…the Hyena!

…a Hiena!. (the Hyena)!.

…fora das nossas tarefas militares andávamos por ali, naquela aldeia ao norte do aquartelamento, onde as crianças nos rodeavam porque no bolso, sempre trazíamos rebuçados comprados na loja do “Libanês”!. Nós, éramos um militar desarmado, reconhecendo a opressão e a luta pela dignidade, vivendo num cenário de guerra mas, lutando pela paz, fazendo o papel de protogonistas de uma história do progresso humano, que sempre foi uma esperança em todo o mundo mas, naquela época e naquele local, era um desafio difícil, muito difícil, ver uma mãe que, enfrentando a punição da pobreza, não tinha quase nada, talvez mesmo nada, para oferecer a uma criança que, começava a acreditar num mundo cruel, sem lugar para sonhos bonitos de criança!. (Outside our military tasks we were walking around in that village north of the barracks, where the children surrounded us because in our pockets we always brought sweets bought in the store of the Lebanese! We were a disarmed military man, recognizing the oppression and the struggle for dignity, living in a scenario of war but fighting for peace, playing the role of protogonists of a history of human progress, which has always been a hope throughout the world, at that time and in that place, it was a difficult, very difficult challenge to see a mother who, faced with the punishment of poverty, had almost nothing, perhaps nothing at all, to offer a child who was beginning to believe in a cruel, for beautiful child dreams)!.

…atrás das crianças vinham os adultos, entre os quais as “Bajudas”, (jovens raparigas), falávamos disto e daquilo, no entanto nunca perdíamos a nossa bússula moral porque, perdendo a moral, os bons e honestos princípios que devem guiar um ser humano, que muitos consideram tolos ou ingénuos, divorciando-nos das decisões que podemos tomar, mesmo naquele cenário de guerra, podiam ser ainda mais fatais, pelo menos para estas simples pessoas, que eram sem qualquer dúvida, as maiores vítimas da miserável Guerra Colonial Portuguesa, que infelizmente vivemos e, nos ficou marcada para o resto das nossas vidas, não só no corpo, como também na alma!. (Behind the children came the adults, among them the “Bajudas” (young girls), we spoke of this and that, nevertheless we never lost our moral compass because, losing the moral, the good and honest principles that must guide a human being whom many consider foolish or naive, divorcing us from the decisions we can make, even in that scenario of war, could be even more fatal, at least for these simple people who were without a doubt the greatest victims of the miserable Colonial Portuguese War, which we unfortunately live in, and has been marked for the rest of our lives, not only in the body, but also in the soul)!.

…muitos “homens grandes”, (chefes de famílias ou mesmo aldeias), falando num português acrioulado, que sem muita dificuldade compreendíamos, tratavam-nos por “irmão”!. Falavam com alguma sabedoria, pois tinham muitas “chuvas” (anos de idade), com uma espécie de bengalim em suas mãos, com o qual afugentavam os muitos insectos ou cães famintos, que por ali havia, e nós, sem nunca duvidar das suas palavras, pois eram sinceras, diziam-nos:

– olha ali, aquela, “cabaço, cá tem” (já tinha tido relações sexuais), anda aqui, aquela tem “mama firme”, (peito duro e saliente, sinal que não tinha amamentado criança), porque depois de “manga di sabe sabe”, (conversa de namoro), está na altura de “conversa giro”, (conversar, combinando sexo)!. Hó “irmão Cifra”, fica no Guiné, “ca bai”, (não vai), no Portugal!.

…e quando nos despedíamos, agarravam na nossa mão e diziam:

– “mantenhas” (saudades, gostámos de te ver)!.

…às vezes, até ficavam”tchora”, (chorando)!.

(Many “big men”, (heads of families or even villages), speaking in an acriled Portuguese, which we understood without difficulty, “brother”!. Spoke with some wisdom, because there were many “rains” (years) with a kind of Bengalim in his hands, with which the many hungry insects or dogs that were there were driven away, and we, without ever doubting their words, for they were sincere, they said to us:

– He looks there, that one, “cabaço, cá tem” (already had sex), walks here, that one has “mama firme”, (hard and salient breast, sign that had not breastfed child), because after “manga di sabe sabe” (dating conversation), it’s time for “conversa giro”, (talk, combining sex)! The “brother Cipher”, is in Guinea, “ca bai”, (not going), in Portugal!.

… and when we said goodbye, they would take hold of our hand and say:

– “mantenhas” (I miss you, we liked to see you!).

… sometimes they even “tchora”, (crying)!.

…todos sabemos que é verdade que a segurança não existe onde os seres humanos não têm acesso a comida suficiente, a água limpa, a medicina ou a um abrigo decente para se viver!. Onde as crianças não possam aspirar a uma educação decente, ou os seus pais tenham oportunidade a usufruir de uma ocupação que sustente a sua família!. A ausência de esperança pode destruir uma sociedade!. É por isso que o planeta Terra se deve unir, parar com os conflitos e, sobretudo ajudar as áreas rurais, para que as pessoas, como era o caso ali, naquela África do interior, que necessitavam de tudo, onde havia um solo rico, mas abandonado devido à guerra, sem oportunidade de cuidar dos doentes ou educar os seus filhos!. (We all know that it is true that security does not exist where human beings do not have access to enough food, clean water, medicine or a decent shelter to live! Where children can not aspire to a decent education, or their parents have the opportunity to enjoy an occupation that supports their family!. The absence of hope can destroy a society!. That is why planet Earth must unite, stop conflicts and, above all, help rural areas, so that people, as was the case there, in that inland Africa, who needed everything, where there was a rich soil, but abandoned due to war, no opportunity to care for the sick or educate their children)!.

…as crianças, que por ali andavam, tocavam em tudo o que reluzisse!. Por exemplo, a fivela do cinto, o emblema da boina, os ilhós das botas, os botões ou o relógio de pulso que algumas vezes usávamos!. Faziam guerra entre elas para se aproximarem de nós!. Numa dessas vezes, estando em pleno convívio, com alguma alegria própria de crianças, num instante desaparecem correndo para junto de suas “moranças”, (casas)!. Nós admirados com a situação, abrindo os braços em sinal de não compreender-mos a atitude, quando uma das “bajudas”, (jovens raparigas), que também estavam presentes, logo nos explicaram, sorrindo:

– o lobo do mato, come criança e, anda por aí!.

…o lobo do mato a que se referia, era uma hiena, que já lá ia algum tempo, andava rondando a aldeia!.

(The children, who walked around, touched everything that glittered! For example, the belt buckle, the beret emblem, the eyelets of the boots, the buttons or the wristwatch that we sometimes used! They were fighting between them to get close to us! In one of these times, being in full contact, with some joy of children, in an instant they disappear running to their “morances” (houses)! We were amazed at the situation, opening their arms in sign of not understanding the attitude, when one of the “bajudas” (young girls), who were also present, soon explained to us, smiling:

– The wolf in the bush, eat as a child, and walk around)!.

… the wolf of the bush to which he referred, it was a hyena, who had been there for some time, was prowling around the village)!.

…não precisamos de pensar que a natureza humana é perfeita para acreditar-mos que a condição humana pode ser aperfeiçoada, pois nós, não tínhamos ouvido nenhum ruído, nenhuma movimentação em redor, como era possível as crianças, terem dado pela presença da referida hiena!. Ainda hoje não sabemos, só temos uma explicação, a tal condição humana aperfeiçoada, talvez o olfacto, o instinto natural de protecção, mas só sensível para alguns!. Era mesmo uma hiena, pois passado uns minutos, passou ao longe, com o rabo curto, caído quase entre as pernas!.
(We do not need to think that human nature is perfect for us to believe that the human condition can be perfected, for we, we had not heard any noise, no movement around, as was possible the children, have given by the presence of said hyena!. Even today we do not know, we have only an explanation, to that perfected human condition, perhaps the smell, the natural instinct of protection, but only sensible for some! It was a hyena, for after a few minutes, she passed in the distance, her tail short, almost between her legs)!.

…o Mamadú, um caçador que costumava passar as madrugadas, esperando que os animais viessem beber água a uma pequena “bolanha” (pântano), que existia para os lados da aldeia de Porto Gole, pois era aí o seu local predilecto para caçar, apresenta-se um dia no aquartelamento, dizendo:

– pessoal vai buscar lobo do mato, que está morto, não come mais criança!.

(Mamadú, a hunter who used to spend the night, waiting for the animals to come and drink water to a small “bolanha” (swamp), which existed to the side of the village of Porto Gole, because it was his favorite spot there hunt, one day appears in the barracks, saying:

– People will get wolf from the bush, that is dead, do not eat more child)!.


…e lá foi a caminho da casa do “Libanês”, levando outra preza, uma gazela morta, pendurada à tiracol, ao qual vendeu, levando uma nota de cinquenta pesos, (dinheiro), embrulhada, metida na sacola do seu farnel, onde não faltava “coca”, (mistura de ervas, algumas afrodisíacas), que mascava quase vinte e quatro horas por dia!. (And there he went on his way to the “Lebanese” house, carrying another pretzel, a dead gazelle, hung on the shoulder, which he sold, carrying a note of fifty pesos (money), wrapped in his bag, where there was no lack of “coca”, (a mixture of herbs, some aphrodisiacs), that chewed almost twenty-four hours a day)!.

Tony Borie, may 2018.

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