…às quatro da madrugada!. (…at four in the morning)!.

..às quatro da madrugada!. (At four in the morning)!.

…acordámos por volta das quatro da madrugada!. Fizémos um chá, que bebemos bem quente, não na nossa caneca preferida, que estava quebrada na asa, que acabou por se partir completamente, mas sim na nova caneca (Route 66), que nos ofereceu a algum tempo os amigos de longa data, quase de infância, a Natércia e o Jorge, que por aqui passam algumas temporadas na Flórida, dos quais já temos algumas saudades!. (We woke up around four in the morning!. We made a tea, which we drank very hot, not in our favorite mug, which was broken in the wing, which eventually broke completely, but in the new mug (Route 66), which offered us some time long friends, almost of childhood, the Natércia and the Jorge, that here pass some seasons in Florida, of which we already have some homes)!.

..a caneca é segurada entre as mãos, que nos vai aquecendo sobretudo o corpo e, talvez a alma, se é que ela existe!. (The mug is held between the hands, which will warm us above all the body and, perhaps the soul, if it exists)!.

…não podemos resmungar sobre a nossa saúde, pelo contrário, alegramo-nos por ainda estar vivos e, também não nos vamos sentir tristes por o dinheiro não chegar até ao final do mês, pelo contrário, ficamos felizes por ainda termos memória para controlar as nossas finanças, encorajando-nos a planear as nossas compras com sabedoria, para nos guiarem para longe da catástrofe que era, não haver dinheiro para a medicina de manutenção, ou o fogão lá na cozinha, não trabalhar mais, por falta de arroz, massa, vegetais ou outros géneros alimentícios!. (We can not grumble about our health, on the contrary, we rejoice to be still alive and, we will not feel sad because the money does not arrive until the end of the month, on the contrary, we are happy that we still have memory for control our finances by encouraging us to plan our purchases wisely, to guide us away from the catastrophe that was, to have no money for maintenance medicine, or the stove in the kitchen, not to work anymore, for lack of rice, pasta, vegetables or other foodstuffs)!.

…consideramo-nos uns “protegidos”, pois ainda esta semana fomos à pesca na praia e, a pesca não foi assim tão má mas, as tempestades de Maio apareceram, a água morna da chuva acariciáva-nos o corpo, as rajadas de vento passavam, naquela água revoltada do mar podia-se ver, talvez a mais de um quarto de milha de distância da costa, dezenas de ondas, seguidas, cobrindo-se umas às outras, pintadas de branco, um branco que não era bem branco, pois havia alguns sinais, aqui e ali, mais escuros, que deviam de ser troncos de árvores, restos de costas tropicais que vinham dar à praia, fugindo da tempestade, da fúria daquele pequeno furacão, que devastava a areia, destruindo as dunas, onde uns momentos antes, era um lugar paradisíaco e nós, sorridentes, mais uma vez sobrevivemos!. (We considered ourselves to be “protected”, because this week we went fishing on the beach and fishing was not that bad, but the May storms appeared, the warm water of the rain caressed our bodies, the gusts of wind they passed, in that revolted water of the sea one could see, perhaps more than a quarter of a mile away from the coast, dozens of waves, followed, covering each other, painted white, a white that was not well white, for there were some darker signs here and there that must have been tree trunks, remnants of tropical coasts that were coming to the beach, fleeing from the storm, from the fury of that little hurricane that devastated the sand, destroying the dunes , where a few moments before, it was a paradisiac place and we, smiling, once again survived)!.

…voltando às quatro da madrugada, como é nosso hábito, saímos lá fora ao pequeno jardim, tocamos numa rosa que tenta florescer, picamo-nos, não ficámos tristes por aquela flor ter espinhos, pelo contrário, ficámos contentes porque aquela pequena árvore com muitos espinhos, é onde nascem aquelas bonitas rosas!. (Returning at four in the morning, as is our habit, we went outside to the little garden, we touched a rose that tries to bloom, we sting, we were not sad because that flower had thorns, on the contrary, we were glad because that little tree with many thorns, is where those beautiful roses are born)!.

…por momentos lembrámos o tempo da nossa juventude, lá na aldeia do Vale do Ninho d’Águia, naquela encosta agreste da montanha do Caramulo, onde a terra começava a ser plana e ao fundo, corria um ribeiro em direcção ao mar!. Era o mês de Maio, altura da primavera e começo do verão, havia uma vejetação selvagem, lindíssima, com papoilas, cardos com flor, rosas, girassóis, nenúfares e outras plantas com cores naturais, que davam um aspecto muito lindo de jardim, onde tudo era selvagem, porque ninguém plantava nada!. Pelo contrário, uma vez ao ano, o pai António e os irmãos mais velhos limpavam o ribeiro, cortando tudo à sua volta, ficava tudo devastado, era um cenário desolador!. (For a moment we remembered the time of our youth, in the village of the Valley of the Nest of Eagle, on that rugged hillside of Caramulo mountain, where the earth began to be flat and in the background, a stream flowed towards the sea!. It was the month of May, springtime and early summer, there was a wild, beautiful exjoice with poppies, thistles with flower, roses, sunflowers, water lilies and other plants with natural colors, which gave a very beautiful aspect of garden, where everything was wild, because nobody planted anything!. On the contrary, once a year, the father Antonio and the older brothers cleaned the stream, cutting everything around him, everything was devastated, it was a desolating scenario)!.

…o pai António, queria o máximo de terra limpa e arável, para gerir a sua agricultura e sustentar os seus filhos, então dizia:

– Isto é uma peste, que tem que acabar!.

(The father Antonio, wanted the maximum of clean and arable land, to manage his agriculture and to support his children, he would say:

    – This is a plague, it has to end)!.

…naquela época, a vida na lavoura não era fácil pois, em alguns anos mais secos ou de geada, não havia produção, levando toda a família, assim como os vizinhos, à fome e à escravatura, onde o horário de trabalho era marcado na manhã, pela passagem do comboio das seis e meia, que rolava com alguma velocidade vale abaixo em direcção ao mar e, pelo seu regresso, por volta das dez e meia da noite, que fazia um ruído ensurdedor, vale acima, com a locomotiva a todo o vapor, em direcção à montanha!. (At that time, farming was not easy because, in some drier years or frost, there was no production, leading the whole family, as well as the neighbors, to hunger and slavery, where working hours were marked in the morning by the passage of the train at six-thirty, which ran with some speed down the valley towards the sea and, on his return, around ten-thirty in the evening, making a deafening noise, locomotive at full steam, towards the mountain)!.

…todavia isto são pensamentos de juventude mas, o importante é que nesta parte do mundo, anda à volta das quatro da madrugada, pelo menos é o que dizem os relógios que marcam o tempo e nós, devíamos de estar a dormir, a descansar o corpo já um pouco cansado, entre outras coisas da idade, mas não dormimos e, como já dissémos fomos lá fora ao jardim, está quente, há luzes no céu, parecem as noites passadas no aquartelamento de Mansoa, lá na Guiné, lá na África, só que aqui, não existe cenário de guerra, não existe humidade nem aqueles malditos mosquitos, no entanto, ouço um pequeno barulho, anda um esquilo no telhado, vejo a sua silhueta, a mexer com a cauda, procura o fruto daquela árvore, ele até tem razão, já aqui vivia, antes de vir-mos para aqui roubar-lhes o espaço!. (But these are thoughts of youth, but the important thing is that in this part of the world, it is around four o’clock in the morning, at least that is what the clocks that mark the time say, and we, we should be sleeping, the rest the body already a little tired, among other things of the age, but we do not sleep and, as we said we went outside to the garden, it is warm, there are lights in the sky, they seem the nights spent in the quarter of Mansoa, there in Guinea, there in Africa, but here, there is no war scene, there is no humidity or those damned mosquitoes, yet I hear a little noise, a squirrel walks on the roof, I see his silhouette, he fiddles with his tail, looks for the fruit of that tree, he’s right, he was already alive, before we come here to steal their space)!.

…abraçamos de novo a caneca do chá, bebemos uns goles, ficamos mais calmos, sentamo-nos, meditamos, pensamos!. Mil coisas nos vêm ao pensamento, começamos a contar o tempo, portanto já não somos nós, somos um relógio, que neste momento marca “quatro da madrugada”!. (We hug the tea mug again, drink a few sips, we are calmer, we sit, we meditate, we think!. A thousand things come to mind, we start counting time, so it’s not us anymore, we are a clock, that at the moment marks “four in the morning”)!.

…é normal nesta idade, cremos que já dormimos o suficiente, pois foram tantas “quatro da madrugada” que por nós passaram, algumas quentes, outras geladas, outras assim, assim, foram na Europa, na guerra em África ou aqui neste continente, mas as “quatro da madrugada”  no verão do Alaska, eram um pouco diferentes, pois era quase sempre dia, e às “quatro da madrugada”, já tínhamos feito muita coisa, entre outras, ido à pesca!. (Is normal at this age, we believe that we have slept enough, because there were so many “four in the morning” that passed us, some hot, some icy, others like that, so it was in Europe, in the war in Africa or here in this continent, but the “four in the morning” in the summer of Alaska, were a little different, because it was almost always day, and at “four in the morning”, we had done a lot, among others, gone fishing)!.

…continuando, apalpando a caneca deste chá bem quente damos uns passos, sentamo-nos em frente ao computador, pensando que nunca trocaríamos a nossa vida maravilhosa de pessoa idosa, a nossa amada família ou os nossos amigos, por mais cabelo, ainda que seja branco, ou por uma barriga mais lisa!. À medida que fomos envelhecendo, tornámo-nos mais amáveis, menos críticos, por exemplo, se estamos sentados e precisamos desta caneca, a nossa preferida, vamos mesmo buscá-la, não incomodamos a nossa esposa e companheira!. (Continuing, feeling the mug of this hot tea, we took a few steps, sat down in front of the computer, thinking we would never change our wonderful old life, our beloved family or our friends, for more hair, even if it is white, or for a smoother tummy!. As we got older, we became more loving, less critical, for example, if we are sitting and need this mug, our favorite, we will really pick it up, do not bother our wife and partner)!.

…às vezes, pensamos que nos tornámos no nosso próprio amigo, não gostamos de incomodar ninguém, e claro, não nos censuramos por comer todas aquelas comidas que dizem que nos fazem muito mal, mas que são adoráveis, ou por entre outras coisas, não fazer a cama, não ajudar nas tarefas da casa, andar por aí, a brincar com o nosso brinquedo helicóptero, que quando está vento mais forte, vai parar à propriedade do vizinho, que vieram lá do norte, de Nova Iorque e, quando a amável senhora nos traz o brinquedo de volta diz, com um ar entre a censura e o feliz, “então os nétinhos estão por cá, tenha cuidado com eles, não os deixe brincar com estes brinquedos, pois são muito perigosos, podem partir as janelas ou mesmo ferir as pessoas, pois eu vi na televisão…”, e lá vem a história toda, contada com pormenores, pois o que ela quer é conversa, passar o tempo, tal como nós, não sabendo que nós, fomos o causador de todo esse “desastre”, pois os nossos netos, estão lá no norte!. (Sometimes we think that we have become our own friend, we do not like to bother anyone, and of course, we do not blame ourselves for eating all those foods that say they do us very badly, but are lovely, or among other things , do not make the bed, do not help in the chores of the house, go around playing with our toy helicopter, which when the wind is stronger, will stop at the property of the neighbor, who came from the north, New York and, when the kind lady brings the toy back to us, with an air between the censorship and the happy one, “then the little ones are here, be careful with them, do not let them play with these toys, for they are very dangerous, the windows or even hurt people, because I saw on the television… “, and there comes the whole story, told with details, because what she wants is talk, spend time, just like us, not knowing that we, we were the cause of all this “disaster”, because our grandchildren, are there in the north)!.

…nesta idade temos o direito de ser desarrumados, de ser-mos livres, pois já vimos muitos amigos queridos e familiares, deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento!. Quem nos vai censurar, por fazer aquela viajem estúpida ao estado do Alaska, com muita aventura, dormindo na caravana com os ursos selvagens por perto, ou atravessar a ponte Golden Gate, na cidade de San Francisco, a pé, com todo aquele vento e nevoeiro por momentos e logo a seguir céu azul e sol radiante, por andar por aí na nossa bicicleta, armados em campeão de ciclo-cross, atravessando praias e riachos com alligators ou cobras, caindo aqui, levantando-nos ali, por comprar algo supérfluo que não precisávamos, ou mesmo se resolvemos ficar a ler, ou a procurar novos horizontes no computador até tarde se, às “quatro da madrugada” já não dormimos e, depois talvez vamos dormir até meio-dia!. (At this age we have the right to be disarranged, to be free, for we have already seen many dear friends and family, leave this world too soon, before understanding the great freedom that comes with aging!. Who’s going to blame us for making that stupid trip to Alaska with a lot of adventure, sleeping in the caravan with the wild bears around, or crossing the Golden Gate Bridge in San Francisco on foot with all that wind and fog for a moment, and then there’s blue skies and radiant sun for riding around on our bike, armed with a cyclo-cross champion, crossing beaches and streams with alligators or snakes, falling here, getting up there, buying something superfluous that we did not need, or even if we decided to read, or to look for new horizons on the computer until late if, at four o’clock we do not sleep and then maybe we’ll sleep until noon)!.

…se nos apetecer dançar ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 & 70, e se, ao mesmo tempo, quiser-mos chorar por um amor perdido, lá na nossa aldeia da montanha, dançamos e choramos, às vezes com baba e ranho!. Se nos apetecer ir à pesca, andar na praia com uns calções não muito apropriados, sobre um corpo decadente, mergulhar nas ondas com abandono, apesar dos olhares penalizados dos outros, que nos há-de importar, eles também vão envelhecer!. (If we want to dance to the sounds of those wonderful successes of the 60s and 70s, and if at the same time we want to cry for a lost love, in our mountain village, we dance and weep, sometimes with drool and snot!. If we want to go fishing, walk on the beach with not very appropriate shorts, on a decadent body, plunge into the waves with abandon, despite the penalized glances of others, who will care, they will grow old)!.

…nós somos uns abençoados por ter vivido o suficiente para já não ter muitos cabelos na cabeça, não ter o riso da juventude, pois muitos nunca riram, muitos dos nossos amigos, e lembramos os nossos companheiros de guerra, lá na Guiné, que morreram jovens, muito antes de perder o cabelo!. Nós, com os anos a passarem, temos o direito de estar errados, gostamos de ser idosos, a idade libertou-nos e gostamos da pessoa em que nos tornámos, embora sabendo que não vamos viver para sempre, o nosso futuro pode ser daqui a um minuto, talvez segundos!. (We are blessed to have lived long enough not to have too many hairs on our heads, not to have the laughter of youth, for many have never laughed, many of our friends, and we remember my comrades in Guinea, who died young, long before losing their hair!. We, as the years pass, we have the right to be wrong, we like to be old, age has set us free and we like the person we have become, although knowing that we will not live forever, our future may be from here. one minute, maybe seconds)!.

…depois de ter transformado em letras o que nos vai no pensamento, abandonámos o computador, voltamos à realidade, demos uns passos até à televisão, lá vem o sinal, em letras grandes, com música de fundo, uma música irritante, anunciando algum desastre, é o “Five o’clock news”, pois já são cinco da manhã, vem logo um “chorrilho”, de novidades, que já não são novidades nenhumas, pois infelizmente são as notícias normais, deste mundo normal, “que cada vez, está mais cada vez”, e o noticiário é só “desgraças”, é raro dizerem que nasceu uma criança, mostrarem um jardim com flores ou aquela pessoa, com bons recursos financeiros, deu um beijo e acariciou, dando comida e roupa, àquela criança com o tal “ranho no nariz”!. (After having turned into words what we had in mind, we left the computer, returned to reality, took a few steps to the television, there comes the signal, in large letters, with background music, an annoying song, announcing “Five o’clock news”, because it’s already five o’clock in the morning, there’s a “chorrilho” of news, which is no longer news, because unfortunately it’s the normal news, from this normal world, “that every time, it is more and more”, and the news is just “misfortune”, it is rare to say that a child was born, to show a garden with flowers or that person, with good financial resources, gave a kiss and caressed, giving food and clothes, to that child with such “snot in the nose”)!.

…o dia está a clarear, já passa algum tempo depois das “quatro da madrugada”, até das cinco e, por aqui, uma região com um clima sub-tropical, existem muitas festas de final de dia, a que chamam, “It’s 5 o’clock somewhere”, que quer dizer mais ou menos, “são 5 horas, em qualquer lugar”, tanto faz ser às cinco da manhã, ou às cinco da tarde, onde as pessoas se divertem, dançam, bebem, comem, namoram, encontram-se, conhecem-se, confraternizam, procuram tudo para se esquecerem da vida dura do dia a dia, o que no nosso entender está muito bem, mas continuamos a pensar que isto não tem mesmo nada a ver, com as “quatro da madrugada”, mas como antes dissémos, já são cinco da manhã, e continuamos acordados, quando devíamos de estar a dormir!. (The day is clearing, it is some time after “four o’clock in the morning”, until five o’clock, and here, a region with a sub-tropical climate, there are many end-of-day parties, which they call, “It’s 5 o’clock somewhere”, which means more or less, “it’s 5 o’clock, anywhere”, whether it’s five o’clock in the morning or five o’clock in the afternoon where people have fun, dance, they eat, they meet, they confraternize, they look for everything to forget the hard life of the day to day, which in our opinion is very well, but we continue to think that this has nothing to do with the four o’clock in the morning, but as we said before, it’s already five o’clock in the morning, and we’re still awake when we should be asleep)!

Tony Borie, May 2019.

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