um coração, parecia dormindo, mas despertava com as nossas palavras ao passar por lá, que correndo lhe dizia-mos: “Bom dia, hó Avó”!. Ela, ficava pensando: “Fui eu que assisti a minha filha Ilda, quando este garoto nasceu, era uma manhã de Setembro, no final das colheitas, andávamos nas vindimas!. (but also returning to her grandmother Agar, sitting there, wrapped in a black shawl, with a scarf of the same color tied to her head, which covered her already white hair, wearing a black burel skirt, where a small bag hung , embroidered with a drawing imitating a heart, seemed asleep, but woke up with our words as we passed by, we ran to him and said: “Good morning, Grandma”!. She kept thinking: “It was I who watched my daughter Ilda, when this boy was born, it was a September morning, at the end of the harvests, we were going to the grape harvest)!.

…éramos um jovem, confiante, com um sentido alto e equilibrado, com um sorriso subtil, pronto para conquistar o mundo, embora ainda não tivéssemos conhecimento que esse mundo existia!. Não sabíamos chorar, o combóio das seis e meia, que por lá passava apitando, vale abaixo em direcção ao oceano, acordáva-nos para a vida de lavoura, as nossas tarefas iam sendo feitas, a aldeia era uma grande família, os vizinhos conheciam-se!. (we were young, confident, with a high and balanced sense, with a subtle smile, ready to conquer the world, although we had not yet known that this world existed!. We did not know how to cry, the six-and-a-half-hour convoy whizzing past, down to the ocean, awakening us to farm life, our tasks being done, the village a great family, neighbors knew).

…todos sabiam que a Marília andava de “barriga à boca” (prenha)!. A menina Tereza, que por saber ler e escrever, era a conselheira e a rádio e TV da família, que por nossa casa passava todas as manhãs, com um avental novo ou lavado, contando as novidades!. O Zé da Adélia, chegou tarde a casa e, já “tombado” (sobre influência de vinho)!. Houve ciclone no pinhal, tombando diversos eucaliptos, tem que haver uma reunião, para se juntarem e irem cortar o que resta das árvores, desimpedindo o caminho!. A senhora Zulmira tem uma “coisinha ruim”, (doença desconhecida)!. Amanhã é dia do Ti Manel Manco, ir à vila, receber a pensão, pois foi combatente na guerra de Flanders, em França!. Enfim, tudo se sabia, ajudando-se mutuamente!. (everyone knew that Marília was walking “belly to the mouth” (prenha)!. The girl Tereza, who by knowing how to read and write, was the counselor and the radio and TV of the family, who passed our house every morning, with a new or washed apron, telling the news,!. Ze Adélia, came home late and, already “overturned” (on wine influence)!. There was a cyclone in the pine forest, overturning several eucalyptus, there has to be a meeting, to be gather and go to cut what remains of the trees, clearing the way!. Mrs. Zulmira has a “bad thing”, (illness unknown)!. Tomorrow is the day of Manel Manco, go to the village, receive the pension, because he was a combatant in the war of Flanders, in France!. At last, everything was known, helping each other)!.

…o filho da Ilda, o mais velho, anda a namorar uma rapariga mais velha do que ele, naquela aldeia lá ao norte!. A Rosa e o Manel, compraram um porco na “feira dos 24”, é uma raça nova, perna curta, está quase sempre parado, é bom para engordar!. Já vieram as batatas para “semente”, está um letreiro na vila, junto à estação do combóio!. A vaca da Albertina parou de dar leite, é inverno, só lhe dão palha!. O Jaquim, filho da Rosa, anda com ideia de ir para o Brazil, fugindo à tropa!. O Toninho, filho da Ilda, já está um homem!. O meu Manel anda esquisito, não quer comer comida cozinhada na mesma panela que usamos para os porcos, vejam a minha “sina”, temos que comprar uma panela nova!. Isto são exemplos de que a nossa aldeia, era uma família muito grande!. (The son of Ilda, the eldest, is dating a girl older than him, in that village to the north! Rosa and Manel, bought a pig in the “fair of the 24”, is a new breed, short leg, is almost always stopped, it is good to get fat!. Already came the potatoes for “seed”, there is a sign in the village, next to the train station!. The Albertina cow stopped giving milk, it’s winter, they only give him straw!. Jaquim, son of Rosa, walks with idea to go to Brazil, fleeing to the troop!. Toninho, son of Ilda, there is already a man! My Manel walks weird, does not want to eat food cooked in the same pan we use for pigs, see my “sina”, we have to buy a new pan!. These are examples of that our village was a very large family)!.

…a nossa aldeia era o nosso mundo, na idade escolar frequentámos a escola na vila de Águeda, mas da vila, dos seus habitantes, não guardamos boas recordações, sómente de alguns jovens da nossa idade, companheiros amigos, mas dos adultos não, desprezávam-nos, dizendo que éramos aldeões, (saloios), talvez porque andássemos vestidos com roupas velhas e remendadas, no entanto numa visita à nossa aldeia do Vale do Ninho d’Águia, uma senhora com algum relevo na sociedade da vila de Águeda, vendo-nos, logo nos convidou a fazer parte do Grupo de Folclore da vila de Águeda!. (our village was our world, in school age we went to school in the village of Águeda, but the village, its inhabitants, we do not keep good memories, only of some young people our age, fellow friends, but not adults, despised us, saying that we were villagers, (saloios), perhaps because we were dressed in old clothes and mended, nevertheless on a visit to our village of the Valley of the Nest of Eagle, a lady with some relief in the society of the village of Águeda, seeing us, soon invited us to be part of the Folklore Group of the village of Águeda)!.

…foi uma lufada de ar fresco na nossa vida, convivendo com jovens da nossa idade, não sendo da nossa aldeia, onde com a ajuda de uma jovem que ficava mais bonita com as mangas arregaçadas, aprendemos a dançar o Malhão, o Vira e outras danças de terreiro!. Lembramo-nos que na ocasião não tínhamos roupa adequada, mas os companheiros jovens, alguns de escola, imediatamente nos proporcionaram toda a roupa necessária!. (was a breath of fresh air in our lives, living with young people of our age, not being from our village, where with the help of a young woman who looked more beautiful with her sleeves rolled up, we learned to dance Malhão, Vira and other terreiro dances!. We remember that we did not have proper clothes at the time, but the young companions, some from school, immediately provided us with all the necessary clothes)!.

…depois, depois veio a mobilização para a Guerra Colonial em África, horrível, onde abrindo o coração, entrava um cenário de ódio, medo e amargura, fazendo de nós um jovem frio como pedra, sem confiança, desconfiado, com um equilíbrio baixo, vendo só portas fechadas, luzes apagadas, escuridão, constantemente ouvindo um uivar de dor silenciosa, quebrando a nossa moral, sem qualquer oportunidade de pedir ajuda!. (then came the mobilization for the Colonial War in Africa, horrible, where opening the heart, entered a scene of hatred, fear and bitterness, making us a young stone cold, unreliable, suspicious, with a low balance, seeing only closed doors, dim lights, darkness, constantly hearing a howl of silent pain, breaking our morals without any opportunity to ask for help)!.

…isto foi o que restou de nós, quando regressámos à nossa querida aldeia do Vale do Ninho d’Águia, onde ainda se encontrava a tal árvore caída no chão, onde por norma a avó Agar se sentava e, que alguns vizinhos diziam que, talvez juntas, deviam de andar próximas das duas centenas de anos!. (this is what remained of us when we returned to our beloved village of the Valley of the Eagle’s Nest, where there was still such a fallen tree on the ground, where grandmother Agar usually sat, and that some neighbors said which, perhaps together, must have been close to two hundred years)!.

Tony Borie, April 2018.

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