…meets an enemy!.

…encontra um inimigo!. (meets an enemy)!.

…pelo governo do então Portugal Colonial, nós, ainda jovens, fomos levados, ou seja “arrancados”, do silêncio da nossa aldeia, na encosta agreste da montanha do Caramulo, para ser treinados e mentalizados, num campo de treinos duma cidade da província, que era uma mistura de ruídos, obstáculos, armas, tiros e atrapalhação, onde poucos meses depois, metidos no porão de um navio de carga, navegámos pelo oceano Atlântico, rumo a África, rumo a um teatro de operações, mostrando-nos um terrível cenário de guerra, combatendo pessoas que, nunca tínhamos visto antes e, da nossa parte, nada havia em contra!. (By the government of the then Colonial Portugal, we, as young men, were taken from the silence of our village on the rugged hillside of the Caramulo mountain, to be trained and mentalized, in a training camp in a city of the province, which was a mixture of noise, obstacles, weapons, shots and fumbling, where a few months later, in the hold of a cargo ship, we sailed across the Atlantic Ocean towards Africa, to a theater of operations, in a terrible scenario of war, fighting people we had never seen before and, for our part, there was nothing against)!.

…por um período de dois anos, sobrevivemos como combatentes numa terrível guerra de guerrilha, na então Província Colonial da Guiné Portuguesa, que mais tarde foi denominada como o “Vietname de Portugal”!. O grupo armado, Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que nos combatia, lutando pela libertação do seu território, estava bem treinado, bem liderado e equipado, recebendo apoio substancial de portos seguros em países vizinhos, como o Senegal e a Guiné-Conacri!. Eram seus aliados perto da fronteira, excelentes para lhes fornecer uma superioridade táctica aos frequentes ataques às forças armadas Portuguesas e, reabastecer as suas bases (casas mato), para os seus guerrilheiros, nas selvas e pântanos da então Província Colonial Portuguesa da Guiné!. (For a period of two years, we survived as combatants in a terrible guerrilla war, in the then Colonial Province of Portuguese Guinea, which was later termed the “Vietnam of Portugal”! The armed group, the African Party for the Independence of Guinea and Cape Verde (PAIGC), fighting for the liberation of their territory, was well trained, well led and equipped, receiving substantial support from safe ports in neighboring countries, such as Senegal and Guinea-Conakry!. They were their allies close to the border, excellent enough to provide tactical superiority to frequent attacks on the Portuguese armed forces and to replenish their bases (bush houses), for their guerrillas in the jungles and swamps of the then Portuguese Colonial Province of Guinea)!.

…lembrando uma pequena parte desse conflito, “ele”, pertencia a um pelotão de Artilharia!. Nós, os militares aquartelados no posto avançado da vila de Mansoa, estávamos envolvidos quase diáriamente em ataques nocturnos dos guerrilheiros, talvez porque um tempo antes, o nosso comando de Agrupamento tinha ordenado um ataque a uma base inimiga, ao norte da vila de Mansabá, que envolveu bombardeamentos feitos pelos aviões da força aérea, em conjunto algumas forças especiais do grupo de comandos, vindos da capital Bissau!. (Remembering a small part of this conflict, “him” belonged to an Artillery platoon!. We, the military quartered at the outpost of the village of Mansoa, were involved almost daily in night-time attacks by the guerrillas, perhaps because some time before our command of the Group had ordered an attack on an enemy base north of the village of Mansabá, which involved bombing by air force planes, together with special forces from the command group from the capital Bissau)!.

…estes ataques quase contínuos ao nosso posto avançado da vila de Mansoa, talvez fossem uma resposta dos guerrilheiros, querendo dizer que estavam vivos e andavam por ali, tal como que por ali, naquele aquartelamento militar, havia muitos militares não conhecidos, que tinham sido provisóriamente alojados nas instalações deste posto avançado, onde estivémos permanentemente prisioneiros, dentro dum cerco de arame farpado, em missão de serviço cripto, por um período de dois anos, e “ele”, aproximou-se de nós e falou:

  – Por favor ajuda-me!. Onde posso beber água?. Isto aqui é difícil?. Onde é que vamos dormir?.

(These almost continuous attacks on our outpost in the village of Mansoa might have been a response from the guerrillas, meaning that they were alive and were walking around, just as there were many unknown soldiers in that military barracks. had been provisionally housed in the facilities of this outpost, where we were permanently prisoners, within a barbed-wire siege, on a crypto-service mission, for a period of two years, and “him” approached us and spoke:
   
    – Please, help me!. Where can I drink water?. Is this difficult here?. Where are we going to sleep)?.

…naquele momento, nós, sentados no patamar construído de pedras e terra vermelha, em frente ao Centro Cripo, olhando o horizonte, pensando na nossa aldeia em Portugal, esperando que alguma mensagem viesse do Centro de Transmissões, baixámos os olhos e, em frente a um cenário com viaturas com tropas, usando camuflados novos, que cheiravam a tinta fresca, demos de caras com a pessoa que nos falava!. (At that moment, we, sitting on the porch built of stones and red earth, in front of the Cripo Center, looking at the horizon, thinking of our village in Portugal, waiting for some message to come from the Broadcast Center, we lowered our eyes and, in front of a scene with vehicles with troops, wearing new camouflage, smelling fresh paint, we made faces with the person who spoke to us)!.

…olhámos bem, sim era “ele”, pois usava óculos graduados!. Nós, lembrando um dos momentos mais infelizes do tempo da instrução e mentalização militar, no tal campo de teinos, ainda em território do então Portugal Continental, ficámos um pouco confusos, todavia recuperámos alguma calma e, tirando o cigarro três vintes da boca, circulámos em seu redor, com a intenção de nos certificar, se era a mesma pessoa!. (We looked good, yes it was “him”, because he wore glasses graduated!. We, remembering one of the most unfortunate moments of the time of instruction and military mentation, in such a field of teinos, still in territory of the then Continental Portugal, we were a little confused, however we recovered some calm and, taking the cigarette three vintes from the mouth, circulámos in his surroundings, with the intention of making sure, if it was the same person)!.

…sim, era “ele”!. Era um tal “primeiro cabo”, que ainda só era primeiro cabo e que, num tal campo de treinos da província, no nosso último dia de instrução e mentalização, já com guia de marcha para nos deslocar no próximo dia para uma base nos arredores da capital Lisboa, na “formatura do recolher da noite”, este militar, ainda e como já explicámos, com o posto de primeiro cabo mas, que já fazia de sargento de dia, pois estava à espera de promoção ao posto imediato, que era furriel, tinha umas divisas parecidas com as de furriel miliciano, mas não era miliciano, era um primeiro cabo, que devia ter assistido a um curso, que lhe daria a promoção ao posto imediato e, naquela noite, fez de todos os militares presentes naquele campo de treinos, “gato e sapato”, como se costuma dizer!. (Yes, it was “him”!. It was such a “first corporal”, who was still only the first corporal and that, in such a field of training of the province, in our last day of instruction and mentalization, already with guide of march to move the next day to a base in the surroundings of the capital Lisbon, at the time of the “night curfew submission”, this military man, as we have already explained, with the post of first corporal, who was already a “sergeant by day”, since he was waiting for promotion to the immediate post, which was “furriel”, had some but he was not a militiaman, he was a first corporal, who should have attended a course, which would give him promotion to the immediate post, and that night made all the military present in that field of training, in a “cat and shoe” gathering, as they say)!.

…mandava pôr todos em sentido, chamava pelo número, vinha ver se era a pessoa que respondeu, pedindo a identificação, enfrentáva-nos com cara de guerreiro, mas ridícula, pois fazia rir a pessoa que enfrentava, depois dava uma volta em seu redor, analizava o cabelo, a barba, a farda, os emblemas limpos, as botas engraxadas, depois passava um raspanete agressivo, mesmo sem qualquer motivo!. Isto tudo numa parada e numa formatura de recolher, portanto à noite, fazendo prolongar essa mesma formatura por mais de uma hora, pois fazia os militares ficarem em sentido, às vezes por cinco minutos!. (He would send them all in, he would call for the number, he would come to see if he was the person who answered, asking for identification, he faced us with the face of a warrior, but ridiculous, for he made the person he was facing laugh, then gave a turn in his he would analyze the hair, the beard, the uniform, the clean emblems, the greased boots, then he would pass an aggressive scrape, even without any reason!. This all at a stop and at a graduation, so at night, doing this same graduation for more than an hour, because it made the military stay in line, sometimes for five minutes)!.

…perdendo algum control, alguns dos instruendos mais atrevidos, começaram a mandar “bocas”, como por exemplo, “queres promoção”, “cabrão”, “lateiro”, “toma lá disto”, “filho da puta” e mais uns tantos nomes bastante depreciativos!. Uns falavam de uma ponta da formação e, quando ele corria a ver quem era, logo outro chamava da outra ponta, claro, toda a formatura se ria!. O homem queria mandar, tinha mesmo sede de mandar e, com os seus excessos, tornou-se ridículo!. Talvez tivesse sido treinado para isso!. (Losing some control, some of the more daring instructors, began to send “mouths”, as for example, “you want promotion”, “bastard”, “buttress”, “take it there”, “son of a bitch” and more a few very depreciative names!. Some spoke of one end of the formation and, when he ran to see who it was, then another called from the other end, of course, the whole graduation would laugh!. The man wanted to command, he was really thirsty to command and, with his excesses, he became ridiculous!. Maybe he had been trained for it)!.

…lembrando tudo isto, perguntámos: (Remembering all this, we asked):

  – O que é que se passou?. Eras comandante!. (What happened?. You were a commander)!.

”ele”, um pouco nervoso, tirou os óculos, limpou as lentes e respondeu: (“him”, a little nervous, took off his glasses, wiped his glasses and replied):

   – Do que é que o nosso primeiro cabo, está a falar?. (What the hell is our first corporal talking about)?.

…nós respondemos, quase sorrindo: (We respond, almost smiling):

– Olha, de uma noite miserável, que nos fizes-te passar num campo de treinos da província, em Portugal!. (Look, on a miserable night, that you made us pass a training camp of the province, in Portugal)!.

...”ele”, então baixa um pouco os olhos, e diz: (“him”, then lower your eyes a little, and say):

   – Eu sei, não és só tu que me tem dito isso, fui treinado e instruído para isso!. Essa noite era uma das provas da minha promoção, não fui muito feliz e castigaram-me, não me promoveram e tenho sorte em ser primeiro cabo, pois depois disso já fui castigado outra vez, por assuntos que não gosto de lembrar!. Agora estou aqui, com estas divisas e, tenho que provar mais alguma coisa!. Olha, por favor ajuda-me, diz-me se sabes onde é que vamos dormir, cheguei aqui à tão pouco tempo e já sou um militar abatido!. (I know, you’re not the only one who told me this, I’ve been trained and educated!. That night was one of the tests of my promotion, I was not very happy and they punished me, they did not promote me and I am lucky to be first corporal, because after that I have been punished again, for subjects that I do not like to remember!. Now I’m here, with these currencies, and I have to prove something else!. Look, please help me, tell me if you know where we are going to sleep, I came here so soon and I am already a military man killed)!.

…nós, não sabíamos onde é que “ele” ia dormir, mas ajudámos no nosso melhor, dizendo-lhe que não tinha que provar nada, tinha mas era que tentar sobreviver!. Recebeu da nossa parte todo o apoio que era possível, durante o tempo que esteve no posto avançado da vila de Mansoa, claro, explicando-lhe que às vezes à noite, depois da hora do recolher, (para que se lembrasse da tal parada do recolher), onde aqui, não havia recolher nenhum, pois os guerrilheiros costumavam dar tiros e atacar o aquartelamento com granadas de morteiro e, que nessa altura estávamos todos unidos protegendo-nos, não havia tempo para formaturas ou estar-mos na posição de sentido por cinco minutos!. (We did not know where “him” was going to sleep, but we helped at our best, telling him that he did not have to prove anything, he had but it was to try to survive!. He received from us all the support that was possible during the time he was at the outpost of the village of Mansoa, of course, explaining to him that sometimes at night, after the time of the gathering, (so that he would remember the to this night), where here, there was no one to graduation, for the guerrillas used to shoot and attack the barracks with mortar shells, and at that time we were all united protecting us, there was no time for graduations or we were in the sense position for five minutes)!.

…quando “ele” partiu para a zona de combate, desejámos-lhe a maior sorte do mundo, como a tantos outros!. (when “him” left for the combat zone, we wish him the best of luck in the world, like so many others)!.

Tony Borie, December 2018.

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