…também fomos prisioneiros!. (We were also prisoners)!.

…também fomos prisioneiros!. (We were also prisoners)!.

…o então governo colonial de Portugal retirou à nossa existência, quase uma dezena dos nossos “verdes anos”!. (The then colonial government of Portugal removed almost ten of our “green years” from our existence)!.

…naquela época, antes da Guerra Colonial Portuguesa em África, éramos um povo que sobrevivia de uma história de guerreiros, aventureiros e navegadores, com quase mil anos!. De um povo que existia, transcendendo algumas fronteiras geográficas, culturais e religiosas, que tinha estado em diversos continentes, por vezes impondo os seus usos e costumes, com algum destaque para a América do Sul e África!. (At that time, before the Portuguese Colonial War in Africa, we were a people that survived from a history of warriors, adventurers and navigators, almost a thousand years old!. From a people that existed, transcending some geographical, cultural and religious boundaries, that had been on several continents, sometimes imposing their uses and customs, with some emphasis on South America and Africa)!.

…e, depois de aproximadamente 500 anos de domínio colonial, Portugal não só não conseguiu produzir nenhum governador negro, diretor, inspector de polícia ou professor, mas também não conseguiu produzir um único comandante de patente superior nas suas Forças Armadas, e claro, os administradores coloniais portugueses foram vítimas do legado das suas próprias políticas discriminatórias e limitadas na educação, o que, em grande parte, barrou os negros africanos indígenas de uma educação igual e adequada, tudo isto, até bem depois do início da sua revolta!. (And, after approximately 500 years of colonial rule, Portugal not only failed to produce any black governor, director, police inspector or teacher, but it also failed to produce a single top-ranking commander in its Armed Forces, and of course, Portuguese colonial administrators were victims of the legacy of their own discriminatory and limited policies in education, which, in large part, barred indigenous black Africans from an equal and adequate education, all of this, until well after the start of their revolt)!.

…fartos deste regime discriminatório, pegaram em armas!. Quando?. Existe quem acredite que tudo começou logo após a Segunda Guerra Mundial, quando as ideologias comunistas e anti-coloniais se espalharam pela África, onde muitos movimentos políticos clandestinos foram estabelecidos em apoio à independência usando várias interpretações da ideologia revolucionária marxista!. Esses novos movimentos aproveitaram o sentimento anti-português e anticolonial para ajudar a derrubar as estruturas governamentais existentes na então África Portuguesa!. (Fed up with this discriminatory regime, they took up arms!. When?. There are those who believe that it all started right after World War II, when communist and anti-colonial ideologies spread across Africa, where many clandestine political movements were established in support of independence using various interpretations of revolutionary Marxist ideology!. These new movements took advantage of the anti-Portuguese and anti-colonial sentiment to help bring down the existing government structures in what was then Portuguese Africa)!.

…claro, estes movimentos revolucionários, alegando que as políticas e os planos de desenvolvimento portugueses foram concebidos, quase e só, em benefício da população étnica portuguesa, em detrimento do controle tribal local, do desenvolvimento de comunidades nativas e da maioria da população indígena, que sofreu tanto a discriminação patrocinada pelo estado colonial Português, com uma enorme pressão social para cumprir as políticas governamentais, impostas como já referimos, pelo governo de Lisboa, que era na época, a capital do império!. (Of course, these revolutionary movements, claiming that Portuguese policies and development plans were conceived, almost and only, for the benefit of the Portuguese ethnic population, to the detriment of local tribal control, the development of native communities and the majority of the population indigenous, who suffered so much discrimination sponsored by the Portuguese colonial state, with enormous social pressure to comply with government policies, imposed as we have already mentioned, by the government of Lisbon, which was at the time, the capital of the empire)!.

…claro, sofrendo no corpo e na alma toda esta situação, iniciaram uma guerra de guerrilha, dolorosa e mortífera, pois queriam ver-se livres das amarras dos Europeus!. (Of course, suffering in body and soul all this situation, they started a guerrilla war, painful and deadly, because they wanted to get rid of the bonds of the Europeans)!.

…ficando no então colonial Portugal, um povo sofredor e amedrontado, nas suas cidades, vilas e aldeias, a ouvirem constantemente relatos dolorosos de uma guerra sangrenta em África, para onde os seus filhos eram enviados, por lá ficando, alguns para sempre!. (Remaining in the then colonial Portugal, a suffering and frightened people, in their cities, towns and villages, constantly hearing painful reports of a bloody war in Africa, where their children were sent, staying there, some forever)!.

…e nós, jovens, oriundos da Europa, com uma educação de aldeia, onde os princípios honestos de família vinham de há séculos, também fomos violados no corpo e na alma, durante os dez meses e 26 dias, tempo que durou o treino de combate, num qualquer Quartel Militar de província, recebendo uma instrução básica, que era concentrada em saber defender-se e, como saber matar!. (And we, young people, from Europe, with a village education, where honest family principles came from centuries ago, we were also violated in body and soul, during the ten months and 26 days, a time that lasted combat training, in any military barracks in the province, receiving basic instruction, which was focused on knowing how to defend yourself and how to kill)!.

…matar de diferentes maneiras, usando diferente partes do corpo, onde se pode produzir uma morte rápida, ou prolongada!. (O militar que proporcionava a instrução, tinha regressado, há pouco tempo de uma comissão de serviço, numa província do ultramar, contava histórias de combate, exemplificava, em cada um de nós, o local do corpo, em que devíamos acertar com uma bala, ou com uma faca, fazendo isto, com tal precisão, com os olhos vidrados de raiva, que até nos assustava)!. (Kill in different ways, using different parts of the body, where you can produce a quick or prolonged death!. (The military man who provided the instruction, had recently returned from a service commission in an overseas province, told stories of combat, exemplified, in each of us, the location of the body, where we should hit with a bullet, or with a knife, doing this, with such precision, with eyes glazed with anger, that it even scared us)!.

…algum tempo depois, navegando pelo Oceano Atlântico, rumámos ao sul, no porão de um navio de carga, em camas de madeira, construídas de emergência, colocadas em espaços improvisados onde não havia qualquer ventilação, com uma alimentação precária, sem qualquer horário fixo, desembarcando-nos em África, num cenário mortífero de combate, onde era muito fácil morrer, bastava andar por ali!. (Some time later, sailing through the Atlantic Ocean, we headed south, in the hold of a cargo ship, on wooden beds, built in emergency, placed in improvised spaces where there was no ventilation, with poor food, without any fixed time, disembarking in Africa, in a deadly combat scenario, where it was very easy to die, just walk around)!.

…estávamos num cenário de guerra, em África, onde a sorte nos podia contemplar com uma morte horrível, destruindo o nosso jovem corpo, crivado de balas ou destruído na explosão de uma granada de morteiro 90, numa qualquer emboscada, naqueles pântanos, rios, florestas ou savanas daquela África, num cenário onde não se explicavam, injustiças, alguns actos de profunda repugnância e violência, onde resultaram combates, mêdo, fúria e algumas mortes, lutando contra pessoas rurais, que nunca tínhamos visto antes, nunca tínhamos tido qualquer contacto e no nosso pensamento, não encontrávamos qualquer razão para os combatermos!. (We were in a war scenario, in Africa, where luck could contemplate us with a horrible death, destroying our young body, riddled with bullets or destroyed in the explosion of a 90 mortar shell, in any ambush, in those swamps, rivers, forests or savannas of that Africa, in a scenario where injustices, some acts of deep disgust and violence were not explained, resulting in combats, fear, fury and some deaths, fighting against rural people, whom we had never seen before, we had never had any contact and in our thinking, we found no reason to fight them)!.

…os helicópteros voavam para o nosso “Posto Avançado”, (que ajudámos a construir e onde sobrevivemos por dois longos anos), quase diáriamente, recolhendo doentes, feridos ou mortos!. O nosso equipamento militar era inferior ao dos guerrilheiros, começávamos a ver a guerra de guerrilha agressiva e violenta, que os guerrilheiros que lutavam pela independência do seu território nos impunham, como uma séria ameaça!. (The helicopters flew to our “Outpost”, (which we helped to build and where we survived for two long years), almost daily, picking up sick, injured or dead!. Our military equipment was inferior to that of the guerrillas, we started to see the aggressive and violent guerrilla war, which the guerrillas fighting for the independence of their territory imposed on us, as a serious threat)!.

…nós militares, encontravamo-nos na pior posição, para avançar e identificar com precisão a sua localização no terreno, onde existia selva cerrada, pântanos ou canais, com água, lama e tarrafo, onde frequentemente surgiam ataques, em certos pontos considerados estratégicos, ao atravessar os rios ou canais, onde havia os “macaréus”, (grande vaga impetuosa que, em certos rios, se forma quando as águas desse mesmo rio se encontram com as água do mar), onde em algumas situações o inimigo, tirando alguma vantagem, surgia de todos os lados, atacando, disparando, sem dar qualquer oportunidade para que se recuperasse os nossos mortos ou feridos, que infelizmente por lá ficavam para sempre!. (We military, we were in the worst position, to move forward and identify precisely its location on the ground, where there was thick jungle, swamps or canals, with water, mud and tarto, where attacks often appeared, in certain points considered strategic, when crossing the rivers or channels, where there were the “macaréus”, (great impetuous wave that, in certain rivers, is formed when the waters of that same river meet the sea water), where in some situations the enemy, taking some advantage, it appeared from all sides, attacking, firing, without giving any opportunity for our dead or wounded to recover, which unfortunately remained there forever)!.

…a nossa desmoralização aumentava, principalmente ao ver em redor do nosso posto avançado, aquele povo rural e humilde, sofredor e carinhoso, que embora vivendo numa profunda miséria, mostravam um pequeno sorriso ao receberem a pouca comida que por vezes lhes levávamos, repartindo-a com os cães ou outros animais, que por ali andavam magros e cobertos de moscas!. Era a cara da necessidade humana, era o doente abandonado, a família faminta, a criança que não sabia ler, eram homens e mulheres, alguns sem abrigo, com roupa em farrapos, lutando pela sobrevivência, numa terra com um mar muito rico e com um solo muito fértil!. (Our demoralization increased, especially when we saw around our outpost, those rural and humble people, suffering and affectionate, who although living in a deep misery, showed a small smile when receiving the little food that we sometimes brought them, sharing it with dogs or other animals, who were thin and covered in flies around there!. It was the face of human need, it was the abandoned patient, the hungry family, the child who could not read, they were men and women, some homeless, with clothes in rags, fighting for survival, in a land with a very rich sea and with very fertile soil)!.

…assim sobrevivemos, por um período de dois longos anos neste “Posto Avançado” do interior, ou seja, um lugar onde os militares de combate, tomavam conhecimento das primeiras savanas, rios, riachos, bolanhas, (terras lamacentas de cultivo de arroz), pântanos e florestas de trilhas frescas, usadas pelos guerrilheiros que, como já mencionámos, lutavam pela independência do seu território, querendo libertar-se da presença dos Europeus, que por ali andavam há quase quinhentos anos!. (So we survived, for a period of two long years in this “Outpost” of the interior, that is, a place where the combat military, took notice of the first savannas, rivers, streams, bolanhas, (muddy lands of cultivation of rice), swamps and fresh trail forests, used by guerrillas who, as we have already mentioned, were fighting for the independence of their territory, wanting to free themselves from the presence of Europeans, who had been walking there for almost five hundred years)!.

…finalmente regressámos à Europa, navegando no terceiro piso do porão de outro navio de carga, com camas improvisadas em madeira, parecidas com as que se usavam no “Posto avançado” do interior das selvas da então Guiné Portuguesa, onde sobrevivemos por dois longos anos, com chão de terra vermelha e cercado de arame farpado!. (We finally returned to Europe, sailing on the third floor of the hold of another cargo ship, with improvised wooden beds, similar to those used in the “outpost” of the interior of the then Portuguese Guinea jungles, where we survived for two long years, with a red earth floor and surrounded by barbed wire)!.

…depois!. Os famintos, os doentes, os analfabetos e a miséria que naquela época eram constantes, infelizmente continuaram, mesmo depois, quando parecia que já havia paz, fazendo-nos lembrar que defacto saímos de África físicamente, mas possívelmente não trouxémos as armas, as bombas e as balas, deixando lá apenas, como seria nossa inteira obrigação, todas as maravlhosas armas da paz do século XX!. (After!. The hungry, the sick, the illiterate and the misery that were constant at that time, unfortunately continued, even afterwards, when it seemed that there was already peace, reminding us that in fact we left Africa physically, but possibly did not bring the weapons, the bombs and the bullets, leaving there only, as our entire obligation would be, all the wonderful weapons of peace of the 20th century)!.

…e hoje, no ano de 2020, mais de cinquenta anos depois, o país que para lá nos mandou, para aquela maldita guerra de guerrilha, tirando-nos, ainda jovens da nossa aldeia, oferecendo-nos naquele tempo um bilhete de lotaria, onde podíamos ser contemplados com uma morte violenta, num cenário de combate, onde a qualquer momento o nosso jovem corpo podia ser destruído por balas ou estillaços de uma qualquer granada, mina ou fornilho, que com alguma sorte seria recolhido, embrulhado no seu camuflado sujo com o seu próprio sangue, para não ser abandonado naqueles pântanos cobertos de água suja de lama, como aconteceu a muitos companheiros, ou os traumas daquela maldita guerra, que nos têm acompanhado durante a nossa já longa existência e, como dizíamos, esse nosso país, continua a ignorar-nos, contemplando-nos com uma ‘fortuna’, equivalente a 41 centavos por dia!. (And today, in the year 2020, more than fifty years later, the country that sent us there, for that damned guerrilla war, taking us, still young from our village, offering us at that time a ticket of lottery, where we could be contemplated with a violent death, in a combat scenario, where at any moment our young body could be destroyed by bullets or shrapnel from any grenade, mine or bowl, which with any luck would be collected, wrapped in its camouflaged dirty with his own blood, so as not to be abandoned in those marshes covered in mud-dirty water, as happened to many companions, or the traumas of that damned war, which have accompanied us during our already long existence and, as we said, this our country, continues to ignore us, contemplating us with a ‘fortune’, equivalent to 41 cents a day)!.

…e, para terminar, o então governo colonial de Portugal, com receio que ao imigrar para qualquer outro país, poderíamos mencionar os “segredos da cifra”, (que era a nossa tarefa em cenário de guerra), teve em seu poder a nossa caderneta militar, até ao dia 31 de Dezembro do ano de 1971!. Como tal, ficámos prisioneiros em Portugal até àquela data, pois sem este documento não poderíamos tratar de qualquer documentação para emigrar para outro país!. (And, finally, the then colonial government of Portugal, fearing that when immigrating to any other country, we could mention the “secrets of the cipher”, (which was our task in a war scenario), had in its power our military passbook, until December 31st of 1971!. As such, we were prisoners in Portugal until that date, because without this document we could not handle any documentation to emigrate to another country)!.

…assim passaram “Oito anos, seis meses e quatro dias”!. (So “Eight years, six months and four days” passed!.

Tony Borie, March 2020.

One thought on “…também fomos prisioneiros!. (We were also prisoners)!.

  1. Tony, como sempre muito bem escrito, parecendo que vieste da Guiné muito recentemente, pois estás com uma memória formidável. Um grande abraço, e toma cuidado com o corona -virus. Nós por cá estamos muito apreensivos, pois ele está-se espalhando pela Europa. Roger

    Tony Borie – Pieces of my life escreveu no dia sábado, 29/02/2020 à(s) 10:04:

    > tonisaborie posted: ” …também fomos prisioneiros!. (We were also > prisoners)!. …o então governo colonial de Portugal retirou à nossa > existência, quase uma dezena dos nossos “verdes anos”!. (The then colonial > government of Portugal removed almost ten of our “green years” ” >

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